UOL Notícias Internacional
 

14/07/2007

Radicalismo entre profissionais muçulmanos preocupa muitos

The New York Times
Hassan M. Fattah *

Em Dubai, Emirados Árabes Unidos
Eles estavam entre alguns dos melhores e mais brilhantes no mundo muçulmano, pessoas que se esforçaram por anos para dominar suas áreas de conhecimento. Agora são acusados de tentar assassinato em massa.

Há semanas, comentaristas e analistas no mundo muçulmano lidam com as implicações de que um médico e engenheiro muçulmanos, pessoas que se encontram no topo de sua sociedade, podem estar por trás dos atentados fracassados com carro-bomba em Londres e Glasgow no mês passado.

A pergunta que é feita em muitos círculos eruditos e de autoridades é esta: como tais atos podem ser cometidos por pessoas que supostamente dedicaram suas vidas ao racionalismo científico e em ajudar o próximo?

A resposta, dizem alguns cientistas e analistas, pode estar na forma como um crescente movimento de muçulmanos fervorosos usa a ciência como reforço da crença religiosa, em vez de usá-la para questionar e explorar as fundações do mundo natural.

"Não surpreende que médicos e engenheiros estejam envolvidos nos movimentos políticos islamitas - tanto os violentos quanto os mais moderados", disse Taner Edis, professor associado de física da Universidade Estadual Truman, no Missouri, e autor de "An Illusion of Harmony: Science and Religion in Islam" (Uma Ilusão de Harmonia: Ciência e Religião no Islã).

Ele e outros que estudam os movimentos militantes islâmicos - e alguns que participam deles - dizem que o envolvimento de médicos e engenheiros em um ato de terrorismo não é chocante. Esta é uma região do mundo onde os cientistas muçulmanos estão entre os grupos mais politizados, e onde a abordagem muçulmana ao método científico, nos casos mais extremos, pode esmagar a livre curiosidade no coração da descoberta científica.

"As posturas do tipo fundamentalista são relativamente comuns entre pessoas de ciência aplicada no mundo muçulmano", disse Edis. "O conceito é de que a ciência moderna é desenvolvida no exterior e precisamos trazê-la para nossas sociedades sem que corrompa nossa cultura."

Em outras palavras, a ciência é uma ferramenta para promover a ideologia em vez de um meio de examinar as crenças centrais.

Para islamitas como Zaghloul El Naggar no Cairo, Egito, que apresenta um popular programa de televisão sobre os ensinamentos científicos do Alcorão, toda a ciência pode ser descoberta dentro do Alcorão - da causa dos terremotos à genética. Tais vínculos diretos entre ciência e religião no final obstruem o método científico tradicional ao tornar tabu certas questões, disseram os analistas.

"Você tem a ascensão de um novo tipo de figura religiosa que não é um clérigo, e toda sua autoridade é a de um cientista", disse Todd Pitock, que faz um perfil de Naggar em um artigo sobre o Islã e a ciência na edição de julho da revista "Discover". "Todo o propósito da ciência para alguns islamitas é usá-la para reforçar a fé; realmente não tem nada a ver com a ciência em si."

Medicina e engenharia há muito tempo são duas das profissões mais prestigiadas no mundo árabe, e muitos de seus escritores, pensadores e políticos mais ilustres ascenderam em escolas de engenharia e medicina.

Muitos líderes militantes de destaque também se formaram nestes cursos. Entre eles estão George Habash, um médico e fundador da esquerdista Frente Popular para a Libertação da Palestina; o falecido Fathi Shikaki, um médico e fundador da Jihad Islâmica palestina; Mahmoud Zahar e vários outros líderes do Hamas, formados em medicina; Osama Bin Laden, um engenheiro, e Ayman Al Zawahri, seu nº 2 na Al Qaeda, antes um médico praticante.

Nem tais militantes ficam restritos ao mundo árabe; eles estão entre uma lista de médicos e cientistas radicais que ascenderam em movimentos e grupos esquerdistas e extremistas nas últimas décadas no Ocidente, Ásia e mundo árabe, incluindo Che Guevara.

Os extremistas, é claro, são uma minoria minúscula em meio aos milhares que se formam nos cursos científicos da região a cada ano. Mas cada vez mais, dizem analistas e pesquisadores, as escolas de engenharia e medicina da região se tornam berços de ativismo político e islâmico. Muitos médicos árabes, por sua vez, têm liderado a investida contra a interferência americana, israelense e ocidental, apoiados por seus papéis honrados pelo tempo de líderes comunitários.

"O médico por muito tempo representou uma figura capaz de realmente decidir a vida e a morte", disse Sari Nasser, professor de sociologia da Universidade da Jordânia. "Agora os médicos têm esta tradição de que têm que liderar as pessoas e não decepcioná-las. Este é um motivo para os médicos apresentarem tamanha liderança na luta contra o Ocidente."

Na escola de medicina da Universidade da Jordânia, por exemplo, onde Mohammed Asha, um suspeito do atentado em Glasgow, foi um estudante de destaque, a política tem um papel proeminente na vida estudantil. Os estudantes de medicina lideram manifestações, arrecadação de fundos e boicotes contra Israel, Estados Unidos e outras causas.

Para alguns professores, a surpresa foi Atta, que parecia bastante apolítico durante sua passagem pela escola, estar ligado à militância islâmica. "Eu poderia ter aceito isto de alguns outros estudantes", disse um de seus professores, que falou sob a condição de anonimato. "Mas ele não era um ativista como os outros."

Hassan Abu Hanieh, que pesquisa e tem laços estreitos com movimentos militantes islâmicos na região, disse que eles têm sua própria perspectiva científica, na qual há perguntas simples e respostas claras. "Eles têm uma equação que é um mais um igual a dois - Israel é o inimigo e seus aliados são apóstatas, por exemplo", ele disse.

"Se estes são os sintomas então esta é a doença", ele acrescentou. "Eles diagnosticam o Ocidente e o consideram seu inimigo. A mentalidade deles é rígida e seu conhecimento baseado em fatos, com uma opinião formada e nenhum espaço para intercâmbio de pontos de vista."

Talvez fosse inevitável, disseram ele e outros, o recrutamento pela Al Qaeda de médicos e cientistas muçulmanos para sua ideologia também por motivos táticos. O próprio Zawahri supostamente recruta pessoas que possam se misturar no Ocidente, e estudantes de medicina e engenharia, que possuem um bom domínio do inglês, seriam candidatos naturais.

"Em qualquer lugar onde você vá no mundo muçulmano, aqueles que são os mais violentos e mais extremistas são aqueles que têm a inclinação mais científica", disse Abu Hanieh. Alguns dos movimentos políticos mais extremistas do mundo muçulmano, ele disse, começaram dentro de universidades e cursos científicos e depois se tornaram populares.

"É possível argumentar que as ciências podem contribuir para o aumento do pensamento radical de alguém caso o radical encontre justificativas para sua filosofia por meio da ciência", ele disse.

Para muitos médicos muçulmanos no Ocidente, as implicações acrescentam mais um desafio.

"90% de nós não se envolve em ativismo político: qual é a diferença entre os 99% e o 1% que opta pelo extremismo violento?" disse Hasan Shanawani, um alto membro da Associação dos Profissionais de Saúde Muçulmanos, em Downers Grove, Illinois, que disse que os médicos normalmente já são vigiados por erros médicos e agora terão que ficar igualmente vigilantes em relação ao extremismo. "Como encontrar tal agulha no palheiro? Isto é o que realmente nos incomoda."

* Suha Maayeh, em Amã, Jordânia, e Nada Bakri, em Beirute, Líbano, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h40

    0,42
    3,171
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h45

    0,34
    74.696,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host