UOL Notícias Internacional
 

15/07/2007

Amor moderno: uma terceira pessoa caberia em nossas vidas?

The New York Times
De Ronda Kaysen
Duas semanas depois que meu marido e eu deixamos nossos empregos e nosso apartamento no Brooklyn e fomos para o México, para viajar e trabalhar como repórteres autônomos, descobri que estava grávida. Um dos temas sobre os quais eu pretendia escrever no México eram suas leis restritivas ao aborto. E agora eu mesma estava pensando em fazer um.

Embora minha menstruação estivesse dez dias atrasada, eu não tinha pensado que pudesse estar grávida. Já havia tido alguns atrasos antes. Comprei um teste de gravidez. Quando o sinal de 'mais' acendeu firmemente, fiquei olhando, incrédula. Eu sempre tinha usado controle de natalidade, e o mês anterior havia sido uma confusão de arrumar malas e festas de despedida que eu nem me lembrava de ter feito sexo.

Como jornalistas vivendo em Nova York, David e eu decidimos ir para o México para aprender espanhol e entrar no jornalismo internacional. David trabalhara por mais de dez anos como correspondente da agência de notícias Reuters. O México seria sua ruptura, uma oportunidade de repensar sua carreira e talvez escrever um livro. Para mim, seria a oportunidade de deixar os jornais locais e cobrir assuntos internacionais para publicações americanas.

Agora, vivendo em Michoacan, um estado mexicano onde há uma séria guerra de drogas (cabeças decapitadas apareceram recentemente numa boate na vizinha Uruapan), não tínhamos renda nem casa fixas, e só planos vagos.
Um desses planos era explorar as pujantes cidades do país e viajar a pé pelas selvas do sul, e não marcar exames de ultrassom e freqüentar aulas de parto. Ainda não tínhamos um mapa da região, muito menos um obstetra.
"Não precisamos ficar com ele", eu disse a David.

Ele pôs as mãos na cabeça. Pude ver pela rigidez de seus ombros que ele não queria o bebê. Apesar de estarmos juntos há quatro anos, só estávamos casados há seis meses. "Podemos ir para os EUA e fazer o aborto", ele sugeriu.

Era 20 de novembro, o aniversário da revolução mexicana de 1910. Os sons de um desfile na rua --bandas, megafones e risos de crianças-- entravam por nosso apartamento. Eu me encolhi na cama e chorei.

Vinte de novembro também era o aniversário de minha mãe. Esta sempre foi uma pessoa calma, racional. Telefonei, sem pensar em como ela poderia reagir. Estava absorta demais em minha própria situação para lembrar que há meses ela pressionava minha irmã para lhe dar um neto.

- Estou grávida, eu disse de uma vez.
- Oh, meu Deus!, ela gritou. É o melhor presente que você poderia me dar!
- Não, não, não, eu disse. Não é uma boa notícia. Não podemos ter o bebê.
- Ah, vocês precisam tê-lo.
-O momento é péssimo, insisti. Acabamos de chegar aqui, estamos vivendo de economias. Não posso ficar grávida aqui.
- Talvez vocês tenham de voltar e David arranjar um emprego, mas vocês estão na idade ideal. Você pode parar por um tempo. Oh, vocês precisam ter esse filho. E se você nunca mais engravidar?
Ela me falou sobre uma amiga casada que tinha abortado um bebê porque não era a época certa. Anos depois, quando chegou o momento ideal, ela e o marido não conseguiram conceber.

No que me dizia respeito, a fertilidade não estava em questão. Afinal, eu conseguira engravidar usando uma esponja contraceptiva. Mas eu a escutei.

Essa gravidez não era conseqüência de uma relação esporádica. David e eu não éramos adolescentes, mas adultos casados, com meios econômicos, apesar de nossa situação financeira estar num momento frágil. Já tínhamos conversado sobre formar uma família dentro de dois ou três anos.

Ele e eu fomos dar uma volta pela cidade, que estava cheia de famílias comemorando o feriado. Na escadaria de uma das muitas igrejas da cidade, conversamos sobre o que minha mãe havia dito. Então dei uma sugestão que surpreendeu até a mim mesma: se pretendíamos ter filhos um dia, por que não começar agora?

David ficou perplexo. Lembrou-me de que tínhamos decidido nos dedicar a nossas carreiras profissionais nos primeiros anos de casamento, e uma grande parte disso era vir para cá. Por que eu estava vacilando? Então ele começou o discurso pró-opção --o aborto era nosso direito, era legal nos EUA por algum motivo; devíamos poder ter filhos quando estivéssemos prontos.

Quanto mais ele falava, mais eu via bebês. De repente, para mim, o México era um país cheio de bebês gorduchos aninhados nos braços dos pais, enrolados em cobertores enormes ou tentando correr atrás de seus irmãos. Em Morelia, capital de Michoacan, as pessoas levam os filhos para toda parte --a shows, restaurantes e para passear nas praças domingo à tarde. Ao vê-los agora, parecia-me muito natural começar nossa família.

No dia seguinte, o enjôo matinal me atacou terrivelmente, e meu idealismo despreocupado da véspera evaporou. David tinha razão: não podíamos ter esse filho. De modo algum estávamos preparados para isso agora e aqui. Que tipo de mãe seria eu se não pudesse dar a meu filho as necessidades básicas como uma casa, cuidados de saúde e segurança financeira?

Desanimada e enjoada, liguei para uma clínica de abortos em Los Angeles, onde minha irmã morava, e marquei uma consulta. A mulher perguntou friamente minha idade --29. Quantas gravidezes anteriores? Nenhuma.

Eu disse a ela que estava morando num país onde o aborto é ilegal. Se eu tivesse complicações ao voltar, perguntei, um médico poderia suspeitar que eu tinha feito o aborto no México e me delatar à polícia? Imaginei-me tendo de ligar para a embaixada americana e apresentar às autoridade mexicanas recibos da clínica de abortos, para me defender.

Ela fez uma pausa e sua voz ficou mais gentil: "Diga a eles que você teve um aborto natural. Nenhum médico poderá diferenciar".

Eu desliguei aos soluços. David tentou me consolar, mas eu estava furiosa com ele. Por que tínhamos vindo para cá, afinal? Todos os nossos motivos pareciam tão vagos e sem sentido... E por que ele não estava tão torturado por essa decisão quanto eu estava?

Tínhamos passado meses planejando a mudança, e eu sabia que David queria isso mais que tudo. Se eu insistisse em ter o bebê e voltar para casa, temia que ele ficasse com raiva de mim, ou, pior, do bebê. Mas se eu fizesse o aborto porque ele queria, certamente ficaria com raiva dele.

Ou poderíamos passar seis meses aqui e decidir que o México não era o que queríamos e simplesmente voltar para casa. Essa breve experiência teria compensado não ter o bebê?

Recorri à Internet, esperando encontrar algo esclarecedor. Em vez disso, encontrei sites antiaborto que me aterrorizaram com imagens de fetos mortos e histórias de mulheres que ficaram prejudicadas para sempre. Os sites opostos, que davam estatísticas de mulheres que prosperaram depois do aborto e relatavam a luta política para manter o aborto como opção, não eram muito melhores. Eu procurava orientação, e achei o discurso político insignificante e inútil.

Enquanto isso, meus enjôos matinais pioravam. Andando pelas ruas perto da nossa escola de espanhol, passávamos por 'taquerias' de portas abertas que vendiam 'carne de cabeza' (de vaca). Em outros restaurantes, leitões cor-de-rosa giravam em espetos, com a gordura pingando na calçada. E a cidade inteira, desde nosso apartamento até cada esquina, cheirava a feijão azedo --o odor de um aditivo usado para dar um cheiro ao gás natural- que alimentava minha náusea constantemente.

Para David, meu enjôo matinal era mais uma prova de que não estávamos preparados para lidar com uma gravidez num país onde até a água potável era rara. Para mim, esses obstáculos me ligavam ainda mais à gravidez --eu pensava que tinha de proteger meu bebê.

Dois dias antes de voarmos para Los Angeles, David e eu estávamos deitados na cama, um de frente para o outro. Precisávamos tomar uma decisão. Tínhamos esperado silenciosamente que o outro mudasse de idéia, mas estava claro que nada havia mudado.

- Eu não quero deixar o México, David disse. Não quero desistir antes de tentar.
- Por que temos de ir embora?, perguntei de repente. Por que não temos o bebê aqui?

Era minha única alternativa para chegar a um compromisso. Ele balançou a cabeça.

- Os táxis aqui nem têm cinto de segurança. Eu ficaria maluco dirigindo por aí com você grávida.
- Você já está dirigindo comigo grávida.
- Você não vai poder caminhar pela selva, ele disse. Ou subir nas pirâmides.
- Não é uma doença, eu disse. É uma gravidez.
- Onde vamos morar?
- Temos nove meses para encontrar um lugar.
- E nossas carreiras?
- As pessoas com filhos têm carreiras, eu disse.

Enquanto eu dizia essas coisas em voz alta, elas pareciam cada vez mais plausíveis. O que havia parecido o fim do mundo dias atrás começava a soar como o início de um caminho totalmente diferente, que ainda incluiria visitas às aldeias dos índios tarascan e caminhadas pela floresta, mas também exames pré-natais e um novo vocabulário de espanhol, com palavras como 'estrias'.

David virou-se e olhou para o teto. Os gritos de homens vendendo 'tamales' entravam por nossa janela. Ele fechou os olhos. Vi que estava imaginando trabalhar e viajar pelo México em um trio.

- Está bem, ele disse finalmente. Vamos ter o bebê.

Viajamos para Los Angeles da mesma forma, mas em vez de ir para um aborto fomos em busca de apoio da família, água potável e pizza, que era mais tolerável para mim naquela situação do que "tacos" de cabeça de vaca.

Eu tinha falado com minha mãe várias vezes durante nossas semanas de deliberação, e essas conversas lhe deixaram a impressão de que não teríamos o bebê.

No dia seguinte à minha chegada, telefonei para ela do apartamento de minha irmã.

- Cancelei a consulta, disse. Vamos ter o bebê.
- Oh, Ronda, ela disse. Então, continuou, você precisa ver um médico em L.A. Faça seu primeiro exame pré-natal aí. Verifique se está tudo bem. Talvez um médico daí possa lhe indicar algum no México.

Escutando a animação em sua voz --seu primeiro neto estava a caminho--, percebi que David e eu tínhamos passado do ponto de retorno.

Passaram-se oito meses desde aquele dia --um redemoinho de consultas médicas e aulas de parto Lamaze em espanhol, de mudança para a Cidade do México, subidas em pirâmides, passeios na selva e aprender a trabalhar aqui enquanto me adaptava à futura maternidade.

Durante tudo isso, minha barriga inchada foi menos um problema do que um passaporte para um mundo totalmente novo. Encontrei novos assuntos para conversar com as mulheres mexicanas. Minha cabeleireira adora massagear minha barriga e sentir o bebê chutar, e recentemente me mostrou a cicatriz de sua cesariana.

Enquanto escrevo isto, as roupas novas do bebê estão secando no terraço, aguardando seu nascimento iminente. Estou alegremente ansiosa para ver aonde ele vai nos levar. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,63
    3,167
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,87
    65.667,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host