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15/07/2007

Os Mutantes saboreiam um grande retorno

The New York Times
De Larry Rohter


Em São Paulo
Os Mutantes representam para esta metrópole, a maior da América do Sul, o que o Grateful Dead representava para San Francisco, o Velvet Underground para Nova York ou o Nirvana para Seattle. Resumindo, eles são uma banda emblemática associada de forma indelével a um local, tempo e estilo musical específicos.

Nino Andrés - 07.jun.2007/Divulgação 


Mas diferente de seus pares americanos, os Mutantes ainda estão tocando, por mais improvável que possa parecer dado sua história pessoal, política e comercial. Após três décadas separados, os integrantes da banda se reuniram no ano passado para um concerto em Londres, gostaram do resultado e agora estão excursionando e compondo novamente, 40 anos depois de começarem a ensaiar no porão da casa dos irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista.

Aqui, onde em sua primeira encarnação eles eram constantemente perseguidos pela ditadura militar que considerava ameaçadores o estilo hippie e as letras psicodélicas, o retorno da banda foi celebrado. Eles recentemente conquistaram o equivalente brasileiro do prêmio Grammy de melhor banda, e na turnê que tem tomado boa parte do ano, tocam para platéias compostas em grande parte por fãs que sequer haviam nascido quando eles se separaram.

Talvez de forma ainda mais surpreendente, ao longo da última década Os Mutantes se tornaram também uma banda cult para a nova geração de músicos do mundo de língua inglesa, que consideram a banda como uma pioneira não reconhecida. Beck batizou um de seus álbuns, 'Mutations', em homenagem à banda, e entre outros admiradores estão Nelly Furtado, David Byrne, Sean Lennon e Devendra Banhart.

Em 1999, o selo Luaka Bop de David Byrne lançou uma coletânea da música da banda, chamada 'Everything Is Possible! (Tudo É Possível!)', que estimulou nova curiosidade. De lá para cá, o interesse entre os descolados do pop cresceu a ponto de todo o catálogo dos Mutantes atualmente estar disponível nos Estados Unidos, incluindo 'Technicolor', um disco em inglês que ficou esquecido nos arquivos de uma gravadora desde 1970.

"Normalmente você só tem uma chance na vida de fazer algo realmente especial e significativo, isto se você tiver sorte", disse o guitarrista Sérgio Dias, 56 anos. "Mas nos foi dado um presente especial de ter uma segunda chance, e enquanto estávamos apenas pegando a onda na primeira vez, agora estamos mais maduros e realmente podemos desfrutar tudo o que está acontecendo."

Juntamente com os cantores-compositores Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, Os Mutantes foram fundadores do Tropicalismo, o controverso movimento contracultural que surgiu aqui no final dos anos 60. Eles ajudaram a introduzir instrumentos elétricos e ritmos de rock na música popular brasileira, e ao utilizarem técnicas de colagem e exibir uma queda pela ironia, eles definiram uma estética que domina grande parte da música pop atual.

"Eles não soavam como os Beatles, mas foram músicos inovadores, magistrais, da mesma forma que os Beatles, trocando estilos de uma música para outra e até mesmo de um verso para outro, misturando psicodelia, ritmos tribais africanos, tango, ragas, Motown, até mesmo polca", disse Banhart, em uma entrevista por telefone de San Francisco. "Ao mesmo tempo eles gozavam de tudo e todos, como adolescentes traquinas e rebeldes do fundo da sala de aula."

Um sinal de quanto o Brasil mudou desde a época do Tropicalismo é o fato de Gil, que naqueles tempos às vezes se apresentava acompanhado pelos Mutantes, atualmente ser o ministro da Cultura. Ele ajudou a organizar a exposição cultural de 2006 em Londres, dedicada ao Tropicalismo, que levou ao renascimento dos Mutantes, e disse que há uma justiça poética no retorno da banda à atividade.

"Os Mutantes foram um fenômeno extremamente importante, não apenas musical, mas também político, porque eles inseminaram um novo espírito --o da política do êxtase-- no corpo político brasileiro", disse Gil em uma entrevista. "Eles foram parte de um momento revolucionário na música e costumes brasileiros, de forma que o retorno deles tem um elemento de restauração, de devolver algo que foi despedaçado nos processos violentos em curso naquela época."

Como os generais que governaram o Brasil de 1964 a 1985 consideravam os Mutantes como apóstolos perigosos do 'sexo, drogas e rock and roll', as apresentações do grupo às vezes sofriam batidas ou eram interrompidas. Não que os Mutantes não apreciassem seu papel de provocadores: Sérgio Dias zombava dos militares se apresentando em uniforme napoleônico, enquanto seu irmão Arnaldo Baptista, o baixista e tecladista da banda, vestia batina de padre e a cantora Rita Lee aparecia em vestido de noiva. A vida após a separação da banda no final dos anos 70 também não foi fácil, especialmente para Arnaldo. Em 1982 ele caiu da janela da ala psiquiátrica do hospital onde foi internado após anos de uso de LSD e outras drogas. Ele fraturou o crânio, entrou em coma e recebeu alta quatro meses depois, após passar por cirurgia e terapia.

"Foi um milagre eu ter sobrevivido", disse Arnaldo, frágil e hesitante aos 58 anos. "Às vezes eu digo coisas que as pessoas não entendem" em conseqüência do acidente e dos medicamentos que toma, "mas como diz a canção dos Stones, você nem sempre consegue o que deseja".

A carreira de Sérgio Dias, por outro lado, seguiu um caminho itinerante, porém mais convencional. Ele se mudou para Nova York em 1980 e permaneceu lá por uma década, tocando e excursionando com músicos de mentalidade semelhante, muitos de orientação jazz-fusion, das bandas de Frank Zappa, John McLaughlin, Jan Hammer e Lou Reed, e gravando um disco com o guitarrista Phil Manzanera do Roxy Music.

"O lance de estar nos Mutantes era que eu sempre tocava com as mesmas pessoas, porque a banda era um universo muito forte e unificado", ele explicou. "Por ter tido muito pouco contato com outros músicos, ir aos Estados Unidos me proporcionou algo novo, tocar estilos diferentes e me colocar à prova."

O terceiro âncora da banda, o baterista Ronaldo Leme, conhecido como Dinho, acabou abandonando a música. Ele abriu uma agência de relações públicas, trabalhando primeiro para clubes noturnos e depois passando a representar pilotos de Fórmula Um e Stock Car no Brasil.

"Quando chegaram os anos 80, a música estava muito ruim e eu odiava estar fora às 3h da manhã divulgando uma discoteca que nem gostava", ele disse. "Para mim Os Mutantes tinham acabado. Mas eu sentia falta da bateria e tocava sempre que podia, e escutava muitos discos que não tinha ouvido antes, principalmente de jazz, como Stanley Clarke e Jimmy Smith, mas também Frank Sinatra."

Ausente da reunião dos Mutantes, para desalento de alguns fãs tanto aqui quanto no exterior, está a cantora original, Rita Lee, que foi demitida da banda em 1972, mas seguiu uma carreira solo de muito sucesso e, mais recentemente, como apresentadora de um talk-show de televisão. Na formação original, ela foi a contraparte criativa e romântica de Arnaldo Baptista, não apenas como parceira de composição mas também, por um breve e tumultuado período, como sua esposa.

"Eu não quero depreciar o brilhantismo de Sérgio como instrumentista, mas em termos de idéias e conceitos na primeira encarnação da banda, Arnaldo estava em primeiro lugar, seguido por Rita", disse Carlos Calado, autor de 'A Divina Comédia dos Mutantes', uma biografia do grupo publicada há uma década. "Os dois tinham uma química muito especial, mas atualmente não há dúvida de que Sérgio é o líder e fala pelo grupo."

Apesar de Dinho ter dito que Rita, 59 anos, o contatou nos anos 90 sobre a possibilidade de uma reunião, ela a tem criticado na imprensa brasileira, dizendo que não deseja se ver associada a um "um bando de velhos arrecadando dinheiro para seus tratamentos geriátricos". Os membros da banda responderam na mesma moeda, dizendo que se tivesse participado, seria mais fácil para ela pagar pelo 'botox' e cirurgia plástica que disseram que ela fez.

Assim, os outros Mutantes originais se voltaram para Zélia Duncan para ocupar a vaga da cantora e contrataram meia dúzia de outros músicos para encorpar o som. Zélia Duncan é do Estado do Rio de Janeiro, não de São Paulo, e tem uma carreira solo bem-sucedida há quase duas décadas, mas não hesitou diante do convite de Sérgio Dias para ingressar na banda.

"Eu me lembro de assistir os Mutantes na televisão quando era pequena, então quando Sérgio me chamou, eu fiquei empolgada, é claro, mas também um pouco preocupada", disse Zélia, 42 anos. "Rita é uma das criadoras desta obra, mas segundo meu ponto de vista, eu estou aqui não para substituí-la, mas para fazer minha própria coisa."

O estilo de cantar de Zélia, como ela prontamente reconhece, é bastante diferente do de sua antecessora. Ela é uma contralto mais pé no chão, até mesmo estridente, cuja voz contrasta com o som mais etéreo e raízes folk de Rita Lee. Ou como Arnaldo coloca de forma humorada: "Ela é mais Led Zeppelin, enquanto Rita era uma banana".

Com um CD e DVD ao vivo do show de 2006 em Londres já lançados e um novo álbum planejado para 2008, os Mutantes se disseram surpresos e lisonjeados em se verem citados como influências por artistas jovens o bastante para serem seus filhos. Mas quando perguntados sobre o que é responsável por tal popularidade, eles soam hesitantes, mesmo desconcertados.

"Eu suspeito que é o mesmo que ainda me atrai, as texturas e arranjos", disse Sérgio Dias. "Nós tínhamos uma forma diferente de composição e combinação de letras e som. Eu me lembro de ter dito na época que estávamos apenas tocando rock exatamente da mesma forma que uma banda inglesa ou americana tocaria, mas quando escutamos agora, tudo parece tão totalmente diferente que me pergunto como conseguimos tal nível de profundidade em uma idade tão jovem."

Sérgio Dias lembrou que na adolescência, ele e seu irmão escutavam a BBC em ondas curtas, tentando gravar os sucessos mais recentes em Londres para que pudessem aprender a tocá-los, meses antes dos discos chegarem aqui. O som às vezes sumia, de forma que apesar de poderem ouvir as melodias, eles às vezes tinham que preencher os detalhes com harmonias e arranjos que viessem à mente.

"O lance com Os Mutantes é que a música não tem data de validade, existindo fora do reino do tempo", disse Banhart com admiração. "Eles são verdadeiros exemplos de um tipo de abertura e conscientização global, multicultural, que estava muito à frente do seu tempo."

Kurt Cobain, do Nirvana, foi outro admirador que elogiou Os Mutantes e ajudou a lhes dar a aura badalada que levou à ressurreição da banda. Quando o Nirvana tocou no Brasil em 1993, ele tentou se encontrar com Arnaldo Baptista, e quando isto não deu certo, ele enviou um bilhete que agora parece profético.

"Arnaldo, tudo de bom para você e tenha cuidado com o sistema", ela dizia. "Ele engole você e o cospe como um caroço de cereja".

Quando perguntado sobre o bilhete, Arnaldo disse: "Eu já fui engolido, mastigado e cuspido. Mas eu fui salvo e agora estou recomeçando." George El Khouri Andolfato

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