UOL Notícias Internacional
 

17/07/2007

A vida nas ruas indisciplinadas do Cairo

The New York Times
Michael Slackman*

No Cairo, Egito
Ahmed Hussein pode muito bem ter um dos empregos mais assustadores no Egito. Toda manhã, por volta das 7 horas, ele assume sua posição no meio de alguma rua, em algum lugar nesta cidade de 2 milhões de veículos, e tenta orientar o trânsito.

Neste dia ele estava responsável pela rua Talat Harb, no coração do Cairo. Ele estava diante de cinco filas de carros espremidas em três faixas de trânsito, uma cena intimidadora em imagem e som. Sua tarefa é assegurar que os carros de fato parem diante do sinal vermelho antes de acelerarem para uma rotatória. No Egito, luz vermelha e verde é tudo a mesma coisa.

"O mais importante para nós é que as pessoas sigam as regras", disse Hussein com tamanha atenuação do problema que poderia também ter notado quão diferente a vida seria no Oriente Médio se houvesse paz entre israelenses e palestinos.

O trânsito aqui, e o exército de policiais que tentam administrá-lo, diz muito sobre o Egito moderno de muitas formas. A princípio parece dizer que não importa quão saturado, e está além de saturado, não importa quão caótico, e está além de caótico, o Egito funciona.

Os pobres conseguem comer. As crianças vão à escola. As repartições do governo abrem e fecham. O lixo é coletado. E o trânsito flui, ou talvez a melhor descrição seja se arraste.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Guarda de trânsito em Cairo, Egito, pára trânsito para a passagem de pedestres

De fato, é um milagre que alguém consiga ir do ponto A ao ponto B em certos horários do dia, a ponto de alguns dizerem que deve ser resultado da intervenção divina. E este pode ser o segundo ponto. Ninguém diz que o trânsito é responsável pelo revival islâmico no Egito, mas algumas pessoas dizem que o fardo da rua, como a luta do dia-a-dia, reforçou a convicção de que a mão de Deus deve estar ajudando as pessoas a superarem seu dia.

"É incrível quantas pessoas sobrevivem, como o Egito permanece em pé, e como as pessoas às vezes ainda conseguem, se forem bastante pacientes, chegar aos seus destinos", disse Osama Anwar Okasha, um redator de televisão cujos programas exploram a vida política e social do Egito. "É como se houvesse um milagre. A solução está nas mãos de alguma força invisível."

Caos. É uma palavra freqüentemente associada às ruas do Egito, sua burocracia enlouquecedora, seu sistema de saúde despreparado. Mas é caos apenas para o olhar não treinado, para os não iniciados, e no caso de dirigir aqui, para os de coração fraco. Há um sistema, de cima para baixo, que pode ser corrupto, baseado em classes, ineficiente, mas ainda assim é um sistema.

Os motoristas quase nunca olham para trás. E raramente olham para o lado. Em vez disso, todo o fluxo de carros se move como um cardume de peixes, diretamente à frente, então serpeando, se arremessando em uníssono. O trânsito pára, geralmente, quando um guarda de trânsito pisa na rua.

"Em todos os países civilizados não há algo como um sujeito em pé sinalizando por 10 horas", disse o general Hussein Bedeir, que supervisiona os guardas de trânsito. "Mas aqui, é o que as pessoas estão acostumadas."

No geral, o sistema egípcio parece funcionar segundo três princípios básicos: cada um por si; quando necessário, ofereça algum dinheiro; e aceite que o dinheiro e os contatos sempre vêm primeiro.

"Nós somos um povo que não faz as coisas a menos que haja alguém que nos obrigue a fazer", disse Essam Qassem, um taxista que abria seu caminho à força pela rua Hassan Sabry, no bairro de classe alta de Zamalek. "Nós não cumprimos as leis por conta própria."

Mas as pessoas aqui dizem que a natureza sem lei dos motoristas não é por acaso. Os mesmos guardas de trânsito ordenados a fazer o trânsito fluir também são ordenados a fazê-lo parar. Eles fecham as ruas para que o "Importante" não tenha que tolerar a indignidade do trânsito parado. Isto enlouquece as pessoas.

Tal senso de injustiça, sentido pelo homem comum preso por horas no trânsito congestionado, alimenta o desrespeito pela lei em geral, disseram pessoas daqui.

"O problema do Egito não é que o povo egípcio não goste de ordem", disse Salah Eissa, editor do "Al Qahira", um jornal semanal publicado pelo Ministério da Cultura. "É o problema de fazer exceções na aplicação desta ordem - e isto vale para o trânsito. É algo que provoca os egípcios e os leva a pensar que como tudo é uma questão de quem pode mais, então que seja cada um por si e todos se tornam abusivos."

De volta à rua Talat Harb, o dia estava esquentando e o rádio de Hussein grasnando feito louco. Buzinas. Fumaça dos escapamentos. Motoristas agressivos.

"Você se acostuma", disse Hussein.

Há 6 mil guardas de trânsito no Egito, e apenas no Cairo a polícia estima que orientem mais de 2 milhões de carros espremidos em um sistema projetado para acomodar meio milhão de carros.

A polícia em cada cruzamento é dividida por graduação, e os homens de longas mangas pretas estão na base da escada.

"Sim, está muito quente", disse Said Galal Ahmed, 21 anos, em um dia em que a temperatura passou dos 38ºC.

Ahmed estava vestindo um colete plástico refletivo, mangas longas pretas sobre suas mangas longas brancas. Ele é um recruta militar que recebe cerca de US$ 26 por mês. Ele deve servir por três anos. Seu único dever é pisar na rua para parar o trânsito, então acenar para que ande quando for a hora.

Hussein está um degrau mais alto da escada. Ele vestia uma camisa leve de manga curta e portava um walkie-talkie, o símbolo universal de poder no Oriente Médio. Qualquer um pode carregar uma arma, mas um rádio bidirecional representa fazer parte de algo maior, algo com poder: neste caso, a polícia egípcia.

Com seus superiores por perto, Hussein limitava sua conversas e sorria bastante. Mas do outro lado da cidade, um policial de trânsito chamado Muhammad Ahmed era mais franco. Ele disse que ganhava cerca 400 libras por mês, cerca de US$ 70, dos quais 150 libras eram reservados para o aluguel.

Para equilibrar o orçamento, ele disse que tinha outros empregos, e sem dizê-lo reconheceu outro fato da vida no Egito: a polícia de trânsito rotineiramente aceita "gorjetas" para permitir que as pessoas estacionem ilegalmente, para liberar carros guinchados, para fazer vista grossa.

"Apesar de reconhecermos que os salários são baixos, esta é a capacidade do país", disse Ahmed Assem, um funcionário de relações públicas da polícia de trânsito.

As propinas não são exatamente permitidas, mas são consideradas como uma válvula de escape, uma forma das pessoas ganharem um dinheiro extra em um momento em que os preços estão subindo e os salários não. Também é disseminada por todo o sistema.

"A corrupção é disseminada na sociedade porque se tornou parte do modo de vida daqui", disse Abdel Fattah Al Gebaly, um economista do Centro Ahram para Estudos Estratégicos e Políticos do Cairo, financiado pelo governo. "A cultura social começou a justificá-la - as pessoas a consideram atualmente um tipo de 'rizq', uma bênção de Deus."

Com sua renda e despesas, Ahmed disse que realmente não sabe explicar como sobrevive, o que traz a discussão de volta aos dois primeiros pontos. O sistema funciona, mas deve conseguir com alguma ajuda de cima, ele disse.

"Não me pergunte como consigo chegar ao fim de cada mês", ele disse. "Deus nos abençoa e damos um jeito."

* Contribuiu Mona El Naggar George El Khouri Andolfato

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