UOL Notícias Internacional
 

17/07/2007

Desassistidos pelos EUA, trabalhadores contratados no Iraque pagam um preço alto

The New York Times
John M. Broder
Em Houston
Os Estados Unidos deram muito a Shaheen Khan. E também tiraram muita coisa dela.

Três anos atrás, ela era professora de um jardim-de-infância em Houston, uma mulher tranqüila, de voz melódica, que encantava as crianças com as estórias que contava do seu Paquistão natal.

Atualmente ela divide um quarto com outra paciente em uma sombria clínica na periferia de Houston, paralisada do tórax para baixo, presa a uma cadeira de rodas e atormentada pela opção funesta que fez no verão de 2004 ao tentar refazer a sua vida.

Mergulhada em dívidas e atormentada por um casamento por vezes difícil, Khan ingressou na companhia KBR, uma prestadora de serviços para as forças armadas, a fim de lavar roupas para as tropas dos Estados Unidos no Iraque, um emprego que prometia o triplo dos US$ 16 mil anuais que ela ganhava no jardim-de-infância. Quando lhe disseram que o seu trabalho restringir-se-ia à Zona Verde em Bagdá, ela se convenceu de que estaria segura.

Michael Stravato/The New York Times 
Shaheen Khan, que foi ferida enquanto prestava serviço ao exército no Iraque, e seu marido


Cinco semanas após chegar ao Iraque, ela seguia em alta velocidade por uma estrada de Bagdá em um Chevrolet Tahoe quando o motorista deu uma guinada na direção para evitar uma caixa que ele temia ser uma bomba. O veículo capotou cinco vezes, deixando Khan suspensa pelo cinto de segurança, inconsciente e com um esmagamento na coluna vertebral. Os médicos lhe disseram que ela jamais voltaria a andar.

Ela não é propensa à auto-comiseração, mas quando lhe perguntam o que espera pela frente, os olhos de Khan tornam-se embaçados. "Nada", diz ela. "Agora a minha vida está praticamente acabada".

Essa é a face da batalha em uma nova guerra e em um novo século - uma mulher paquistanesa-americana de 46 anos, enviada para a zona de guerra como parte de um exército contratado de 130 mil civis que prestam apoio a 150 mil soldados e fuzileiros navais norte-americanos.

Esses trabalhadores contratados preparam refeições, lavam roupas, transportam combustíveis, fazem manutenção das armas e guardam bases. Em suma, fazem serviços que os recrutas militares estariam fazendo em qualquer exército norte-americano anterior ao atual. Eles morrem e sofrem ao lado dos seus irmãos e irmãs de uniforme. Cerca de mil trabalhadores contratados foram mortos no Iraque desde o início da guerra, e quase 13 mil foram feridos.

As conseqüências da guerra serão duradouras para muitos deles e suas famílias, um problema que é em grande parte invisível para a maioria dos norte-americanos. E essas conseqüências custarão caro. Os mais gravemente feridos, como Khan, são inicialmente tratados em hospitais militares no Iraque e na Europa, mas a seguir são enviados para casa e deixados à mercê das companhias de seguro dos seus patrões. Aqueles com ferimentos menos graves, e os que padecem de problemas psicológicos, geralmente têm que se virar por conta própria.

Ninguém coage esses trabalhadores a seguir para o Iraque e nem os obriga a lá permanecer. Os altos salários recebidos por alguns fazem com que os críticos os desprezem, chamando-os de mercenários e os seus patrões de exploradores. Mas um número bem maior de funcionários contratados, como Khan, ganha salários relativamente modestos - bem menos do que os US$ 100 mil que o exército afirma que um soldado custa anualmente em salários, benefícios e treinamentos -, e alguns trabalhadores estrangeiros que realizam algumas das tarefas mais perigosas recebem apenas alguns dólares por dia.

Após uma década de reduções de contingente e terceirizações, as forças armadas dos Estados Unidos são incapazes de travar uma guerra sem esses trabalhadores contratados.

"Tudo quanto a isso não tem precedentes", afirma Peter Singer, pesquisador da Brookings Institution, em Washington, que escreveu a respeito dos trabalhadores contratados que atuam nos campos de batalha. "A amplitude, os números os papéis que essas pessoas estão desempenhando - tudo isso é novidade".

Além de escapar dos seus problemas, Khan, que tornou-se cidadã norte-americana em 2001, achou que a sua ida ao Iraque lhe daria uma chance de agradecer ao país que lhe proporcionou realizações que teriam sido impossíveis caso ela tivesse permanecido no Paquistão.

"Agora ela está completamente aprisionada - apenas a sua mente e a sua alma ainda lhe pertencem", escreveu Betty Linder, a ex-chefe de Khan, em uma entrevista por e-mail. "A sua busca por liberdade, de forma literal e simbólica, a condenou a uma prisão eterna. A tristeza deste caso poderia quase simbolizar a tristeza de toda a situação relativa ao Iraque".

A vida era promissora para Shaheen Abdul quando ela era uma garota em Karachi, onde o seu pai era advogado. Mas a sorte da família mudou depois que o pai morreu quando Shaheen tinha sete anos, e ela e a irmã mais velha, Mumtaz, acabaram tendo que tomar conta de si próprias. A irmã casou-se com um cidadão norte-americano nascido na Índia e mudou-se para Houston em 1980. Khan cursou a Universidade de Karachi, onde foi uma aluna brilhante e formou-se em psicologia.

Em 1986, aos 26 anos de idade, ela seguiu o rumo da irmã, mudando-se para Houston, e começou a trabalhar na sua lavanderia. Ela retornou a Karachi sete anos mais tarde para casar-se com Abdul Waheed Khan, um soldador. A união foi determinada pelas duas famílias. Quando o marido obteve a documentação necessária para trabalhar, em 1998, o casal seguiu para os Estados Unidos. Shaheen Khan foi trabalhar no jardim-de-infância de Linder, o Linder Learning Land. "Shaheen não tem filhos e dava todo o seu amor para as crianças que eram suas alunas", escreveu Linder.

Mas por mais feliz que ela estivesse na escola, as coisas andavam tensas em casa, um pequeno apartamento em Houston. O marido, que à época trabalhava para a Halliburton, estava freqüentemente fora, prestando serviços, e ficava esporadicamente desempregado. O casal encontrava-se sufocado por uma dívida de cartão de crédito e o financiamento do carro, cifras que em 2004 totalizavam mais de US$ 35 mil, conta Khan. A KBR, que até o início deste ano era uma subsidiária da Halliburton, estava contratando pessoas para fazer todos os tipos de trabalho no Iraque. Khan se inscreveu para serviços de lavanderia com um salário base de US$ 48 mil anuais e a chance de ganhar até US$ 80 mil com horas extras. Grande parte dessa quantia estaria isenta de impostos. Ela e o marido planejaram trabalhar juntos por um ano no Iraque, retornar a Houston, quitar as dívidas, e recomeçar a vida.

Khan assinou o contrato de emprego de 13 páginas com a KBR em 12 de agosto de 2004, sem ler o documento. O texto do contrato citava que ela estaria trabalhando em "um ambiente potencialmente perigoso" e que a sua única compensação caso fosse ferida ou morresse seria aquela fornecida de acordo com a Lei Base de Defesa, uma lei da era da Segunda Guerra Mundial que fornece seguro de vida e contra invalidez aos trabalhadores empregados em instalações militares dos Estados Unidos no exterior.

Khan diz que passou por vários dias de orientação e treinamento sobre procedimentos de segurança na KBR, e admite que os funcionários da companhia foram sinceros a respeito dos perigos. Heather Browne, uma porta-voz da KBR, disse em uma mensagem de e-mail que durante o treinamento, "a maior parte do tempo é dedicada a desencorajar os recrutas a aceitar o emprego".

Depois que os contratos foram assinados, informaram ao casal Khan que a companhia adota a política de não enviar casais para a mesma zona de guerra, conforme eles esperavam. Em 15 de agosto, Khan embarcou em um avião para trabalhar como soldador na Base Aérea Bagram, no Afeganistão. Shaheen seguiu de Houston para Bagdá 13 dias depois.

Ela residia em um trailer cercado de sacos de areia em um complexo residencial da KBR conhecido como D2, dentro da Zona Verde. Todos os dias às 6h, uma van recolhia Khan e outros funcionários da lavanderia e os levava até Camp Warrior, do outro lado da Zona Verde, onde Khan trabalhava em um trailer registrando sacos de roupas de soldados e trabalhadores civis.

Ela descobriu que a zona de guerra era insuportável. Khan tinha que usar um capacete e um colete à prova de balas, e saltava apavorada todas as vezes que ouvia a explosão de um morteiro ou de uma bomba plantada à beira de uma estrada. O seu marido, com quem ela falava semanalmente através de um telefone por satélite, insistiu que ela voltasse para casa.

Em 3 de outubro de 2004, ela tornou-se a vítima de um acidente de trânsito na zona de guerra.

Ela e quatro outros trabalhadores de Camp Warrior preparavam-se para retornar para o complexo D2 para passarem a noite. Anice Holmes, uma avó pragmática que mora em uma pequena fazenda de cavalos perto de Livingston, no Texas, geralmente ficava ao volante. Ela estava no Iraque havia seis meses, tentando juntar algum dinheiro depois que o marido ficou inválido.

Naquele dia, no entanto, Fitim Konjuvca, um jovem trabalhador de Kosovo, implorou para dirigir. Holmes deu as chaves a ele.

Ela, a irmã, Kathy Elliott e Khan sentaram-se no banco traseiro. Um outro funcionário da lavanderia da KBR que elas conheciam apenas com Mayo sentou-se no banco do carona.

Konjuva acelerou em uma avenida próxima ao famoso memorial dos sabres cruzados e começou a ultrapassar os 110 quilômetros por hora, recorda Holmes. "A minha irmã começou a gritar, 'Fitim!', a fim de fazer com que ele reduzisse a velocidade, e foi aí que vimos a caixa na estrada. Eu achei que ele fosse diminuir e contornar a caixa, mas em vez disso ele pisou forte no freio e começamos a capotar. Achei que estávamos todos mortos".

Enquanto o carro capotava, Holmes se lembra de ter rezado: "Jesus, perdoe-me pelos meus pecados". Khan disse que recitou versos do Alcorão antes de desmaiar. Ela foi tratada no Hospital de Campo do Exército dos Estados Unidos em Bagdá, e a seguir transferiram-na para o Centro Médico Regional Landstuhl, na Alemanha, para passar por uma cirurgia. O marido de Khan, informado sobre o acidente por funcionários da KBR no Afeganistão, embarcou às pressas em um avião militar a fim de ficar ao lado da mulher.

"Eu chorava, gritava e perguntava o que havia de errado", conta Khan. "Eles me disseram que o problema foi na coluna. Entendi imediatamente que ela jamais voltaria a andar".

Após cinco dias em Landstuhl, Khan foi para Houston, onde passou por semanas de cirurgias e sessões de reabilitação em dois hospitais. Ela acabou ficando internada na clínica em Willowbrook, perto do seu antigo bairro, dividindo um pequeno quarto com uma mulher idosa moribunda.

A KBR a demitiu, assim como faz com todos os funcionários incapazes de trabalhar. O seu caso foi passado para a companhia de seguros, American International Group, que lida com cerca de 80% das solicitações dos trabalhadores contratados no Iraque e no Afeganistão.

A empresa pagou as despesas hospitalares de Khan e está cobrindo os custos dela na clínica. A companhia calculou que a sua indenização por invalidez seria de US$ 208,88 semanais, com base no seu salário como professora e nas cinco semanas em que ela trabalhou no Iraque.

Aconselhada por um orientador do American International Group, ela contatou Gary Pitts, um advogado de Houston que representa dezenas de funcionários contratados feridos no Iraque, e processou a seguradora pedindo um pagamento mais alto, com base nos seus ganhos reais e previstos na KBR. Um ano e meio após o seu acidente, um juiz de lei administrativa lhe concedeu US$ 30,5 mil por ano até que fique determinado que ela pode retornar ao trabalho.

Ela também contestou os seus benefícios médicos junto ao American International Group. A companhia rejeitou a solicitação para o tratamento de um pé infeccionado, tendo finalmente cedido após meses de disputa. No entanto a empresa se recusou a pagar por cuidados domésticos de forma que ela pudesse sair da clínica. Chris Winans, um funcionário da AIG, disse que não pode tecer comentários sobre o caso de Khan devido a questões de privacidade.

Alguns norte-americanos dão de ombro para as baixas entre os funcionários contratados, afirmando que eles ganham dinheiro e arriscam a sorte. Outros, no entanto, acham que a nação deve algo mais a esses trabalhadores.

"Devemos honrar os sacrifícios feitos por eles e suas famílias", diz Frank Cann, um economista da Rand Corporation que estuda a questão dos trabalhadores contratados para atuar em zonas de combate, e que é filho de um general do exército da reserva. "Eles não usam uniforme, e existe algo especial a respeito de usar uniforme. Mas essas pessoas merecem receber muito mais do que estão dando a elas".

Khan não rumina tais questões, ou, caso o faça, não fala sobre isso. Ela olha para trás e se arrepende da sua decisão de ir para o Iraque, algo que acha ter sido produto do desespero e da auto-ilusão.

"Cometi um grande erro indo para lá", diz ela. "Enganei a mim mesmo". UOL

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