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18/07/2007

Ex-ministro é o mais recente desertor socialista na França

The New York Times
Elaine Sciolino
Em Paris
No calor da campanha presidencial no início deste ano, Jack Lang, um ícone popular da esquerda francesa, acusou Nicolas Sarkozy de praticar "fraude no mais alto grau", de "comportamento anti-republicano" e - talvez a mais contundente das acusações - de ser "um Bush adaptado à conjuntura da França".

Agora, Lang, um ex-ministro da Cultura e da Educação que atuou na campanha como porta-voz da candidata socialista derrotada, Segolène Royal, é o mais recente socialista a desertar para o campo de Sarkozy.

Na noite da última segunda-feira (16/07), ele anunciou que estava aceitando o convite do presidente para se juntar ao comitê governista para a modernização das instituições francesas. Ameaçado na semana passada de ser expulso do partido caso aceitasse o convite, Lang preferiu abandonar a agremiação.

Marlene Bergamo/Folha Imagem - 01.mar.2003 
Jack Lang assiste ao desfile de carnaval, em Salvador, durante visita ao Brasil em 2003

"Todo mundo, não importa qual seja a sua família ideológica, tem o dever de dar a sua contribuição para a reforma da constituição", disse Lang na rede de televisão TF1.

Sarkozy parece estar feliz com o sucesso estrondoso da sua investida contínua contra os altos escalões do Partido Socialista, uma medida que ele define como sendo a sua filosofia política de "franqueza".

Em uma recente reunião da União Européia em Bruxelas, na Bélgica, ele brincou: "Sou o único não socialista na delegação". E, em uma entrevista concedida neste mês ao semanário "Le Journal du Dimanche", ele reiterou a sua determinação de ignorar partidos políticos, afirmando: "Ser o presidente de todos os franceses é para mim uma obsessão". Até mesmo o jornal "Le Figaro", de linha direitista, falou sobre o prazer "bastante real" de Sarkozy.

"Como reconstruir o partido quando Sarkozy o desconstrói tijolo por tijolo?", indagava um editorial do jornal na semana passada. "Chocados, os socialistas estão se dividindo, brigando e espionando uns aos outros".

Após nomear o socialista Bernard Kouchner ministro das Relações Exteriores, Sarkozy escolheu neste mês um ex-ministro das Finanças socialista, Dominique Strauss-Kahn, para ser o próximo chefe do Fundo Monetário Internacional.

Strauss-Kahn, que neste ano tentou sem sucesso ser nomeado presidente do Partido Socialista, e que poderá enfrentar Sarkozy em 2012, conquistou rapidamente o apoio da União Européia.

Na terça-feira (17/07), Strauss-Kahn declarou que fará uma peregrinação global para promover a sua candidatura. Sarkozy disse durante a comemoração do Dia da Bastilha, no Palácio do Eliseu, no último sábado, que poderá acompanhar Strauss-Kahn durante a escala deste no Brasil.

Entre as várias outras figuras da esquerda que sucumbiram aos poderes de persuasão de Sarkozy estão o ex-ministro das Relações Exteriores, Hubert Vedrine - que foi incumbido da tarefa de redigir um relatório sobre a globalização - e Jacques Attali, que já foi o principal assessor de François Mitterrand - e que está trabalhando em um relatório governamental sobre a reforma do sistema de auxílio para desenvolvimento.

Fadela Amara, que liderou o mais proeminente grupo de mulheres que atua nos problemáticos subúrbios do país, tornou-se a secretária de Estado encarregada das políticas urbanas, enquanto Martin Hirsh, que chefiava uma das mais importantes instituições filantrópicas da França, assumiu um cargo no governo para combater a pobreza.

Alguns socialistas definem a estratégia de Sarkozy como uma campanha sorrateira para incapacitar a esquerda na França, e acusam os seus colegas de partido de traição política.

"É incrível como um certo número de líderes socialistas, devido à negligência, ao narcisismo em relação à mídia, à obsessão de falar sobre si mesmo, pulou de cabeça na armadilha montada por Sarkozy", criticou na semana passada Jean Glavany, deputado socialista e ex-ministro. Ele acusou Sarkozy de "procurar fazer somente uma coisa - nos dividir a fim de enfraquecer-nos".

Até mesmo François Bayrou, o fracassado candidato presidencial de centro que originalmente conclamou a esquerda e a direita a trabalharem juntas, acusou Sarkozy de agir como "uma piranha em um aquário de peixinhos dourados".

Com o Partido Socialista em queda livre, na segunda-feira Royal organizou uma reunião com os integrantes remanescentes da sua campanha a fim de admitir os erros que cometeu durante a sua fracassada tentativa de conquista da presidência e traçar planos para o futuro.

Royal, que não abandonou as suas ambições políticas, disse que a sua campanha foi muito menos organizada do que a de Sarkozy, afirmou que foi lenta para reagir a várias questões e que reconheceu que as suas propostas poderiam ter sido mais concretas.

O seu isolamento se tornou mais dramático devido à sua recente separação do seu parceiro de 25 anos, o líder do Partido Socialista, François Hollande.

Mas os socialistas sabem que faltam ainda cinco anos para as próximas eleições presidencial e legislativa, e que a eles só resta colocar-se à margem dos acontecimentos e criar uma estratégia ou juntar forças com o governo até lá. Lang, que tentou em vão ser nomeado presidente do Partido Socialista, já tem 67 anos de idade, e Strauss-Kahn 58. além disso, as críticas ao partido vindas dos seus próprios membros se tornaram muito mais contundentes.

"As relações humanas deterioraram-se no Partido Socialista", disse Lang ao jornal de esquerda "Liberation" na semana passada. "Hoje não me sinto feliz nesta casa". Ele acusou o partido de praticar a auto-destruição, ao banir aqueles que escolhem atuar fora da estrutura dos socialistas.

"Estou livre", disse ele, referindo-se à sua decisão de deixar a liderança do partido. "Eles me ajudaram ao permitirem que eu tomasse uma decisão que deveria ter tomado há muito tempo". UOL

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