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20/07/2007

Se os gatos não fossem tão preguiçosos

The New York Times
Anand Giridharadas
Em Mumbai, Índia
Behram Harda era um dançarino nos filmes de Bollywood nos anos 70, agraciando as telas com seu twist e cha-cha-cha. Então se tornou um exterminador de roedores.

Hoje, no amplo Distrito B de sua cidade populosa, suja e movimentada, Harda é admirado pelos seus colegas como o último dos grandes exterminadores de ratos de Mumbai. Ele é uma espécie em extinção em uma cidade cujos sonhos de ser livre dos ratos desaparecem ano a ano.

Harda, 55 anos e com barba semigrisalha de poucos dias, é um executor gentil e implacável. Ele fumiga. Ele espalha veneno envolto com alho e molho picante nas tocas. Ele leva novas ratoeiras para os lojistas e recolhe os ratos mortos. Os ratos às vezes são afogados em baldes. Outras vezes eles são pegos pelo rabo e esmagados contra o pavimento quente.

Estas são tarefas pequenas e não celebradas que ajudam a manter as cidades grandes. Por trás de toda grande cidade há, ou talvez deveria haver, um temível e obsessivo exterminador de ratos, trabalhando silenciosamente para que as administradores possam administrar, astros de cinema possam filmar e vendedores possam vender.

Mas Harda é um Sísifo indiano. Quando começou o trabalho há 33 anos, os ratos não eram páreo para os exterminadores. O serviço do governo atraía os mais brilhantes da Índia naquela época, e Mumbai ainda era limpa o suficiente para fazer os ratos que sobrevivem do lixo passarem fome. Mas em três décadas, a Índia virou do avesso e também a proporção entre exterminadores e ratos.

Empregos no setor privado em centrais telefônicas e empresas de software começaram a atrair as pessoas e o governo tem dificuldade para atrair pessoas do calibre de Harda. Muitas vagas de exterminadores de ratos permanecem não ocupadas. Enquanto isso, Mumbai se transformou de uma cidade gentil de poucos milhões em uma megalópole sombria de 17 milhões. Mais da metade da população vive em favelas e cortiços cercados de lixo - e, conseqüentemente, de ratos.

Christie Johnston/International Herald Tribune 
Armadilha com ratos capturados por trabalhadores do governo de Mumbai, Índia

Caminhando pelos complexos habitacionais de baixa renda, Harda se irritava com as pilhas de lixo jogado dos apartamentos acima. Casca de ovo. Embalagens de manteiga. Cascas de banana. Metades de coco. Cascas de manga. Pão. E em meio a tudo, é claro, tocas de ratos.

Harda aceita que está perdendo a batalha. Em 10 anos, ele espera que Mumbai terá mais ratos. "É impossível detê-los", ele disse. Mas ele continua tentando.

Acompanhar Harda em suas rondas pelas áreas infestadas de ratos significa circular por uma cidade paralela, um mundo separado dos shopping centers e apartamentos de luxo que brotam em Mumbai. Nestas ruas, velhas senhoras varrem dejetos humanos para os esgotos, homens se ensaboam e se banham na sarjeta e as mulheres arrancam piolhos das cabeças de seus maridos e irmãos.

Harda e três ajudantes caminham por estas ruas como os Caça-Fantasmas, com gaiolas nas mãos, acenando com a cabeça para transeuntes para os quais a chegada deles é uma tranqüilização diária. Eles pararam em depósitos de alimentos cheios de sacas de arroz, açúcar e lentilha. Muitas armadilhas instaladas no dia anterior pegaram um rato ou dois. Harda reuniu os ratos pegos em uma única gaiola cheia.

Às 10h05 da manhã, eles tinham duas gaiolas cheias.

Agora os ratos tinham que morrer.

As gaiolas foram submersas uma a uma em um balde, mas o balde era raso demais e muitos dos ratos conseguiram manter seus focinhos fora d'água. Quando as gaiolas voltaram ao chão seco, os ratos pacientemente ajeitaram seus pêlos como se nada tivesse acontecido.

Mas Harda tinha um plano alternativo, que não era sutil e nem higiênico, mas era terrivelmente eficaz. Um de seus auxiliares pegava um por um os ratos da gaiola e, com o vigor de um batedor de estacas, batia violentamente cada um contra o chão. O rato entrava em convulsão devido ao choque e repentinamente ficava imóvel. Em alguns casos, seus membros rebolavam feito Elvis por alguns poucos segundos finais. Algumas almas particularmente resistentes ressuscitavam brevemente para dar um último salto desafiador da morte. E então eles também morriam.

Os homens mataram 26 ratos em cinco minutos. Depois, uma pequena fração foi enviada a um laboratório para exames de peste bubônica.

Tudo isto pode parecer estranho para um homem que já dançou em filmes de sucesso de Bollywood como "Brahmachari" e que ainda parece, sob certa luz, um homem de cinema, com seu cabelo grisalho penteado para trás com creme reluzente.

Mas quando ele era um jovem dançarino, Bollywood não era exatamente uma indústria e um emprego público em um país socialista parecia algo mais seguro. Seu pai o fez trocar o cha-cha-cha pelo emprego. "Eu matei todas as minhas ambições", ele disse.

Como seu pai saberia que a Índia, 17 anos depois, se inclinaria para o capitalismo, que Bollywood se tornaria uma máquina de dinheiro, que empregos públicos perderiam seu apelo?

Harda não nutre nenhuma amargura. Ele está feliz com seu salário de US$ 210 por mês. O ponto alto de sua carreira, ele disse, ocorreu em 1986, quando o comissário municipal de Mumbai, após ouvir falar da destreza de Harda, veio vê-lo trabalhar.

Ele traz ao seu trabalho a precisão que normalmente é exigida daqueles que executam seres humanos. De volta ao seu escritório, Harda pegou os livros de registro que mantém desde 1989. Eles listam todo exterminador de rato empregado no Distrito B e o número de ratos mortos a cada mês e ano. Harda freqüentemente paga a um amigo artista para que decore a página do sumário anual com marcadores coloridos.

Ele não está só em sua devoção. Exterminar ratos é um daqueles empregos que o envolvem totalmente, disse a principal autoridade de controle de pragas em Mumbai, Deepak R. Adsul, que é o chefe de Harda. Até mesmo seu esquadrão antimosquito nunca consegue deixar o trabalho no escritório, disse Adsul. "Quando estão passeando com suas noivas, eles olham para os lados das ruas para ver se há larvas de mosquito", ele disse. Adsul procurou pela analogia certa para explicar a batalha.

Primeiro ele a comparou a uma partida de xadrez, então à rivalidade entre a Índia e o Paquistão. A arte é conhecer o inimigo.

"Você pode ser bem-sucedido neste trabalho apenas se conseguir se imaginar no lugar de um rato", ele disse. "Isto é uma guerra." A história de um exterminador de ratos de Mumbai George El Khouri Andolfato

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