UOL Notícias Internacional
 

21/07/2007

Após 6 anos, negociações de comércio global são apenas conversa sem resolução

The New York Times
Steven R. Weisman
Em Washington
Logo após 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos ajudaram a dar início a uma rodada de negociações de comércio global que visava fazer os países ricos reduzirem as barreiras comerciais para que os países pobres pudessem prosperar exportando bens, não terrorismo. Mas não era tão simples.

Seis anos depois, as negociações de comércio estão na unidade de terapia intensiva. Há disputas colocando a Europa contra os Estados Unidos, países ricos contra países pobres, e países agrícolas contra países industrializados.

Mas um grande novo fator no impasse é um realinhamento econômico global que lançou a China, Índia e Brasil à faixa superior dos mercados emergentes do mundo, para preocupação de outros países em desenvolvimento como México, Chile e Tailândia.

A Índia e o Brasil estão se recusando a reduzir suas tarifas por temerem economias movidas pela exportação como a da China. Uma segunda faixa de países em desenvolvimento que estão tentando competir com a Índia e o Brasil se queixam que estão sendo excluídos pela Índia, Brasil e outros países que estão se desenvolvendo rapidamente.

Enquanto isso, os mais pobres dos países pobres da África e de outras partes do mundo acusam que as economias emergentes mais ricas, que se retratam como defensoras dos pobres, estão na verdade ignorando suas necessidades.

"Não há valor em culpar um único país pelo estado de nossas negociações", disse Peter Mandelson, o principal negociador de comércio europeu, em uma entrevista. "Mas este não é um clássico conflito Norte-Sul. É também um conflito Sul-Sul. Os países desenvolvidos e as economias emergentes têm a responsabilidade de ajudar os países mais pobres."

O fracasso das negociações de comércio global é amplamente visto como potencialmente prejudicial à economia mundial, que é movida por mais de US$ 10 trilhões anuais em comércio de bens e serviços. O Banco Mundial calcula que um novo acordo comercial poderia acrescentar centenas de bilhões de dólares à renda mundial.

No início desta semana, a Organização Mundial do Comércio em Genebra tentou resolver o impasse comercial propondo concessões para todos os lados. Na sexta-feira, Robert B. Zoellick, presidente do Banco Mundial, pediu às partes que buscassem um meio termo. "A comunidade global deve se manter concentrada no prêmio", ele disse, acrescentando que "todas as economias devem poder se beneficiar" com o acordo.

Foi um apelo significativo, porque Zoellick serviu como representante de comércio americano quando as atuais negociações começaram em Doha, Qatar, em 2001, como uma "rodada de desenvolvimento" para ajudar os pobres.

Mas o impasse se tornou amargo.

No mês passado, Susan C. Schwab, a representante de comércio americana, acusou a Índia e o Brasil de "falta de flexibilidade, de fato uma rigidez" ao se recusarem a reduzir as tarifas agrícolas e industriais de forma a beneficiar não apenas os países ricos, mas outros países pobres.

"Há algumas pessoas que querem retratar isto como uma ruptura Norte-Sul", disse Schwab. "Eu acho que nada poderia estar mais longe da verdade."

Em uma entrevista na sexta-feira, após retornar de encontros com quase 40 representantes de países africanos em Gana, Schwab disse que apesar da África do Sul apoiar a posição da Índia e Brasil, os demais países africanos precisam desesperadamente de um acordo comercial. O ônus, ela disse, cabe aos países em desenvolvimento mais ricos.

"A rodada de Doha é uma rodada de desenvolvimento, mas isto significa algo diferente do que há 15 anos", ela disse. "Obviamente significa que os países desenvolvidos têm mais a fazer. Mas os países que estão se desenvolvendo mais rapidamente precisam também fazer bastante devido aos benefícios que obterão com a abertura do sistema de comércio."

Mas o ministro do comércio indiano, Kamal Nath, tem se mantido firme, sugerindo que os Estados Unidos e a Europa têm sido intransigentes na manutenção de altos subsídios agrícolas e outras barreiras comerciais, prejudicando os pobres do mundo. A Índia acusa que os subsídios agrícolas americanos mantêm os produtos agrícolas americanos artificialmente competitivos contra as importações.

Apesar de Nath ter dito que as negociações comerciais ainda estão atoladas em um conflito entre os países ricos e pobres, os recentes desdobramentos sugerem que uma divisão surgiu entre os países em desenvolvimento, com algumas economias emergentes não querendo que a China, Índia e Brasil falem por elas.

A Índia e o Brasil, por exemplo, pedem por reduções graduais das tarifas sobre bens manufaturados que deixariam as tarifas mais altas em cerca de 30%, apesar de indícios de que poderiam aceitar um nível de 25%.

Os Estados Unidos e a Europa, que reduziriam suas próprias tarifas industriais para poucos pontos percentuais, dizem que Índia e Brasil adotaram uma linha-dura por temerem as importações da China e outras economias movidas pela exportação. A Índia teme mais especificamente que sua indústria automobilística possa ser praticamente dizimada pelas importações chinesas.

Um novo bloco de países exportadores está propondo uma abordagem mais conciliatória, sugerindo uma faixa de tarifas entre 15% e 25% para os produto mais protegidos. Este novo bloco do "meio termo" é liderado pelo Chile, Colômbia, Costa Rica, Hong Kong, China, México, Peru, Singapura e Tailândia.

O Brasil é considerado chave em futuras negociações porque muitos analistas dizem que deverá ser aquele que mais ganhará em um acordo comercial, por ser uma superpotência exportadora de bens industrializados e também de uma grande variedade de alimentos, de açúcar a frutas e legumes. Sua posição é considerada como mais flexível do que a da Índia.

Celso Amorim, o ministro das Relações Exteriores e negociador-chefe brasileiro, tem se mostrado menos disposto a atacar os países industrializados do que Nath, mas ele nega que haja uma ruptura entre o Brasil, Índia e os demais países pobres. "Nós estamos na mesma sintonia em termos de unidade e mobilização", ele disse em Genebra no início deste mês.

Enquanto isso, os Estados Unidos continuam sob pressão para fazer mais para reduzir seus subsídios agrícolas. A lei atual permite que os Estados Unidos subsidiem produtos agrícolas, se assim desejarem, em até US$ 50 bilhões por ano. Mas nos últimos três anos, os preços mundiais dos alimentos subiram tanto que os subsídios americanos não se aproximaram de tal patamar.

No ano passado, por exemplo, os Estados Unidos pagaram US$ 12 bilhões para subsidiar produtos agrícolas que competem com importações de outros países. Este é o nível em que Índia e Brasil desejam que os Estados Unidos mantenham seus chamados subsídios distorcedores de comércio no futuro.

O governo Bush argumenta que US$ 12 bilhões foi incomumente baixo e que sua oferta de um teto de US$ 17 bilhões está abaixo dos níveis de grande parte dos últimos 10 anos. Schwab também insinuou que os Estados Unidos poderiam reduzir o nível ainda mais em caso de uma maior flexibilidade por parte da Índia e Brasil.

Fora do quadro estão os 60 ou 70 países mais pobres que mais se beneficiarão com o acordo comercial, incluindo países na África e nas partes mais pobres da América Latina e Ásia. Em um discurso na África na semana passada, Schwab disse que 70% das tarifas pagas pelos países pobres vão para outros países pobres.

Schwab também pediu repetidas vezes para que a China exiba mais liderança na promoção de um acordo internacional de comércio. Mas muitos especialistas em comércio dizem que a China está deliberadamente se mantendo discreta para evitar estimular o medo a seus produtos nos países em desenvolvimento.

"Muitos países em desenvolvimento estão tomados pela idéia de que se realizarem reduções de tarifas, eles serão tomados por bens chineses", disse William A. Reinsch, presidente do Conselho Nacional de Comércio Exterior em Washington, um grupo de lobby pró-comércio. "Será difícil eliminar tal temor..." George El Khouri Andolfato

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