UOL Notícias Internacional
 

21/07/2007

Desafiando política anti-drogas, fazendeiros da Dakota do Norte querem plantar cânhamo

The New York Times
Monica Davey
Em Osnabrock, Dakota do Norte
David C. Monson não dá a impressão de ser uma daquelas pessoas que seriam vistas liderando um movimento nacional pela legalização do cultivo do cânhamo, uma planta que compartilha com a maconha o nome da espécie, do gênero e, em diversos círculos, a reputação.

Enquanto passeia pela sua plantação de trigo e cevada, e os seus campos amarelo-cintilantes de canola, ele ouve no seu trator o programa de rádio do comentarista Rush Limbaugh. Quando não está ocupado com as suas atividades agrícolas, ele é o diretor e professor da escola de segundo grau perto da vila de Edinburg, cuja população é de apenas 252 habitantes. E quando não está lecionando, Monson exerce a função de representante do Partido Republicano em Bismarck, a capital do Estado, onde o seu partido domina as duas casas legislativas e controla o governo estadual.

Dan Koeck/The New York Times 
Monson observa nuvem de chuva em uma de suas plantações de cevada de sua fazenda

"Olhem para mim - eu pareço suspeito?", pergunta Monson, 56, usando botas de trabalho e um boné de beisebol, de pé sobre a terra negra e pedregosa que se estende pelo território quase vazio da região norte do Estado. "Isso não é nenhuma atividade subversiva a fim de legalizar a maconha ou algo do gênero. Trata-se apenas de agricultura pragmática. Estamos desesperados por algo que possa render algum dinheiro".

Os pedregulhos, a terra, o frio, o clima frio e um devastador fungo agrícola conhecido como "scab" são parte daquilo que colocou Dakota do Norte, dentre todos os Estados, na linha de frente de uma batalha política que tinha mais probabilidade de emergir em algum outro lugar "um pouco mais rebelde" - conforme as palavras utilizadas por um fazendeiro local - como a Califórnia ou Massachusetts.

Embora as autoridades federais proíbam o cultivo do cânhamo, alegando que ele contém o tetrahidrocanabinol, a substância psicoativa mais conhecida como THC, presente na maconha, somente neste ano seis Estados norte-americanos examinaram projetos de lei no sentido de permitir aos fazendeiros cultivar o cânhamo industrial, e o deputado Ron Paul, republicano pelo Texas, também apresentou uma proposta em Washington para que os Estados permitam tais culturas. Nas casas legislativas estaduais, os defensores da planta observam que ela contém apenas traços de THC, e que o cânhamo (cultivado em outros países) já é encontrado em roupas, loções, lanches, revestimentos de portas de automóveis, sistemas de isolamento térmico e vários outros produtos.

Mas nenhum local desafiou tão intensamente o governo como Dakota do Norte. A assembléia legislativa do Estado aprovou uma legislação permitindo que os fazendeiros cultivem o cânhamo industrial e criou um processo oficial de licenciamento para tirar a impressão digital desses fazendeiros, e um sistema de GPS para localizar os seus campos de cultivo. Neste ano, Monson e um outro fazendeiro de Dakota do Norte, com o apoio do comissário estadual de agricultura, solicitaram junto à Agência de Combate às Drogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês) permissão para cultivar imediatamente as suas terras com cânhamo.

"Dakota do Norte está de fato pressionando quanto a esta questão", afirma Doug Farquhar, diretor do programa para agricultura e desenvolvimento rural da Conferência Nacional de Assembléias Estaduais. As assembléias de Maine, Montana, Virgínia Ocidental e outros Estados aprovaram projetos de lei permitindo que os fazendeiros cultivem o cânhamo industrial, afirma Alexis Baden-Mayer, o diretor de relações governamentais do Vote Hemp (literalmente, "Vote Cânhamo"), um grupo que exerce pressões pela legalização do cânhamo, mas esses projetos ainda não foram liberados devido à lei federal anti-drogas.

De acordo com as autoridades federais, a Lei de Substâncias Controladas é inequívoca. "Basicamente o cânhamo e a maconha são considerados a mesma coisa", diz Steve Robertson, um agente especial da DEA, na sede da sua organização em Washington. "Somos uma agência policial. Temos por obrigação fazer cumprir a lei".

Nos vastos espaços abertos deste Estado, uma tendência independente muitas vezes é presenciada na política, especialmente quando o que está em jogo são regras federais. Mas as pessoas daqui afirmam que a luta em torno do cânhamo não é política ou filosófica. Ela é destituída de qualquer traço de contracultura, e de qualquer indício daquele temor expresso por alguns oponentes do cânhamo de que aqueles que tentam legalizar o cânhamo desejem secretamente abrir a porta para a prima mais potente desta planta.

Esta batalha é decididamente - e de uma maneira típica do Meio-Oeste dos Estados Unidos - pragmática. Em 1993, o scab, um fungo conhecido como Fusarium (causador da doença do trigo conhecida no Brasil por giberela ou fusariose), devastou milhares de hectares de trigo, uma das principais culturas de Dakota do Norte, onde a agricultura é um dos setores mais importantes da economia. Chuvas intensas provocaram o empoçamento de água nos campos de cultivo, criando condições favoráveis para o desenvolvimento do scab. Desde então o fungo atacou com vários graus de intensidade, ainda que os fazendeiros buscassem uma cura para a doença. Em uma tarde recente, enquanto a chuva caía sobre os seus 287 hectares de terra, Monson removia com tristeza um talo de um pé de trigo, revelando as sementes brancas e enrugadas - o que é um sinal da presença do scab.

Quando Monson deu início à sua luta no final da década de 1990, algumas pessoas recusaram os seus argumentos. Monson recorda-se de John Dorso, um ex-líder republicano, perguntando-lhe com um ar impaciente se ele sabia com o que estava se metendo.

Mas Monson argumentou que o cânhamo se constituía em uma alternativa para a rotatividade de culturas em Dakota do Norte. Os seus caules altos sobrevivem em condições similarmente frias e úmidas no Canadá, que fica apenas 40 quilômetros ao norte daqui, e onde a planta é legal. E o cânhamo se adapta bem ao solo pedregoso deixado pelas antigas geleiras, um solo que ameaça destruir o maquinário agrícola de quem ouse cultivar culturas como a beterraba ou a batata um pouco abaixo da superfície do solo.

Após anos de estudos e de inquéritos, são poucos os que têm algo a dizer contra o cânhamo - o que, ao que parece, é um reflexo do desejo urgente do Estado de melhorar a sua economia. Recentes projetos relativos ao cânhamo foram aprovados com facilidade na assembléia legislativa, embora ainda existam certas questões pendentes. Qual seria de fato o tamanho do mercado para o cânhamo? E quanto aos temores das autoridades policiais, que dizem que alguém poderia infiltrar-se nos campos de cânhamo dos fazendeiros e plantar determinada área com maconha, cuja aparência é similar?

Monson insiste que tais temores são uma tolice em Dakota do Norte, que é o terceiro Estado menos populoso do país, tendo apenas 640 mil habitantes. "Este é o único Estado no qual não se exige o registro de eleitores (segundo a lógica, caso alguém que não pertencesse ao Estado tentasse votar aqui, todos ficariam sabendo). Não dá para ir até uma agência de correios sem que alguém saiba", diz Monson.

Mas Blair Thoreson, um deputado estadual republicano que votou contra as legislações pró-cânhamo, não está tão certo quanto a isso. "Aqui, todo mundo conhece todo mundo, mas mesmo assim enfrentamos um grande problema com os laboratórios caseiros de fabricação de metanfetamina".

Roger Johnson, o comissário estadual de agricultura, diz que os campos de cânhamo seriam os piores locais para ocultar a maconha. Johnson afirma que, segundo regras estaduais, tais campos estariam sujeitos a buscas inopinadas, de dia ou de noite, e as culturas seriam examinadas pelo Estado. Ele diz ainda que em um campo com cânhamo e maconha haveria polinização cruzada, o que tornaria a droga menos potente.

"Não somos liberais de olhos arregalados", afirma Johnson. "É a DEA que está agindo de forma insana quanto a esta questão. Esta postura ilógica e indefensável, e não prevalecerá para sempre".

Após receberem neste ano as primeiras licenças estaduais para cultivar a maconha, Monson e Wayne Hauge, um fazendeiro de Ray, cujas terras ficam em extremidades opostas do Estado, se inscreveram junto à DEA em fevereiro.

Desde então, a agência anti-drogas não disse nem sim nem não. Tendo em vista a temporada de cultivo de Dakota do Norte, é muito tarde para plantar qualquer coisa neste ano. Assim sendo, em junho, os dois homens - com auxílio financeiro do grupo Vote Hemp - entraram com um processo judicial contra a agência federal.

Robertson afirmou que em julho que a agência ainda estava examinando os pedidos, mas que não poderia fazer mais comentários devido a aspectos legais do litígio.

Assim como Monson, Hauge, que tem 49 anos de idade e planta cevada, grão-de-bico e lentilhas na terra ocupada pelo seu bisavô em 1903, diz que as suas motivações são econômicas, não tendo nada a ver com política nem com a questão das drogas.

"Eu não defendo que alguém fume coisa alguma", afirma Hauge, que, quando não está cultivando a terra, exerce a função de contador público.

"Acho que não sou exatamente aquele tipo de pessoa conhecida por fazer piadas", acrescenta ele. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h59

    -0,92
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    14h04

    1,10
    64.462,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host