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21/07/2007

Iraque descobre espaço neutro nos campos de futebol

The New York Times
Ahmad Fadam e Alissa J. Rubin
Em Bagdá
Até mesmo durante as mais quentes tardes de verão, quando os homens cochilam à entrada das suas casas e os bebês choram devido às assaduras provocadas pelo calor, os trechos poeirentos ao longo do Rio Tigre e os terrenos baldios repletos de lixo nos bairros pobres são palcos de intensa atividade quando os jovens se reúnem para jogar futebol, o único elemento unificador que restou nesta sociedade torturada.

O Iraque é louco por futebol, e apesar dos morteiros, das bombas e dos tiros às vezes disparados contra times amadores em Bagdá e Ramadi, no oeste do Iraque, este ainda continua sendo o jogo nacional do país. Enquanto os jovens jogam, velhos e crianças se reúnem para acompanhar as partidas, e mulheres que passam por perto caminhando observam os jogos por debaixo dos seus longos e negros véus.

A empolgação chegou às alturas nesta semana quando o time do Iraque avançou para as quartas-de-final da Copa da Ásia, após derrotar a Austrália e empatar com a Tailândia e o sultanato de Omã. O time faz o seu primeiro jogo das quartas-de-final neste sábado (21/7) contra o Vietnã.

"Durante as duas horas de jogo, eu vivo em outro mundo", afirma Nawfal Hameed, dono de uma loja de aparelhos elétricos. "Eu me esqueço dos carros-bomba e me sinto novamente humano, e o que é mais bonito é o fato de o time incluir todos os setores da sociedade - para nós, eles são todos iraquianos, e nos fazem sentir que estamos novamente unidos".

Hameed, que tem entre 40 e 50 anos, é torcedor de futebol desde criança e se recorda de quando ia ao estádio torcer pelo seu time. "Costumávamos chegar ao estádio horas antes do início do jogo, e levávamos toda a comida e a água necessárias", conta ele. "Nos tornamos até amigos de outros torcedores. São amizades que duram até hoje".

Nesta semana um jornalista escutou um tiroteio vindo de um posto de revista do Exército do Iraque na sua rua. Temendo que uma batalha tivesse começado, ele escondeu os filhos no aposento mais recôndito da sua casa. Mas, 15 minutos depois, o tiroteio cessou, e ele emergiu cautelosamente. "O Iraque venceu! O Iraque venceu!", gritava um soldado eufórico. Um outro militar respondeu: "Eles jogam o melhor futebol", enquanto brandia o seu fuzil de assalto AK-47.

Para os iraquianos o sucesso da sua equipe de futebol - um grupo de 22 membros composto de árabes sunitas, xiitas e curdos - lembra os velhos tempos; um time que existia antes do sectarismo começar a esfacelar o país. O futebol proporciona um momento de orgulho nacional e promove a esperança de que o país, assim como a sua seleção, seja capaz de olhar para além das diferenças.

"Atualmente o time iraquiano é a única coisa que nos une", afirma Haiydar Adna, um xiita de 29 anos de idade. "Quando a seleção iraquiana ganha um jogo, o povo em Karkh, que é sunita, fica feliz, e o de Rusafa, que é xiita, também exulta".

"Espero que os políticos iraquianos olhem para esses simples jogadores de futebol que são capazes de unir o povo iraquiano e aprendam com eles", diz Adnan.

O time não apenas une grupos étnicos e sectários (sob a direção de um técnico brasileiro), mas também está livre dos abusos sofridos pelas equipes controladas pelo filho do presidente Saddam Hussein, Uday, que era o presidente da federação de futebol.

Isso é um outro estímulo para que os iraquianos acreditem ser capazes de obter ganhos por meio das suas habilidades, e não movidos pelo medo. "No passado, os jogadores iraquianos costumavam jogar por medo de Uday, mas agora jogam com orgulho; jogam pelo país", afirma Adnan.

Não é fácil ver a seleção nacional jogar. Em Bagdá, só há eletricidade uma ou duas horas por dia, de forma que é impossível assistir aos jogos de casa, a menos que se tenha acesso a um gerador de energia. As pessoas costumavam assistir aos jogos nos cafés, onde os proprietários distribuíam chá e refrigerantes de graça. Mas agora muitos têm medo de sair de casa.

Abu Hussain, um xiita de 52 anos, diz: "Não sou chegado a futebol, mas gosto de ver a seleção iraquiana jogar. Sinto orgulho ao ver a bela bandeira iraquiana sendo hasteada em um outro país". UOL

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