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22/07/2007

Amor moderno: a casa com quatro escovas no banheiro

The New York Times
De Ada Brunstein*
Minha escova de dentes é uma das quatro que ficam num copo na pia do banheiro. Quatro escovas de dente num copo -a própria imagem da domesticidade, da vida em família. Mas nosso copo contém outro tipo de domesticidade. Essas escovas pertencem a mim, meu namorado, a mulher dele e o namorado dela.

 The New York Times 


Eu tento manter a minha separada, guardando-a num estojo plástico para que não toque as outras cerdas. Para que não toque as cerdas dela. As outras escovas ficam soltas, liberadas. Às vezes parece que eu sou a única incomodada com esse arranjo.

No início pensei que não ficaria. A separação do meu namorado da mulher dele havia sido explicada para mim com toda a sua racionalidade enlouquecedora.

Não houve traições, nem palavras de raiva, nem portas batendo. Eles tinham tentado a terapia de casais. Mas depois de sete anos acharam que não restava nada a fazer além de seguir em frente e mudar.

O problema é que eles seguiram em frente, mas não mudaram. Os dois têm rendas modestas, de modo que ela não poderia pagar a parte dele na casa, que fica num bairro caro. Eles a haviam comprado apenas dois anos antes e não queriam vendê-la. Então passaram a dormir em quartos separados e concordaram em dividir os custos do gato.

Alguns meses depois, os dois arrumaram novos parceiros -o namorado da mulher e eu- na mesma semana. Isso precipitou o seguinte arranjo: quando a mulher e o namorado dela estão na casa, o marido dela e eu ficamos na minha casa.

Quando eles estão na casa do namorado dela, nós ficamos na casa.
O divórcio supostamente acontecerá em algum momento. Enquanto isso, nós quatro estamos vivendo desse jeito há quase um ano. No início eu gostei da modernidade de tudo. Considerei um desafio pessoal.

Antigamente, meus ciúmes haviam me atrapalhado. Certa vez discuti com um namorado sobre o que eu acharia se ele dormisse com a Uma Thurman (se ele um dia tivesse essa chance). Dois meses depois ela apareceu num bar que freqüentávamos no West Village e a discussão recomeçou.

Essa era a antiga eu. Agora seria a nova eu. Uma namorada mais forte, descontraída, do tipo "nada me perturba". Eu provaria que tinha superado a antiga eu ciumenta. Seria anticonvencional, corajosa, moderna e boêmia em minha indiferença.

Eu o havia conhecido vários anos antes. Ele é um filósofo, um vendaval de "ses" e "entãos", de certos e errados, um redemoinho analítico que examina cada verdade e suposição. Fui atraída imediatamente por ele. Mas ele estava ocupado e conheci outra pessoa. Só nos encontrávamos em saídas do trabalho e em bares. Fazíamos parte do mesmo clube literário no escritório. Tínhamos uma espécie de amizade adequada ao local de trabalho. Mas permanecia a cumplicidade.

Eu também sentia curiosidade sobre a mulher dele. Que tipo de mulher -não "que" mulher, mas que tipo de mulher- seria ela? Quando eu saía, a procurava. Certa vez imaginei que fosse uma moreninha de passo rápido e um sorriso sem sentido que passou por mim na rua. Em outra, me perguntei se seria a dançarina nua saltando na capa de um calendário. Eu queria entrar na cabeça dela. Agora estou na casa dela todas as semanas há um ano.

Havia muita coisa a negociar. Tive de estabelecer algumas regras básicas.
Nada de telefonemas tarde da noite no celular só para dar um alô. Consegui (depois de alguns meses). Nada de visitas dele à família dela para perpetuar o mito da felicidade conjugal. Consegui (depois da visita).

Também houve negociações lingüísticas. Ele adotou a voz passiva para facilitar as coisas para mim. Certa vez eu estava na frente de uma estante na cozinha, onde três prateleiras continham uma impressionante coleção de saleiros e pimenteiros de todo o país.

- Você coleciona saleiros e pimenteiros?, perguntei.
- São saleiros e pimenteiros que vieram para a casa ao longo dos anos, ele disse.

E ele tem sido mais cuidadoso com os possessivos. "A casa", ele diz, e não "nossa casa."

Ela e eu nos encontramos várias vezes e somos cordiais, talvez até amigáveis. Uma vez ela concordou que eu a entrevistasse para um documentário em que eu estava trabalhando. Mas a maior parte de nosso relacionamento é silencioso, travado em isolamento, e envolve um tipo de guerra exclusivamente feminino.

As mulheres não guerreiam como os homens, não de cara, e só se não houver outro jeito. Os homens guerreiam nas planícies e nos desertos, vestindo armadura completa, empunhando armas letais. As mulheres guerreiam tão imperceptivelmente que nem sempre fica claro que existe uma batalha, como tremores de terra que você quase não consegue sentir, mas pode notar que o vento ficou diferente ou os animais estão agindo estranhamente.

No princípio eu achei que ela era simplesmente bagunceira. Seus sapatos estão sempre jogados pela casa, um par no corredor, outro na cozinha, um na sala embaixo da mesa de centro onde meus pés poderiam descansar. Mas afinal são sapatos -onde ela poderia colocá-los senão no chão?

Depois há as revistas. Edições atrasadas de "Us", "People" e "Vanity Fair" em todos os balcões e mesas. Não consigo colocar nada em qualquer superfície sem ter de afastar alguma coisa dela. Mas, realmente, como eu poderia me importar? Às vezes eu leio essas revistas. Posso apreciar o fato de tê-las à minha disposição sem ter de pagar por elas. Eu as folheio de vez em quando, percebendo páginas com os cantos dobrados e me perguntando o que nessas páginas chamou sua atenção.

Também compro minhas revistas e tento coordenar com as dela. Às vezes é "Marie Claire", às vezes "Cosmopolitan". Às vezes Uma está na capa e eu rio do meu antigo eu, embora me pegue voltando àquele ser. O que ela não tem espalhado pela casa, eu mesma trago e acrescento às pilhas. Minhas revistas às vezes acabam enterradas embaixo das dela, mas então faço minha ordem e coloco as minhas em cima.

Mais irritante é a roupa que ela deixa espalhada: as meias embaixo da privada e o sutiã vinho que ela deixou secando no aquecedor do banheiro, com os bicos apontando para cima. De vez em quando uma imagem dos seios da mulher do meu namorado surge na minha cabeça por causa daquele sutiã.
Mas aparentemente o sutiã e seus efeitos colaterais não foram suficientes.

Uma semana depois, ela deixou seu vestido longo japonês pendurado precariamente de um cabide no vão da porta da cozinha durante uma semana, enquanto esteve viajando.

Normalmente eu não falo com ele sobre essas coisas. Os homens não entendem esse tipo de batalha. Mas dessa vez perguntei por que ela teria pendurado esse vestido na passagem do cômodo mais usado da casa.

- Acho que não queria que ele amassasse, ele falou.
- Ela não tem seu quarto para essas coisas?, perguntei.
- Acho que não tinha espaço, ele disse. Pior, ele parecia acreditar nisso.

Todas as vezes que eu entrei na cozinha naquela semana tive de passar perto do vestido. Era difícil me esgueirar sem tocá-lo, mas eu me esforcei especialmente. Às vezes ele balançava, mas não caía.
Com o passar dos dias, fiquei menos cuidadosa, isto é, fui mais cuidadosa, deliberada. Quando passava por ali, meu braço o empurrava. Eu esbarrava nele com um descuido bem calculado. Queria derrubar aquela coisa no chão, para acidentalmente tropeçar nela, talvez até cair. Talvez eu torcesse o tornozelo no vestido de seda dela que não pude deixar de derrubar porque afinal o que ele estava fazendo na entrada da cozinha que era passagem de todo mundo?

Mas a coisa não caiu, e durante toda a semana uma lembrança do corpo dela em tamanho natural ficou pendurada na porta da cozinha.

Tenho uma confissão a fazer. Desde então comecei a derrubar coisas das mesas e balcões. Os óculos escuros dela, seu brilho para lábios, presilhas de cabelo. São meus pequenos protestos, minhas tentativas de perturbar seu conforto, de desalojá-la, talvez. Imagino-a procurando as coisas que desapareceram e encontrando-as misteriosamente espalhadas embaixo de poltronas e sofás. Se surgirem suspeitas, sempre poderei dizer que deve ter sido o gato.

Enquanto isso, ela começou uma reforma na casa: instalou um novo abajur bem em frente ao quarto dele e comprou um sofá novo, um espelho e outros artigos variados. Algumas semanas atrás ela pintou o corredor. Será que quer reivindicar seu lugar enquanto me coloca no meu?

Sua última aquisição, um canário amarelo falso que ela pregou à porta da frente, simplesmente não pode ser ignorado. Com um pouco de sorte, o gato vai confundi-lo com uma ave de verdade e será seu fim. E em meio a esses tremores, imperceptíveis para a maioria, o bicho começou a agir de modo estranho.

Não o culpo; os gatos são territoriais, e seu território está num fluxo constante. Tentando acompanhar a ocupação rotativa, ele dorme na cama dela quando ela está em casa com o namorado, e quando estamos residentes ele dorme conosco.

Mas enquanto marido e mulher conversam diariamente para combinar agendas, e cada um por sua vez informa ao namorado e a mim, ninguém consulta o gato, que nunca sabe de uma noite para a outra quem estará na casa ou em que cama ele vai dormir.

Durante muito tempo ele ficou agitado, correndo por toda a casa e descansando entre os vários quartos, metade do corpo em um e metade no outro. Miava sem parar. Até que uma noite urinou na cama da mulher dele, e na seguinte urinou na do meu namorado, reivindicando ambas para si. Desde então ele melhorou.

Gostaria que nós encontrássemos uma solução tão fácil.

*Ada Brunstein escreve sobre ciência Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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