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24/07/2007

Plano secreto prevê ocupação americana no Iraque até pelo menos 2009

The New York Times
Michael R. Gordon
Em Bagdá
Enquanto Washington fervilha com o debate político a respeito do futuro do Iraque, o comando norte-americano aqui preparou um plano detalhado que prevê um papel significante dos Estados Unidos durantes os próximos dois anos.

O plano secreto, que representa a estratégia coordenada do principal comandante militar dos Estados Unidos e do embaixador norte-americano no Iraque, recomenda a restauração da segurança em áreas localizadas, incluindo Bagdá, até o verão de 2008. A chamada "segurança sustentável" deverá ser consolidada em âmbito nacional até o verão de 2009, de acordo com autoridades norte-americanas que conhecem o documento.

O documento detalhado, conhecido como Plano de Campanha Conjunta, é uma sistematização da nova estratégia anunciada pelo presidente Bush em janeiro deste ano, quando ele decidiu enviar ao Iraque cinco brigadas adicionais de combate e outras unidades norte-americanas. Isso significou uma mudança com relação à estratégia anterior, que enfatizava a transferência para os iraquianos da responsabilidade pela sua segurança.

A nova abordagem enfatiza a proteção da população iraquiana em Bagdá, segundo a tese de que a melhoria da segurança proporcionaria aos líderes políticos iraquianos o fôlego de que necessitam para tentar promover uma reconciliação política.

O último plano não aborda explicitamente questões como tamanho das tropas ou prazos para uma retirada. Ele antecipa um declínio do número de soldados à medida que o recente envio de tropas extras gere resultados até o final deste ano ou o início de 2008. Mas, não obstante, está prevista no plano a continuidade do treinamento de soldados do Iraque pelos Estados Unidos, bem como a parceria com as forças iraquianas e o combate aos grupos terroristas no Iraque, segundo informaram autoridades norte-americanas.

Tendo em vista a dimensão do desafio que é lidar com a aguerrida resistência sunita, com as milícias renegadas sunitas, com os líderes iraquianos que fizeram pouco progresso rumo à reconciliação política, bem como com os vizinhos iranianos e sírios que não têm hesitado em interferir nos problemas iraquianos, as metas expostas no documento parecem ser demasiadamente ambiciosas. E a avaliação provisória de progresso, divulgada pela Casa Branca em 12 de julho último, revela resultados controversos.

Mas em um momento no qual os críticos domésticos estão definindo a paciência em semanas, essa estratégia poderá bater de frente com as expectativas de vários parlamentares que desejam uma antecipação do fim da missão norte-americana aqui.

O plano, traçado pelo general David H. Petraeus, o principal comandante militar norte-americano, e Ryan C. Crocker, o embaixador dos Estados Unidos no Iraque, foi apresentado ao secretário da Defesa, Robert M. Gates, e ao almirante William J. Fallon, diretor do Comando Central. Acredita-se que ele será apresentado oficialmente às demais autoridades aqui em Bagdá nesta semana.

O plano prevê duas fases. O objetivo de "curto prazo" é assegurar a "segurança localizada" em Bagdá e em outras áreas até no máximo junho de 2008. Está previsto o encorajamento de acordos políticos no nível local, incluindo com ex-insurgentes, e ao mesmo tempo a pressão sobre os líderes iraquianos para que estes progridam no seu programa de reconciliação nacional.

A meta "intermediária" é aglutinar tais acordos locais a fim de criar uma sensação de segurança mais ampla, em âmbito nacional, até, no máximo, junho de 2009.

"A coalizão, em parceria com o governo do Iraque, emprega meios integrados políticos, econômicos, diplomáticos e militares para ajudar o povo do Iraque a alcançar a segurança sustentada até o verão de 2009", diz um resumo do plano de campanha.

Os oficiais militares têm tomado muito cuidado para não garantir o sucesso, e eles reconhecem que poderão precisar revisar o plano caso algumas das suposições não se materializem.

"A idéia por trás do aumento do número de tropas era trazer estabilidade e segurança para o povo iraquiano, principalmente em Bagdá, porque a cidade é o coração político do país. E, ao fazer tal coisa, a intenção é dar aos iraquianos o tempo e o espaço necessários para arcar com as questões difíceis com as quais se deparam, e permitir que ocorra uma reconciliação", afirmou o coronel Peter Mansoor, secretário-executivo de Petraeus.

"Se o governo iraquiano e os vários grupos e facções não chegarem a nenhum tipo de acordo sobre como dividir o poder, dividir os recursos, promover a reconciliação e acabar com a violência, então as premissas nas quais se baseava a estratégia do aumento do número de tropas mostrar-se-ão inválidas e teremos que rever a estratégia", acrescentou Mansoor.

Petraeus e Crocker divulgarão em setembro uma avaliação das tendências no Iraque, bem como da viabilidade da estratégia adotada.

O plano anterior, desenvolvido pelo general George W. Casey Jr., que foi o predecessor de Petreus antes de ser nomeado chefe do alto comando do exército, tinha como objetivo estimular os iraquianos a assumir maior responsabilidade pela segurança por meio da redução das tropas norte-americanas.

Essa abordagem fracassou quando as forças de segurança iraquianas revelaram-se despreparadas para executar as suas tarefas ampliadas, fazendo com que disparasse o número de assassinatos sectaristas.

Já a nova abordagem reflete o preceito de contra-insurgência, segundo o qual proteger a população é o melhor meio de isolar os insurgentes, encorajar os acordos políticos e obter informações de inteligência a respeito de diversas ameaças. Uma premissa básica do plano é que as tropas norte-americanas não são capazes de impor uma solução militar, mas que a força estadunidense pode ser usada para criar as condições para que seja possível uma reconciliação política.

Para desenvolver o plano, Petraeus criou uma Equipe de Avaliação Estratégica Conjunta, que procurou definir o conflito e traçar os elementos de uma nova estratégia. A equipe inclui oficiais como o coronel H.R. McMaster, o comandante que lançou a bem-sucedida operação "limpar, sustentar e construir" em Tal Afar, e que escreveu uma avaliação crítica do papel do Estado Maior Conjunto durante a Guerra do Vietnã; o coronel J.R. Martin, que leciona na Escola de Guerra do Exército e que foi colega de turma de Petraeus na academia de West Point; e David Kilcullen, um especialista australiano em contra-insurgência, formado em antropologia.

Funcionários do Departamento de Estado, incluindo Robert Ford, especialista em questões árabes e embaixador dos Estados Unidos na Argélia, também participaram. Além disso, participou do grupo uma autoridade britânica e técnicos que não trabalham no governo, como Stephen Biddle, especialista em questões militares do Conselho Sobre Relações Exteriores.

A equipe determinou que o Iraque está imerso em "uma luta comunal pelo poder", segundo as palavras de uma autoridade de alto escalão que participou da iniciativa. Para agravar o problema, o novo governo iraquiano está lutando para unir as suas diversas facções e desenvolver a capacidade de fornecer serviços básicos e segurança.

Os extremistas estão alimentando a violência, assim como nações como o Irã, que segundo a equipe montada por Petraeus está armando e equipando grupos militantes xiitas, e a Síria, que permite que homens-bomba suicidas cruzem a fronteira e entrem no Iraque.

Assim como a comissão Baker-Hamilton, que divulgou o seu relatório no ano passado, a equipe acredita que são necessárias iniciativas políticas, militares e econômicas, incluindo discussões diplomáticas com o Irã. Existem pontos de vista diferentes a respeito do grau de agressividade necessário ao se pressionar pela remoção de autoridades ostensivamente sectaristas, e vários funcionários disseram que este tema foi de certa forma minimizado no plano final.

O plano em si foi redigido pela Equipe de Reformulação da Campanha Conjunta, uma alusão ao fato de que o plano herdado de Casey estava sendo reformulado. Grande parte da reformulação já entrou em efeito, incluindo a decisão de deslocar tropas de grandes bases e de atuar de forma mais integral como parceiros das forças de segurança iraquianas.

Segundo uma autoridade norte-americana, o objetivo mais amplo é obter acordos políticos e evitar reduzir a autoridade do primeiro-ministro iraquiano, Nouri Kamal al-Maliki. Embora o plano procure promover estabilidade, vários funcionários do governo disseram que ele prevê menos conquistas do que o plano Casey em termos de reconciliação nacional até o final de 2009.

O plano enfatiza também o encorajamento dos acordos políticos em nível local. O comando criou uma equipe para fiscalizar as tentativas de dialogar com ex-insurgentes e líderes tribais. Esta equipe foi denominada Célula para Compromissos de Força Estratégica, e é fiscalizada por um general britânico. Segundo a terminologia do plano, o objetivo é identificar grupos potencialmente "reconciliáveis" e encorajá-los a afastarem-se da violência.

No entanto, grupos como a Al Qaeda na Mesopotâmia, um grupo extremista árabe sunita que segundo oficiais de inteligência norte-americanos tem liderança estrangeira, e células apoiadas pelo Irã, são tidas como inimigos implacáveis.

"Não estamos tentando derrotar os nossos inimigo de forma indiscriminada", disse um oficial militar que conhece o plano. "Estamos procurando atraí-los para uma acordo negociado de distribuição de poder segundo o qual eles decidirão parar de lutar contra nós. Eles não afirmarão que o seu conflito terminou. Os motivos para o conflito persistem, mas eles deixarão de tentar resolvê-lo por meio da violência. No final, esperamos que a aliança de conveniência para combater a Al Qaeda torne-se também um elo de ligação para o governo central".

A esperança é que possa ser feito progresso suficiente no nível local a fim de encorajar os acordos no nível nacional, e vice-versa. O plano também solicita esforços no sentido de encorajar o predomínio da lei, tais como a criação de zonas seguras em Bagdá e em outras cidades para realizar julgamentos criminais e processar casos relativos a detentos.

A fim de ajudar a avaliar o progresso feito na contenção da conflagração civil, o coronel William Rapp, um dos principais assessores de Petraeus, supervisionou uma iniciativa para desenvolver uma medição padronizada da violência sectarista. O resultado foi um método que vai além dos ataques listados nos relatórios militares norte-americanos, e que incorporou dados iraquianos.

"Tentaremos uma dúzia de coisas diferentes", disse uma autoridade graduada. "Talvez uma delas não funcione. Uma outra poderá gerar progresso até certo ponto. E outras demonstrarão ser melhores. Após algum tempo, acreditamos que há uma chance de obter sucesso. Mas não estou afirmando que estamos rumando com certeza para o sucesso". UOL

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