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25/07/2007

Artistas europeus voltam às igrejas

The New York Times
Valerie Gladstone
Há alguns séculos, era algo absolutamente normal igrejas e catedrais encomendarem o trabalho de artistas para embelezar seus santuários com vitrais, novos altares e outros adornos. É só pensar na Capela Sistina de Michelangelo ou nos afrescos de Piero della Francesca na catedral de Arezzo.

Na história mais recente, a associação entre igrejas e artistas de certa forma se perdeu, em parte porque os santuários religiosos nem sempre foram considerados cenários adequados para a arte moderna. Mas agora há uma onda de instalações de arte contemporânea sendo revelada em catedrais, igrejas e capelas pela Europa, e os espaços religiosos mais uma vez servem de vitrine para vários artistas plásticos.

Alvaro Felgueroso Lobo/The New York Times 
Trabalho em cerâmica de Barcelós na capela St. Pere, em Palma, Espanha

No ano passado, por exemplo, o artista abstrato espanhol Miguel Barceló finalizou um painel em cerâmica para a capela de St. Pere na catedral gótica de Palma de Mallorca, e o pintor eclético alemão Gerhard Richter criou um esplêndido vitral para a catedral de Colônia na Alemanha, que será finalmente apresentado no dia 25 de agosto.

Vários artistas, entre eles o pintor abstrato português Pedro Calapez, receberam encomendas para criar trabalhos para a nova igreja da Santíssima Trindade em Fátima, Portugal, concebida pelo arquiteto grego Alexandros N. Tombazis. A igreja deverá ser inaugurada dia 13 de outubro.

Muitos artistas consideram ser esse tipo de encomenda uma grande honra. "Uma catedral pode ser melhor que um museu", disse Barceló numa palestra em Palma este ano. "A arte foi descoberta nas igrejas. São moradas do espírito."

Trabalhos de Barceló, nascido em Mallorca, podem ser encontrados no museu da Rainha Sofia, em Madri, no centro Pompidou, em Paris, e em outras importantes instituições artísticas. Em especial, o artista espanhol diz querer produzir uma obra de arte para a catedral de Palma (Calle Capiscolato; 34-971-723-130; www.catedraldemallorca.org), para seguir as pegadas de Antonio Gaudi, que criou a abóbada e os vitrais do altar principal do templo.

Conhecedor da iconografia religiosa, Barceló imaginou um conceito pouco habitual, pretendendo cobrir as paredes da capela com uma espécie de pele de cerâmica, onde estariam retratadas cenas do evangelho de São João, especificamente as relativas ao milagre dos pães e dos peixes.

Obras de arte para prédios religiosos são freqüentemente de elaboração cara e são pouco práticas quanto à instalação, e a de Barceló não é exceção. Ele dedicou seis anos ao projeto, orçado em cerca de US$ 4,8 milhões, e demandou ajuda de especialistas em cerâmica do sul da Itália e de técnicos em vitrais de Toulouse, na França.

Depois de ser finalizado na Itália, o painel de cerâmica, com cerca de 0,3 metro quadrado e dividido em cerca de 180 pedaços, foi embalado e embarcado de navio até Mallorca. A obra em si levou alguns meses para ser realizada. Presa às paredes por cerca de 1.500 grampos de ferro, a obra perdeu algumas de suas telhas nesse processo, mas de qualquer forma Barceló ficou satisfeito com o resultado imprevisto e deixou assim mesmo.

O que ele criou vem a ser um sensual painel em verde, amarelo e rosa, emoldurado por respingos azuis. O artista cobriu a superfície com esculturas em forma de enguias, polvos e outras criaturas aquáticas, além de imagens de fatias de pão, romãzeiras e cachos de uva, tendo escolhido tons acinzentados para os vitrais de mais de 20 metros de altura. "Conheço todos os peixes e frutas de cor", diz Barceló. "Eles fazem parte do meu cenário cultural desde criança."

Enquanto Barceló se dedica a criar um trabalho inteiramente novo, a encomenda feita a Richter tem a ver com a substituição de algo que essencialmente se perdeu na catedral de Colônia, impressionante estrutura gótica que contempla o rio Reno. Bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial destruíram alguns dos vitrais coloridos da catedral, sendo que os esboços da obra foram perdidos. Coube a Richter imaginar um vitral para substituir uma das obras perdidas.

Ao longo de sua carreira de 50 anos, Richter já explorou diversos estilos - numa de suas fases produziu paisagens que remontam ao Romantismo alemão, e em outros períodos criou pinturas figurativas com borrões e também sedutoras abstrações. Nesses períodos, muitas vezes criou arranjos geométricos com fragmentos coloridos quadrados e retangulares, usando espelhos e vidros pintados e transparentes.

Mais tarde explorou essa técnica para um vitral da catedral de Colônia (Domkloster, 3; 49-221-925-847-30; www.koelnerdom.de). Esse vitral é feito de 11.500 fragmentos trabalhados a mão em 72 cores diferentes. O trabalho de Richter foi superposto às molduras e trabalhos em pedras góticas originais.

Tudo estará novo em folha na igreja da Santíssima Trindade, em Fátima (351-249-539-600, www.santuario-fatima.pt), que foi erguida levando em conta a necessidade de se construir um espaço que proteja os peregrinos da chuva e do frio do inverno e também para abrigar atividades não-religiosas. Na busca de artistas que pudessem valorizar os novos interiores, as autoridades do santuário pediram indicações de artistas criadores a diretores dos principais museus de várias nações.

O processo de seleção resultou numa ampla variedade artística de nacionalidades. Calapez irá pintar um painel que ficará sobre o portal da igreja. Conhecido por seus painéis de alumínio em cores vívidas, ele vem de experiências em espaços religiosos, já tendo contribuído com pinturas para o mosteiro dos Jerônimos em Lisboa.

Maria Loizidou, cidadã do Chipre, irá criar uma escultura para o pórtico na entrada, e a artista irlandesa Catherine Green planeja uma escultura em bronze do Cristo para o crucifixo no interior da catedral.

Enquanto isso, muitos britânicos estão criando arte que mais cedo ou mais tarde irá ornar espaços religiosos. O que inclui a monumental pintura abstrata de Alison Watt, "Still", destinada à capela memorial da igreja Old St. Paul, em Edinburgo, Escócia.

Já para os domínios da catedral metropolitana de Liverpool, a escultora Susanna Heron criou uma peça em pedra circular com o intuito de espelhar as dimensões da catedral. Feita de granito negro e suave e de granito branco lapidado, a superfície plana é como uma piscina a refletir a catedral, o céu e as árvores quando está molhada.

E ao escultor em pedra Stephen Cox foi encomendado um novo altar para a capela de São Anselmo na histórica catedral de Canterbury.

No País de Gales, o artista britânico Alexander Beleschenko criou um vitral para o histórico mosteiro de Ewenny Priory, do século 12. Ele concebeu o cruzeiro central num cenário em torvelinho branco e vidro translúcido indicando a presença de nuvens, entremeadas por inesperadas borboletas que representam a ressurreição. Constando entre os mais apreciados tesouros do país, nela o interior do priorado aparece na pintura de J.M.W. Turner, do século 18, que está no acervo do museu nacional de Cardiff.

E há também trabalhos artísticos de caráter temporário. Como exemplo, Jeff Talman criou instalações sonoras para a praça da catedral de Colônia em 2004 e mais recentemente para a catedral de St. James em Chicago. Até o dia 29 de julho, o mais recente trabalho dele poderá ser ouvido na igreja de São Lourenço, em Klatovy, na República Tcheca.

Será que todas essas novas obras simbolizam a existência de um Renascimento da arte religiosa? Sejam quais forem as razões para essas manifestações, uma coisa é certa - as igrejas que contam com a inspiração espiritual dos artistas modernos estão atraindo visitantes que possivelmente nunca antes consideraram que os espaços religiosos seriam fonte de arte inovadora e contemporânea. Marcelo Godoy

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