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25/07/2007
Libertadas pela Líbia, enfermeiras retornam à Bulgária

Matthew Brunwasser e Elaine Sciolino, em Sofia, Bulgária*

Após passarem mais de oito anos em uma prisão líbia, acusados de terem infectado de forma proposital crianças com o vírus que causa a Aids, cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestino desembarcaram de um avião presidencial francês, aqui, na terça-feira (24/07).

A acusação foi amplamente descartada no exterior como absurda. O líder líbio, coronel Muammar Gaddafi, acusou os seis funcionários da área de saúde, que teriam sido torturados, de agir segundo ordens das agências de inteligência dos Estados Unidos e de Israel para desestabilizar o Estado líbio.
Nikolay Doychinovn/Reuters
Enfermeira Vania Cherveniashka recebe abraço de parente
Dimitar Dilkoff/AFP
Médico palestino libertado (esq.) e Cecilia Sarkozy (de branco)
Dimitar Dilkoff/AFP
Valentina Manolova Siropulo, uma enfermeiras libertadas, é carregada


A libertação do grupo, devido à intervenção francesa e ao pagamento de um total de centenas de milhões de dólares para as famílias das crianças infectadas, significou um fim para um episódio bizarro e tortuoso que abre o caminho para que a Líbia melhore os laços políticos e estabeleça negócios lucrativos com a Europa.

Os grupos de direitos humanos criticaram a barganha, afirmando que a Líbia não deveria ter sido recompensada por fazer reféns e libertá-los por um preço.

"Este é de fato um caso escandaloso no qual as vidas destas enfermeiras e do médico foram literalmente colocadas à venda por US$ 400 milhões (cerca de R$ 745 milhões)", critica Susannah Sirkin, vice-diretora do Physicians for Human Rights, um grupo formado por médicos ativistas, com sede em Boston. "As acusações foram forjadas; as enfermeiras foram torturadas para confessar; não houve nenhum processo legal legítimo".

De fato, após a chegada delas a Sofia, as suas histórias sobre torturas, espancamentos e estupros começaram a ser ouvidas. Uma das enfermeiras diz que tentou se suicidar.

"Ainda não consigo acreditar que estou em solo búlgaro", disse Kristiana Valcheva, 48, uma das cinco enfermeiras, à rede de televisão estatal Canal 1, enquanto os membros do grupo abraçavam as suas famílias.

Os funcionários libertados foram acompanhados na terça-feira por duas mulheres que conseguiram resolver o impasse final: a primeira-dama francesa, Cecilia Sarkozy, e o comissária de Questões Internacionais da União Européia, Benita Ferrero-Waldner.

A libertação dos seis é um resultado de um processo diplomático de três anos que foi iniciado pela União Européia, promovido pelo então primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair e pela Alemanha, e concluído pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e sua mulher.

O episódio ocorre após a superação de certos impasses que possibilitaram à Líbia sair do gelo diplomático. Por exemplo, o país admitiu em 2002 a responsabilidade pelo atentado a bomba contra o vôo 193 da Pan Am, em 1988, sobre Lockerbie, na Escócia, e renunciou formalmente aos seus programas de armas nucleares, químicas e biológicas em 2003.

Em uma entrevista coletiva à imprensa em Paris, Nicolas Sarkozy afirmou: "Isto é primeiramente um pesadelo que está terminando para estas mulheres e este homem, cuja inocência é óbvia para todos na Europa".

No final, o entendimento pessoal que Cecilia Sarkozy estabeleceu com Gadhafi, e com a mulher e a filha do presidente líbio, desempenhou um papel crucial para que se chegasse a um acordo, segundo informaram autoridades francesas e de outros países europeus que estiveram envolvidas nas negociações.

Na terça-feira, em Sofia, Ferrero-Waldner da União Européia disse: "A decisão de libertar os seis profissionais de saúde abrirá o caminho para um relacionamento novo e ampliado entre a União Européia e a Líbia, e reforçará os nossos vínculos com a região mediterrânea e toda a África".

Nem todos os termos do acordo ficaram claros. Na semana passada, o supremo tribunal líbio comutou as penas de morte dos seis indivíduos pela prisão perpétua, e depois disso cada uma das 460 famílias das crianças infectadas foi informada de que receberia uma indenização de US$ 1 milhão (cerca de R$ 1,86 milhão) para que abrisse mão da exigência de que os seis estrangeiros fossem executados.

O filho de Gaddafi, Seif al Islam, que dirige uma fundação que liderou as negociações entre as famílias e o Estado líbio, disse em uma entrevista ao jornal "Le Figaro" que a Líbia forneceria os fundos, mas que a Bulgária, a Eslováquia, a Croácia e a República Tcheca também contribuíram ao cancelar a dívida da Líbia. No entanto, esse países não confirmaram tal informação. Uma autoridade francesa graduada disse que a Bulgária já perdoou várias dezenas de milhões de dólares da dívida líbia, e que a Romênia e a República Tcheca estariam cogitando seguir esse exemplo.

Ferrero-Waldner disse que os 27 países da União Européia encorajariam os governos membros a contribuir voluntariamente para um fundo internacional que ajudaria a indenizar as famílias e financiaria o tratamento médico e projetos de hospitais na Líbia.

Segundo os termos do acordo, que precisa ser aprovado pelos governos da União Européia, a Líbia e a união formariam uma parceria integral, e os europeus teriam prometido um pacote de auxílio para desenvolver hospitais e outras infra-estruturas líbias.

A União Européia prometeu também uma ampla gama de incentivos, incluindo um acordo de comércio regional que facilitaria o acesso de produtos agrícolas líbios ao mercado europeu, o financiamento da restauração de antigüidades líbias, a oferta de bolsas de estudos a estudantes líbios e a concessão de vistos a cidadãos líbios para que estes viajem à Europa.

Idriss Lagha, diretor da União Líbia de Crianças Infectadas com o HIV, disse de Trípoli, em uma entrevista por telefone, que a indenização financeira às famílias, obrigatória segundo a lei islâmica, e as promessas de apoio médico às crianças infectadas e ao hospital da Líbia em Benghazi foram fatores de importância crítica para a superação do impasse.

"Esta libertação passou a ser finalmente esperada após as negociações, e atendeu às exigências da lei islâmica, depois que os pagamentos foram efetuados", informou Lagha.

A libertação dos funcionários de saúde é um golpe diplomático por parte de Sarkozy, que visitará a Líbia na quarta-feira durante uma viagem previamente planejada ao Senegal e ao Gabão.

Além da libertação dos funcionários de saúde, Sarkozy deseja reproduzir para a França o sucesso obtido por Blair junto à Líbia. Em maio, o então primeiro-ministro britânico visitou a Líbia e anunciou um contrato de exploração de petróleo no valor de US$ 900 milhões que fez com que a British Petroleum (BP), a companhia britânica de petróleo, retornasse ao país do norte da África depois de mais de três décadas. Blair previu que as companhias britânicas desfrutariam de novos e "enormes" contratos porque Gaddafi se juntou à luta global contra o terrorismo.

A libertação dos funcionários de saúde foi uma das promessas de campanha de Sarkozy. Após a sua eleição como presidente da França em maio último, Sarkozy, que visitou a Líbia quando era ministro do Interior, prometeu a Gaddafi em uma conversa telefônica que retornaria ao país tão logo os seis profissionais fossem libertados. Foi então que o coronel convidou Cecilia Sarkozy.

Cecilia Sarkozy aparentemente encantou o coronel durante um primeiro encontro na Líbia no início deste mês, realizado sem a presença de assessores. Ela também conheceu a mulher e a filha de Gaddafi, as famílias das crianças infectadas e os funcionários presos. Ao retornar à França, Cecilia Sarkozy descreveu a criação de "uma relação de confiança real" com Gaddafi.

Durante a sua segunda viagem à Líbia - desta vez com Ferrero-Waldner da União Européia -, Cecilia Sarkozy pediu a Gaddafi que fosse magnânimo. Uma autoridade européia, ao comentar o encontro, contou que Cecilia Sarkozy teria dito: "O meu marido virá amanhã se você fizer este acordo, mas não virá se você não fizer. Você irá libertá-los de qualquer forma, então dê andamento ao processo. Esta é a sua chance de retornar ao cenário internacional".

As autoridades francesas e européias falaram em condição de anonimato, citando as restrições diplomáticas normais.

No aeroporto em Sofia, Cecilia Sarkozy acenou para os jornalistas ao descer do avião, colocando a mão sobre o coração e sussurrando a palavra "merci".

Nicolas Sarkozy, que foi ele mesmo o responsável por grande parte da diplomacia, sem recorrer ao seu próprio ministro das Relações Exteriores, chegou até a pedir a ajuda do emir do Qatar na sexta-feira passada, quando este visitava a França, solicitando a ele que ligasse para Gaddafi a fim de promover a iniciativa francesa, segundo informou uma autoridade européia.

O sucesso de Nicolas Sarkozy coloca a França em uma posição favorável para formar uma nova relação econômica com a Líbia.

A França, uma grande fornecedora da Força Aérea Líbia na década de 1970, antes que a intervenção militar da Líbia no Chade esfriasse as relações franco-líbias, retomou a cooperação militar com o país africano em 2005. A França está bem posicionada para fornecer à Líbia o auxílio bastante necessário para a construção de grandes rodovias, trens, sistemas de satélite e de engenharia civil, assim como a implementação de projetos aeroespaciais e de defesa.

O golpe diplomático da França irritou alguns parceiros europeus do país, sobremaneira a Alemanha, cujo ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, esboçou os contornos de um acordo com Gaddafi durante o período de seis meses no qual a Alemanha presidiu a União Européia, e que encerrou-se algumas semanas atrás.

"O hiperativo presidente francês Nicolas Sarkozy ameaçou destruir todo o acordo com a sua ânsia incontrolável de se envolver na questão", afirmou um longo artigo publicado na revista "Der Spiegel" nesta semana, que recapitulou os próprios esforços diplomáticos da Alemanha. O texto acrescentou: "Novo no cenário da diplomacia internacional, ele primeiro enviou a mulher, Cecilia, em uma visita conciliatória às enfermeiras e às crianças infectadas - na sua posição oficial como uma 'mãe'".

* Contribuíram para esta matéria Matthew Brunwassr, de Sofia; Elaine Sciolino e Ariane Bernard, de Paris; Dan Bilefsky, de Bruxelas; e Jad Mouawad, de Nova York.

Tradução: UOL

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