UOL Notícias Internacional
 

26/07/2007

Hollywood começa a narrar uma guerra que ainda está longe de acabar

The New York Times
Michael Cieply
Em Los Angeles
Certa noite, quatro anos atrás, cinco soldados que haviam retornado aos Estados Unidos após passarem três meses no Iraque, foram beber em um restaurante Hooters e em um bar de topless perto de Fort Benning, na Geórgia.

Antes que a noite tivesse acabado, um deles, o soldado Richard R. Davis, estava morto com pelo menos 33 facadas. O seu corpo foi encharcado com fluido de isqueiro e queimado. Dois membros do grupo acabaram condenados por assassinato, um outro admitiu ter praticado homicídio culposo e o último confessou ter ocultado o crime.

Agora certas pessoas em Hollywood querem que o público que assiste aos filmes decida se o incidente é um emblema de uma guerra sobre a qual perdeu-se o controle. Isso é parte de um novo e talvez perigoso desejo da indústria de entretenimento de deslocar até mesmo os mais delicados debates sobre a segurança após o 11 de setembro, o Iraque e a questão das tropas do reino dos documentários para o universo cinematográfico do drama político comum.

Em 14 de setembro a Warner Independent Pictures espera lançar "In the Valley of Elah" (EUA, 2007), um drama inspirado no assassinato de Davis, escrito e dirigido por Paul Haggis, cujo "Crash - No Limite" ("Crash", EUA, 2004) ganhou o Oscar de melhor filme em 2006. No filme, Tommy Lee Jones estréia como um ex-combatente que desafia os burocratas do exército e as autoridades locais na busca pelos assassinos do seu filho. Em uma das imagens que define o filme, a bandeira norte-americana é hasteada de cabeça para baixo no interior do país, o que é o sinal de sofrimento extremo.

IRAQUE NAS TELAS
Lorey Sebastian/Warner Independent Pictures/The NYT
Tommy Lee Jones (de frente), em cena de "In the Valley of Elah"
Bahadir Taniover/Home of the Brave Productions, Inc./The NYT
Samuel L. Jackson interpreta um veterano em "Home of the Brave"
Jean-Louis Bompoint/Plum Pictures/The NYT
"Grace is Gone" traz história de família que perdeu a mãe no Iraque
Outros filmes que serão lançados também utilizam a figura do ex-combatente prejudicado pela guerra do Iraque para trazer à tona a questão referente a uma guerra contínua. Em "Grace is Gone" (EUA, 2007), da Weinstein Company, dirigido por James C. Strouse, e que deve chegar às salas de exibição em outubro, John Cusack e duas filhas enfrentam a tragédia da perda da mulher e mãe que foi morta em missão militar. Em "Stop-Loss" (EUA, 2007), de Kimberly Peirce, que deverá ser lançado em março pela Paramount, Ryan Phillippe é um veterano que desafia uma ordem para que volte ao Iraque.

No passado, Hollywood geralmente deu aos veteranos mais tempo para respirar. "Os Melhores Anos de Nossas Vidas" ("The Best Years of Our Lives", EUA, 1946), de William Wyler, sobre os percalços enfrentados por aqueles que retornaram da Segunda Guerra Mundial, foi lançado mais de um ano após o término daquela guerra. Da mesma forma, "Amargo Regresso" ("Coming Home", EUA, 1978), de Hal Ashby, e "Nascido em 4 de Julho" ("Born on the Fourth of July", EUA, 1989), duas histórias sobre veteranos da Guerra do Vietnã, só surgiram bem depois da queda de Saigon.

"A mídia em geral está respondendo aos fatos mais rapidamente do que nunca", afirma Scott Rudin, um dos produtores de "Stop-Loss". "Por que os filmes não deveriam fazer o mesmo?". Segundo ele, o seu filme será lançado, propositalmente, em meio à campanha pela Presidência dos Estados Unidos.

O ímpeto pela urgência está conduzindo também outros diretores e estúdios. Em outubro, por exemplo, a New Line Cinema lançará "Rendition" (EUA, 2007), no qual Reese Witherspoon faz o papel de uma mulher cujo marido nascido no Egito é capturado por um grupo governamental contra-terrorista descontrolado. Paul Greengrass, o diretor de "O Ultimato Bourne" ("The Bourne Ultimatum", EUA, 2007), no qual os vilões pertencem a uma unidade similarmente clandestina, está adaptando o livro de Rajiv Chandrasekaran sobre a Zona Verde de Bagdá, "Imperial Life in the Emerald City", para a Universal Pictures.

"Redacted", de Brian De Palma, sobre um esquadrão do Exército dos Estados Unidos que persegue uma família iraquiana, deverá ser lançado em dezembro pela Magnolia Pictures. E a Sony Pictures está fazendo um filme baseado na história de Richard A. Clarke, o ex-assessor de Segurança Nacional que é um crítico do governo Bush.

Entre os novos filmes, "Valley of Elah" certamente será um dos examinados com maior atenção, graças às credenciais de Haggis - ele dividiu um Oscar pelo roteiro de "Menina de Ouro" ("Million Dollar Baby", EUA, 2005) e foi indicado para um outro como co-roteirista de "Cartas de Iwo Jima" ("Letters of Iwo Jima", EUA, 2007) - e à sua oposição à política dos Estados Unidos no Iraque.

"Este não é um dos nossos momentos mais brilhantes nos Estados Unidos", disse Haggis em uma entrevista por telefone de Londres, onde ele ainda está trabalhando na música do filme. "Não deveríamos ter nos envolvido".

Mesmo assim, Haggis insiste em afirmar que o objetivo de "Valley of Elah" não é impor o seu ponto de vista. Segundo ele, em vez disso, o filme tem o propósito de lançar questões sobre "o que ocorre com esses garotos" ao serem colocados em uma situação na qual os inimigos são freqüentemente indistinguíveis dos civis neutros, e as regras de combate podem obrigá-los a tomar decisões que os assombrarão no futuro. Apesar de algumas liberdades ficcionais evidentes - o caso de Fort Benning não envolveu o detetive local que desafia as autoridades e tampouco a mãe solteira interpretada por Charlize Theron - o filme se aproxima suficientemente do fato para que Haggis cogite uma dedicatória a Davis.

Mas não se determinará ao certo se o caso de fato ilustra a realidade dos veteranos que retornam da guerra, nem mesmo com o auxílio da Warner Independent. O estúdio pretende suplementar algumas das suas exibições promocionais com painéis de discussões sobre a desordem do estresse pós-traumático, um fator abordado no filme.

"As questões são similares a várias daquelas que estamos enfrentando", disse, em tom de aprovação, Garetty Reppenhagen, um veterano do Iraque que assistiu a "Valley of Elah" na semana passada em uma das primeiras exibições desse tipo em Washington. Reppenhagen, que é membro da organização Veteranos do Iraque Contra a Guerra, ajudou a recrutar indivíduos para assistirem ao filme.

Já Dennis Griffee, um veterano que foi ferido em combate e que é comandante nacional da Organização de Veteranos de Guerra do Iraque, disse que declinou o convite para se envolver com o filme após saber que Susan Sarandon, uma grande oponente da guerra, desempenhava um papel proeminente.

"Isso é no mínimo ofensivo", disse Griffee sobre aquilo que ele vê como uma recusa generalizada de reconhecer o orgulho das tropas pelas realizações no Iraque. Ele acrescentou que praticamente todos os integrantes do seu pelotão foram para a faculdade, e não para a cadeia, após retornarem.

Ilona Meagher, que escreveu "Moving a Nation to Care: Post-Traumatic Stress Disorder and America's Returning Troops" (algo como, "Fazendo com que uma Nação se Importe: A Desordem do Estresse Pós-Traumático e as Tropas Norte-Americanas que Retornam"), e que se juntou à iniciativa promocional da Warner, reconheceu que o caso de Davis é um dos mais extremos dos 170 episódios relacionados ao estresse que ela documentou desde 2005. "Todos sabemos que os seres humanos respondem a histórias mais drásticas", escreveu Meagher em uma mensagem enviada por e-mail.

De fato, ao listar os dez principais crimes do ano passado, o jornal "The Columbus Ledger-Enquirer", da Geórgia, registrou apenas dois casos envolvendo soldados (cerca de 25 mil) que servem em Fort Benning.

Afastando o filme do caso real, Haggis filmou a maior parte das cenas no Novo México, e operou sem as aprovações militares que seriam necessárias em Fort Benning. Ele escreveu o roteiro originalmente para a Warner Brothers, que acabou concordando que o filme deveria ser financiado pela Summit Entertainment e pela NALA Films, para um orçamento de cerca de US$ 23 milhões. As companhias estão nitidamente capitalizando a fama considerável de Jones e o potencial para premiações a fim de superar a resistência das platéias aos filmes que têm como tema o Iraque.

A MGM arrecadou apenas US$ 44 mil nas bilheterias domésticas com a obra de Irwin Winkler, "A Volta dos Bravos" ("Home of the Brave", EUA, 2006), um outro filme sobre um veterano que retorna aos Estados Unidos, que foi lançado no ano passado. "Não conseguimos fazer com que ninguém o assistisse, apesar das críticas positivas", lamenta Winkler. Ele especula que o público pode preferir um intervalo mais longo antes de presenciar na tela um evento perturbador como a guerra.

Polly Cohen, presidente da Warner Independent, encara o filme de Haggis em termos mais amplos. "Para mim é uma história sobre pai e filho", diz ela.

Porém, para Haggis, a venda da história gera certas complicações: no filme o filho não é enxergado da maneira exata como um pai real o veria.

"O meu filho presenciou algumas atrocidades de guerra cometidas no Iraque, e tiveram que matá-lo para silenciá-lo", acusa Lanny Davis, um sargento da reserva do exército cujos esforços geraram a investigação em um momento no qual acreditava-se que o seu filho tinha se ausentado do serviço sem autorização.

No entanto, quanto a um outro ponto, Davis não tem reclamações a fazer com relação a Haggis. "Tenho pensado em hastear a minha própria bandeira de cabeça para baixo", conta ele. "Este não é o meu Estados Unidos, aquele cujos interesses defendi". UOL

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