UOL Notícias Internacional
 

27/07/2007

Cuba no limbo enquanto irmãos Castro dividem o poder

The New York Times
James C. McKinley Jr.

Em Camagüey, Cuba
Pela primeira vez, Raúl Castro, o presidente em exercício, fez o tradicional discurso revolucionário durante o feriado nacional mais importante de Cuba na quinta-feira (26/07), aprofundando a ampla sensação de que seu irmão Fidel entrou em uma semi-aposentadoria e dificilmente retornará. Mas Cuba continua vivendo em uma espécie de limbo, com nenhum irmão controlando plenamente o Estado socialista de partido único.

No ano passado, Fidel Castro, o antes líder todo-poderoso, levou milhares de fiéis seguidores do Partido Comunista de Cuba a vivas entusiásticos na comemoração dos ataques guerrilheiros aos quartéis do exército que deram início à sua revolução há meio século. Foi a última vez em que ele foi visto em público.

Naquela noite, após dois longos discursos, o magro líder de 80 anos sofreu uma infecção aguda e sangramento no cólon, algo de que ainda não se recuperou plenamente. Cinco dias depois, ele transferiu o poder para seu irmão e um pequeno grupo de autoridades do Gabinete de forma temporária.

Jose Goitia/The New York Times 
Raúl Castro faz discurso durante as comemorações do dia da Revolução Cubana

De lá para cá, os cubanos vivem sob dois mestres - o Castro mais velho, enfermo mas ainda bem vivo, e seu irmão mais novo, o ministro da Defesa de longa data, que não está livre para fazer mudanças significativas.

"A pergunta é por que não ocorreram mudanças mais dramáticas", disse Manuel Cuesta Morua, um líder moderado de oposição. "A resposta é que Fidel Castro continua governando."

Como o Partido Comunista não substituiu oficialmente Fidel Castro como chefe de Estado, sua presença e sua enorme história aqui continuam exercendo uma forte influência na política cubana. Isto dificulta para Raúl sacudir a economia centralizada da ilha ao estilo soviético, disseram especialistas em política cubana, apesar dos comentários públicos de Raúl na quinta-feira terem deixado claro que é o que gostaria de fazer.

Ele repreendeu a nação por ter que importar alimentos quando possui abundância de terra rica e prometeu ampliar a produção agrícola. Ele também disse que Cuba está buscando formas de obter mais investimento estrangeiro em alguns setores, sem abandonar o socialismo.

"Ninguém, nenhum indivíduo ou país, pode gastar mais do que tem", ele disse. "Parece elementar, mas nós nem sempre pensamos e agimos de acordo com esta realidade inescapável. Para ter mais, nós precisamos começar a produzir mais."

Raúl Castro falou perante uma platéia contida de cerca de 100 mil pessoas, a maioria vestindo camisetas vermelhas e acenando pequenas bandeiras cubanas. A comemoração é o feriado nacional mais importante de Cuba, que celebra o ataque realizado em 26 de julho de 1953 pelos dois Castros e um grupo ralé de guerrilheiros ao quartel de Moncada do exército, na cidade de Santiago. O ataque foi um desastre, mas marcou o nascimento de uma rebelião que no final derrubou Fulgêncio Batista em janeiro de 1959.

O discurso de uma hora de Raúl Castro esteve repleto de referências às palavras de seu irmão carismático. Ele encerrou com uma das famosas citações de Fidel Castro sobre a natureza de uma revolução socialista, uma passagem que a multidão murmurou com ele, como uma oração.

Na verdade, às vezes parecia como se Raúl Castro estivesse fazendo um elogio fúnebre ao seu irmão. "Nem mesmo durante os momentos mais sérios de sua doença ele deixou de fornecer sua sabedoria e experiência a cada problema e decisão essencial", ele disse. "Estes foram realmente meses muito difíceis, apesar de terem tido o efeito oposto daquele que nossos inimigos esperavam, aqueles que sonhavam que o caos surgiria e o socialismo cubano entraria em colapso".

Desde que Fidel Castro adoeceu, ele já passou por várias cirurgias e reconheceu que o resultado de pelo menos uma foi adverso. Ele não foi mais visto em público e deixou de ir às paradas militares e outros eventos aos quais costumava comparecer. Ele completará 81 anos no próximo mês e não dá sinais de que está com pressa de voltar ao cargo.

As autoridades cubanas divulgam periodicamente fotos e vídeos mostrando o líder de 80 anos com aparência magra, depois mais robusto, esta última na televisão cubana no início de junho.

Atualmente, Fidel Castro passa mais tempo escrevendo colunas para o jornal do Partido Comunista sobre uma série de assuntos, da guerra no Iraque à deserção dos boxeadores cubanos durante os Jogos Pan-americanos. Ele recentemente culpou o uso de dólares e remessas de dinheiro de cubanos nos Estados Unidos por "privilégios e desigualdades irritantes".

As colunas são cheias de divagações e às vezes bem-humoradas. Ele escreveu na semana passada que estava tão absorto nos jogos que esqueceu de tomar seus remédios.

"Eu não tenho tempo agora para filmes e fotos que exigem que apare constantemente meu cabelo, barba e bigode e que me arrume todo dia", ele resmungou em uma de suas colunas, intitulada "Reflexões do Comandante-em-Chefe".

Raúl Castro, 76 anos, deu vários passos pequenos, mas significativos, ao longo do último ano que sugerem que deseja abrir a sociedade cubana e talvez adotar um sistema movido pelo mercado, sem ceder o controle do partido único, semelhante ao que fez a China comunista. Durante os anos 90, ele apoiou o empreendimento privado limitado e investimento estrangeiro, reformas que seu irmão desfez há quatro anos.

Desde que se tornou o presidente em exercício, o Castro mais jovem já ofereceu duas vezes iniciar negociações com os Estados Unidos para acabar com quase meio século de inimizade e sanções. Ele repetiu tal posição na quinta-feira, notando que o presidente Bush em breve deixará o cargo "juntamente com seu governo errático e perigoso".

"O novo governo terá que decidir se manterá a política absurda, ilegal e fracassada contra Cuba ou se aceitará o ramo de oliveira que oferecemos", ele disse. Raúl Castro deu outros pequenos passos para abrandar a linha dura comunista rígida que seu irmão segue. Menos dissidentes foram presos neste ano do que no passado e grupos de militantes do governo deixaram de molestar os críticos do governo, disse Cuesta Morua.

Na frente econômica, Raúl Castro permitiu a importação de televisores e aparelhos de DVD. Ele disse à polícia para permitir que os táxis piratas operem sem interferência. Ele prometeu gastar milhões para reformar hotéis, marinas e campos de golfe. E até mesmo ordenou que um dos jornais estatais investigasse a má qualidade dos serviços que as padarias estatais e outras lojas fornecem à população.

Mas talvez o passo mais importante que adotou tenha sido o pagamento das dívidas do Estado junto aos agricultores privados e o aumento do valor pago pelo Estado pelo leite e pela carne. Os cubanos comuns ainda vivem de alimentos racionados e lidam com escassez crônica de alimentos básicos como carne. Os salários médios são de US$ 12 por mês e a maioria gasta três quartos do que ganha em alimentos, segundo um estudo de Armando Nova Gonzalez, um economista do Centro para Estudo da Economia Cubana.

"O que uma pessoa ganha não é suficiente para viver", disse Jorge, um guarda de museu que pediu para que seu sobrenome não fosse citado por temer perseguição política. "É preciso recorrer ao mercado negro para se manter. Não, não apenas se manter, sobreviver." Ele disse que ele e sua esposa ganham juntos cerca de US$ 30 por mês, insuficiente para sustentar a família de quatro pessoas.

Mas Raúl Castro até o momento decepcionou muitos cubanos que esperavam mudanças dramáticas assim que ele assumisse o poder. Um motivo é sua constante deferência ao seu irmão mais velho e o fato de carecer de poder político para adotar medidas mais fortes até que Fidel abra mão do controle ou morra, disseram especialistas em Cuba.

"Eu diria que é notável quão pouco mudou no último ano", disse Robert A. Pastor, ex-assessor do presidente Carter e cientista político da Universidade Americana. "As pessoas permanecem calmas, mas, é claro, o grande irmão está de olho."

A influência de Fidel Castro se estende além de seu novo papel como colunista-chefe. Mesmo enquanto Raúl parece caminhar para ocupar permanentemente o governo, os líderes parecem relutantes em reverter a decisão de Fidel de 2003 de centralizar novamente a economia e restringir os empreendimentos privados de pequena escala que surgiram nos anos 90, após a queda da União Soviética, disseram vários economistas e cientistas políticos.

"Seu principal impacto em Cuba não são seus textos, mas o fato de estar vivo, o que significa que Raúl e os demais hesitam em promover grandes iniciativas", disse Jorge I. Dominguez, um professor de Harvard que estuda Cuba.

Em seu discurso, Raúl Castro reconheceu o problema persistente dos baixos salários e da falta de produtividade, dizendo que os problemas econômicos estão desgastando o tecido social. Ele pediu para que o país tenha paciência. Disse que o problema não pode ser resolvido de imediato e que não deseja aumentar demais as expectativas.

"Os salários atualmente não são suficientes para atender todas as necessidades", ele disse, acrescentando: "Isto gera formas de indisciplina social e tolerância que, após se enraizarem, serão difíceis de erradicar". George El Khouri Andolfato

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