UOL Notícias Internacional
 

28/07/2007

Vendedores de gelo são vítimas do caos e da violência em Bagdá

The New York Times
Stephen Farrel
Em Bagdá
Todos os dias, antes que o sol de meados de verão ascenda o suficiente para cozinhar o sangue espalhado pelo concreto, a população pobre de Bagdá faz filas em frente a fábricas de gelo, em uma cena que faz lembrar um romance de Dickens. Como a energia elétrica só está disponível na maioria das casas por cerca de duas horas ao dia, essas pessoas trocam as suas notas velhas e marrons de dinares por aquilo que tornou-se um símbolo da regressão do Iraque a uma era mais primitiva. Em uma capital que já foi a sede do Califado Islâmico e um centro de sofisticação intelectual árabe, o gelo é atualmente um produto imprescindível para os destituídos, uma massa sujeita aos horrores sectaristas e às regras ditadas por quadrilhas.

Na predominantemente xiita Topci, os fabricantes de gelo afirmam que o Exército Mahdi, a milícia do clérigo radical Muqtada al-Sadr, impôs uma determinação no primeiro dia do verão, ordenando aos vendedores que cobrassem no máximo de 4.000 dinares, o equivalente a US$ 3 (cerca de R$ 5,70), pelo bloco de gelo de 25 quilos. - 30% menos do que o preço cobrado nas áreas que não estão sob o controle do Exército Mahdi.

Johan Spanner/The New York Times 
Comerciante e jovem comprador em uma casa de gelo em Topci, Bagdá

Todo mundo acatou a ordem, e criou-se assim um subsídio instantâneo para as mulheres de véu e os trabalhadores pobres que compõem o grupo natural de apoiadores de al-Sadr. O mesmo preço também é imposto em outras bases de poder de al-Sadr, como a Cidade Sadr.

Alguns fornecedores estão horrorizados.

"Eles estão tentando melhorar a imagem e obter favores", resmunga um vendedor, enquanto um colega corta os blocos cristalinos ao meio com um alfanje, para que mulheres vestidas de negro os acondicionem em sacolas de compras. "Mas isso não vai ajudar muito. Todos sabemos o que é o Exército Mahdi".

Cansados dos quatro anos de caos, outros indivíduos apóiam a medida para reinstituir a ordem - qualquer ordem.

"Não existe nada melhor do que a lei e a ordem", afirma Omar Suleiman, gerente de uma fábrica de gelo. "Na época de Saddam Hussein, o governo costumava controlar o preço do gelo. Agora não há controle, exceto nos lugares em que as milícias impõem esta medida".

Os xiitas não são os únicos a manipular a oferta de produtos com o propósito de beneficiar as suas próprias agendas.

Em uma fábrica de gelo, todos os quatro motoristas responsáveis pelas entregas pediram demissão no ano passado depois que gangues sectaristas avisaram que os matariam caso eles continuassem a dirigir através das linhas invisíveis, mas bastante reais, que dividem os bairros sunitas e xiitas de Bagdá.

Os consumidores de um subúrbio os advertiram que os takfiris - extremistas sunitas fanáticos - decretaram que o produto congelado vendido por eles é anti-islâmico.

"Em Ghazaliya é proibido vender gelo, porque os takfiris disseram que o profeta Maomé não contava com gelo na sua época", conta Khatan Kareem, gerente de uma fábrica do produto, balançando a cabeça em sinal de desaprovação àquilo que considera um absurdo.

Várias das fábricas de gelo de Bagdá são autênticas peças de museu. O compressor industrial de uma delas foi fabricado na Índia em 1960. E o compressor de uma outra foi feito pela L. Sterne & Co., em Glasgow, na Escócia, há mais de meio século.

Enquanto circula entre as correias de ventiladores e as tubulações cobertas de gelo, tentando manter a sua fábrica funcionando, ainda que precariamente, Hussam Mohammed afirma que jamais imaginou que a sua fábrica arruinada, construída em 1953, quando o Iraque ainda era uma monarquia, sobreviveria à era pós-Saddam.

"Em 2003, achei que o setor de fabricação de gelo estivesse acabado, já que todos teriam eletricidade e geladeiras assim que os norte-americanos chegassem", conta o veterano fabricante de gelo.

"As peixarias e os açougues que costumavam comprar de nós não existem mais, tendo fechado as portas devido à insegurança generalizada. Agora são os pobres que vêm até aqui, porque eles não têm dinheiro para comprar geradores que possibilitam que mantenham os alimentos e as bebidas gelados".

A compartimentação sectarista do gelo de Bagdá é tão rígida para os fregueses quanto para os entregadores.

Devido ao medo dos combatentes armados, somente os vizinhos que moram bem perto da fábrica podem chegar com segurança até as portas sujas do estabelecimento.

"As pessoas costumavam vir das áreas sunitas - Taji, Amiriya e Jamia - para comprar gelo aqui porque não havia fábricas naquelas áreas", diz Kareem. "Mas agora os sunitas não podem vir, e comigo ocorre o mesmo. Sou xiita e não posso ir a Yarmuk".

Falar em Yarmuk mexe com Kareem porque até três meses atrás ele vivia naquele bairro sunita e tinha um emprego público seguro. Essa situação só durou até uma blitz do exército iraquiano descobrir um ícone xiita pendurado na parede da sua casa.

"Eles me espancaram, queimaram a minha casa e me expulsaram da área", conta Kareem, agachado em meio ao odor nauseante de amônia que permeia as fábricas de gelo. "Agora moro na cozinha dos meus parentes. E trabalho aqui".

A depressão de Kareem reflete a frustração de uma classe média iraquiana que se orgulha de ser uma das que contam com o mais alto nível educacional do mundo árabe, mas que se vê ficando bastante para trás em relação aos rivais regionais e retornando ao patamar tecnológico de décadas atrás.

Nos distritos mais ricos, as mercadorias abarrotam as prateleiras, sendo destinadas àqueles que são capazes de comprar no mercado negro energia elétrica dos donos de geradores particulares.

Mas milhões de destituídos não conseguem arcar com tal luxo, e muitos dos donos de geradores foram mortos ou expulsos pelas milícias ansiosas por se apoderar desse negócio lucrativo.

O gelo, que é aparentemente o menos politizado dos produtos, exige apenas água, eletricidade e alguns produtos químicos para ser produzido. Mas no atual estado de violência polarizada em Bagdá, nenhum negócio individual pode se dar ao luxo de existir isoladamente. As matérias-primas precisam passar por postos de revista e por grupos armados que impõem as suas regras arbitrárias e punições instantâneas. Os consumidores, fornecedores, equipes de produção e produtos finais também enfrentam esse tipo de restrição.

As fábricas de gelo - que dão grande lucro no pico da estação de verão - não passaram desapercebidas aos olhos das milícias.

No enclave sunita de Adhamiya, que acaba de ser separado por um muro dos bairros vizinhos xiitas para conter a carnificina entre os dois grupos religiosos, Taha Khaleel reclama do fato de seus motoristas e mecânicos estarem à mercê do posto de revista do exército iraquiano, dominado pelos xiitas. Os soldados do posto exercem controle sobre o portão de entrada e saída do bairro.

"Tudo depende do estado de espírito deles", explica Khaleel. "Isso causa problemas para nós no que diz respeito à continuidade do fornecimento de combustível. Atualmente os motoristas relutam mais em vir até aqui por causa disso, e também devido aos insultos que têm que ouvir".

O dono de uma fábrica de gelo em Taji foi seqüestrado, tendo sido libertado somente após ter entregado o carro aos seqüestradores. O dono da fábrica de gelo Qutub, em Bagdá, fugiu do Iraque depois que recebeu ameaças de morte, e os funcionários dizem que a maioria dos fregueses da classe média também se foi.

A mesma sorte não tiveram os pobres compradores que freqüentam o mercado de rua Hay al-Salaam, onde um grande número de quiosques de madeira nos quais se vende gelo surgiu nos últimos meses, apesar das valas de esgoto adjacentes e das pilhas de lixo putrefato.

Alarmados com relatos de doenças, muitos compradores agora jogam pílulas esterilizantes sobre os blocos de gelo. Se eles tiverem sorte, os quiosques terão gelo fabricado em Sulaimaniya ou Erbil, cidades curdas. Tal gelo é produzido com água limpa das montanhas. Mas, se tiverem azar, a única opção é comprar o produto impuro de Bagdá, que tem uma típica coloração amarelada.

"Nunca comprei gelo durante o regime de Saddam Hussein, porque podia usar o meu congelador", conta Mohammed Abbadi, 52, dono de uma loja de roupas. "Mas atualmente tenho que comprar porque não há energia elétrica, e precisamos de água gelada. O gelo é a nossa única fonte de refrigeração, mesmo se for sujo. As minhas duas filhas contraíram febre tifóide duas semanas atrás". UOL

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