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29/07/2007

Amor moderno: eu o fiz, mas quem é ele?

The New York Times
De Thomas Anthony Donahoe*
Em dezembro passado recebi uma ligação de uma clínica de saúde e fertilidade em Cambridge, Massachusetts, perguntando se eu receberia um adolescente que estava indagando sobre seu doador de esperma. Eu havia doado nessa clínica no final dos anos 80, e parecia que qualquer criança que eu tivesse ajudado a gerar estaria agora entrando em idade legal para me contatar, se eu permitisse.

David Chelsea/The New York Times 


Aos 50 anos, nunca me casei e não tive filhos. Cerca de um mês antes do telefonema eu tinha chegado a um ponto em que me sentia ansioso e socialmente desconectado, pouco à vontade com meus amigos e sentindo que devia haver algo mais significativo em minha vida. Talvez isso tenha me predisposto a dizer 'sim, o menino podia me ligar', e pouco depois recebi a seguinte mensagem em minha secretária-eletrônica:

- Olá, Anthony. Sei que isto pode ser uma surpresa para você. Mas eu sabia que talvez você estivesse esperando. Mas... ãh... acho que você é o meu doador de esperma.

Então ele disse seu nome e o número do celular e terminou dizendo:

- Obrigado. Espero que você me ligue. Até logo.

Pensar nesse tipo de encontro sempre me havia provocado ansiedade e excitação. Sempre fui ansioso sobre a potencial estranheza de um encontro e temia as possíveis responsabilidades financeiras que pudessem surgir nesse território jurídico não muito definido. Mas também me senti animado, depois de anos imaginando sobre um dia realmente conhecer a pessoa que surgiu desse processo.

Telefonei de volta e deixei um recado. Perguntei-me se ele estaria escutando enquanto gravei a mensagem, mas não quis atender porque primeiro queria ter uma idéia da minha voz, minha atitude e minha disponibilidade a conhecê-lo. Finalmente, depois de um ou dois dias, nos falamos.

- Oi, eu disse. Aqui é o Anthony. O cara que foi seu doador de esperma.
Estranho, não é?
- Obrigado por retornar a ligação.
- Fiquei feliz por você me procurar, eu disse. Você é muito corajoso.
- Talvez... sabe... você gostaria de me conhecer?, perguntou.

Ele sugeriu um restaurante na Harvard Square e combinamos de tomar um café da manhã dali a alguns dias.

Senti-me um pouco paranóico a caminho do encontro, sem saber o que esperar. Nós não dissemos qual era nossa aparência, e eu ainda me perguntava se haveria uma câmera para tirar fotos minhas para um possível processo de pensão alimentícia. É claro que talvez ele fosse apenas um garoto querendo conhecer seu pai biológico.

Em frente ao restaurante, passei por um adolescente alto, encostado num poste. Pensei que deveria dizer seu nome para ver se era ele, mas uma parte de mim precisava esperar mais um pouco, para recuperar o fôlego e ter uma perspectiva.

Lá dentro, olhei ao redor, mas ninguém fez contato visual; todos pareciam ocupados com outra pessoa. Voltei para fora, me aproximei do adolescente e disse seu nome.

- Sim, ele respondeu.
- Anthony, eu disse. Olá.

Eu me inclinei para ele, pensando que devia abraçar meu filho, e nos abraçamos. Surpreso com sua altura (eu tenho só 1,72 m), perguntei-lhe quanto media.

- Um e oitenta e sete, ele disse.

Com sua barba rala e feições morenas, ele parecia um pouco judeu-russo, mas também pude ver uma parte de mim nele, um toque de irlandês em sua pele luminosa e avermelhada. Eu tinha a mesma barba rala na idade dele -hoje um cavanhaque.

A única mesa vaga ficava junto à porta, no meio do barulho e da confusão.
Uma jovem garçonete com sotaque suave (português, eu acho) rapidamente nos trouxe xícaras de café. Indo direto ao assunto, ele disse:

- Posso lhe fazer algumas perguntas?
- É claro.
- Você conhece muitos casais de lésbicas? E então: Por que você doou?
- As pessoas queriam ter filhos, eu disse. Eu estava disponível na época.

Dei um gole de café, e então expliquei melhor, pois era o que ele parecia querer.

- Uma ex-namorada minha me ligou e disse que uma enfermeira amiga dela estava procurando um doador para sua clínica. Eu pensei no caso e até procurei uma conselheira. Ela me disse para aceitar e pensar nisso como compartilhar a luz.

A garçonete aproximou-se para tomar os pedidos. Eu quis uma omelete de legumes com centeio integral. Ele, panqueca com morango e creme. Típica comida de criança, pensei.

Quando a garçonete se afastou, ele perguntou se havia algum problema médico na minha família.

- Nada em especial. Exceto uma tendência a acidentes da minha parte, respondi.

Contei-lhe sobre meus acidentes mais glamorosos quando eu tinha mais ou menos sua idade: tombos e ossos quebrados, porque praticava pára-quedismo e asa-delta. O que não mencionei foi um acidente que tive pouco antes de começar a doar esperma.

Estava pintando uma casa com um amigo quando uma plataforma desabou, esmagando minha perna direita. Levei alguns anos para aprender a andar de novo, e nessa época doei esperma porque precisava de dinheiro. Não que fosse muito: US$ 40 por visita. Provavelmente doei 30 a 40 vezes em cerca de dois anos.

Assim que deixamos o restaurante, o celular dele tocou: era a mãe do rapaz, perguntando onde ele estava. Respondeu dizendo que chegaria em casa dali a uma hora. Depois que desligou, eu perguntei:

- Você contou para suas mães que íamos nos encontrar?

Ele balançou a cabeça negativamente.

- Apenas me deu vontade.

Ao sair do restaurante, desejei que eu fosse mais alto e tivesse um passo mais firme. Ele parecia tão atlético e eu queria estar em pé de igualdade, talvez passar a imagem de uma pessoa que seria seu companheiro enquanto ele passava pela adolescência.

- Vamos por aqui, sugeri, apontando para Boston. Mas quando percebi que não tínhamos um destino definido comecei a me sentir desconfortável.

- Você quer ir a algum lugar?, perguntei.
- Não, ele disse.

Em nossa primeira caminhada juntos, pensei que, como seu pai biológico, eu deveria saber aonde ir, e enquanto andávamos continuei esperando alguma dica intuitiva sobre qual seria a direção certa. Era difícil ser um pai instantâneo.

Pensei que deveria agir de uma maneira que ele aprovasse, uma maneira que mostrasse que eu era um pai capaz e confiável, apesar de nunca ter sido.
O tempo que passamos juntos foi bom, mas confuso e emocionalmente difícil; minha perna direita começou a doer. Por isso, quando demos a volta e chegamos a sua bicicleta, fiquei aliviado por aquilo estar terminando.

- Você gostaria de me encontrar de novo?, perguntei. Foi ótimo.
- Sim. Poderíamos fazer alguma coisa juntos da próxima vez? Uma atividade.
- Claro, eu disse. De que tipo?
- Não sei. Estou aberto.
- Que tal um filme?, me decepcionei com minha falta de imaginação.
- Qual?

Minha mente estava em branco. Um pai adequado não deveria saber de vários filmes em cartaz? "Eu ligo para você", falei afinal.

Enquanto ele se afastava pedalando, senti-me cansado e confuso. Passei pela Harvard Coop e vi um livro na vitrine intitulado 'Tire um Cochilo! Mude sua Vida'. Quando entrei no carro, foi exatamente o que fiz.

Em nosso segundo encontro levamos fotos. Quando criança, ele definitivamente parecia mais com alguém da minha família. Nos últimos 17 anos algumas vezes eu pensei nesses meus possíveis filhos: quem eram, quantos, onde, especialmente porque a enfermeira do centro de doação disse que minhas receptoras tiveram inseminações positivas. Senti alívio por finalmente ter conhecido um dos meus rebentos.

Minha última conexão com ele foi em janeiro, antes de sua volta para o colégio na Califórnia. Nos encontramos em frente a uma das mais antigas capelas de Cambridge, a Christ Church. Enquanto ele trancava a bicicleta, percebi pela primeira vez o endereço: Zero Garden Street. Achei estranhamente adequado. Eu estava mais consciente que nunca de que não o havia criado como meu filho e ele não me considerava seu pai. No ponto zero poderíamos pelo menos adaptar nossas expectativas sociais a essa falta de história.

Decidimos jogar boliche -idéia dele- e no caminho puxei minha carteira e lhe dei US$ 40, que era todo o dinheiro que tinha ali. Ele ficou embaraçado com minha tentativa desajeitada de presenteá-lo, mas aceitou depois de eu insistir.

Não sei por que pensei em lhe dar dinheiro naquele dia, especialmente de uma maneira tão estranha e insuficiente, mas alguns dias depois, quando contei a história do meu encontro para um amigo, lembrei que US$ 40 era a quantia que me pagavam em cada visita ao banco de esperma. Eu já me sentia acanhado porque meu gesto havia parecido um pouco comercial demais, apressado, inepto e definitivamente barato. Talvez uma parte de mim quisesse tirar os negócios do caminho. Devolver o que me pagaram pela minha participação nele. Começar do zero. Mas US$ 40? O que ele deve ter pensado? Espero descobrir quando ele voltar no verão.

Isto é, se quiser me encontrar de novo. Fazer contato parecia um grande passo para ele, e talvez tudo o que quisesse fosse saciar sua curiosidade.

Mas também foi bom para minha curiosidade e para mim em geral nessa altura da minha vida. Mais tarde liguei para o centro de doação para aprovar qualquer futuro contato com outros filhos.

Pouco mais de uma semana depois desse telefonema, cheguei em casa e ouvi na secretária a voz de uma garota que se apresentou e disse, parecendo nervosa:

- Ãh... estou ligando para você... e... gostaria de conversar com você sobre ser meu doador, acho que vou tentar de novo mais tarde. Tchau.

*Thomas Anthony Donahoe é terapeuta familiar em West Roxbury, Massachusetts Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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