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30/07/2007

O Ford que inaugurou a 'era da Velocidade' faz 75 anos

The New York Times
De Don Sherman

Em Dearborn, Michigan
A 'era da Velocidade' completa 75 anos agora, em 2007, juntamente com o automóvel apelidado de Little Deuce Coup, que a criou, democratizando os cavalos-vapor (HPs) e fornecendo a matéria-prima a partir da qual incontáveis veículos possantes seriam moldados. Três décadas antes do apogeu dos carros poderosos, Henry Ford inventou sem querer o carro de corridas ao instalar um motor V-8 de 65 cavalos em um chassi leve e atraente. O veículo pioneiro custava US$ 460 no seu modelo mais básico, um conversível de duas portas, apenas US$ 50 a mais do que o mesmo carro movido por um motor de quatro cilindros. Ford acreditou que, mesmo em meio à Grande Depressão, o veículo seria acessível para a classe trabalhadora.

Mas o carro, que atualmente é visto como um ícone do século 20 e um dos modelos mais significantes da indústria automobilística, não foi um sucesso financeiro. Seis milhões de norte-americanos se aglomeraram nas revendedoras no dia em que foi anunciado o novo automóvel, mas após o período inicial de encomendas, a dura realidade prevaleceu: a maioria dos norte-americanos não tinha dinheiro sequer para o almoço, o que dizer para as prestações de um carro, de forma que as vendas do Ford 1932 só chegaram à metade daquelas registradas no ano anterior.

Durante dez meses de produção, foram fabricados 178.749 automóveis Ford Modelo 18 V-8, bem como 75 mil unidades do Modelo B, que tinha o mesmo chassi, mas um motor de quatro cilindros. Ambas as versões do Ford 32, cada uma oferecida em 14 estilos de carroceria, foram agregadas sob um mesmo rótulo: o Deuce.

Após a Segunda Guerra Mundial, os militares que retornavam dos campos de batalha descobriram que os Deuces eram carros usados baratos e abundantes, que o motor V-8 'cabeça chata' podia ser facilmente modificado para produzir mais HPs, e que o design simples possibilitava modificações. Os carros potentes criados a partir desta combinação tornaram o Deuce o supra-sumo dos automóveis envenenados produzidos em casa.

"O Deuce conquistou a admiração dos fãs dos carros potentes por ter sido o primeiro automóvel ao mesmo tempo acessível e originalmente rápido", diz Pete Chapouris, fã dos carros envenenados há 50 anos e presidente do grupo de carros velozes SoCal Speed Shop, em Pomona, na Califórnia.

Para testar os sinais vitais do seminal Deuce, quando este faz 75 anos, eu dirigi um Ford 1932 V-8 DeLuxe Roadster original que pertence a Lynn Stringer, de Northville, Michigan.

Fabrizio Costantini/The New York Times
A alavanca de mudança alta sai direto do assoalho; a passagem de marchas é fácil, mas deve-se prestar atenção ao trajeto horizontal da mudança em forma de "H"; e, é claro, a dinâmica de direção é antiquada
Fabrizio Costantini/The New York Times
O 'Deuce': motor V-8 de 65 cavalos em um chassi leve e atraente
Fabrizio Costantini/The New York Times
O motor V-8 'cabeça chata' podia ser facilmente modificado para gerar mais HPs
Fabrizio Costantini/The New York Times
Com 80 mil quilômetros rodados, o Deuce acima deve valer US$ 125 mil
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O V8 visto de frente: a era da velocidade
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O test-drive
Circulando serenamente pelas estradas dos parques próximos à residência de Stringer, na região suburbana de Detroit, o Deuce enfrenta as armadilhas que atualmente são consideradas necessárias. O controle climático é obtido ao se abrir o pára-brisa a fim de expulsar o calor da cabine com uma brisa fresca. O entretenimento visual consiste em um céu sereno e em um show de nuvens refletidas na parte anterior do invólucro do farol. A trilha sonora é um murmúrio do V-8, tão discreto que a conversa com o meu acompanhante não é prejudicada. O Deuce de Stringer provocou tantos sorrisos e sinais de positivo com o polegar que eu me senti como um fuzileiro naval em uma parada militar no Memorial Day.

O Ford 32 foi a colaboração mais frutífera entre Henry Ford, o industrialista caseiro que colocou o mundo sobre rodas, e o seu filho, Edsel, que foi presidente da Ford Motor Company de 1919 até a sua morte em 1943.

Ao final da década de 1920, a Chevrolet havia ultrapassado a Ford, cujo Modelo T demorava muito a ser vendido. A Chevrolet respondeu ao novo Modelo A da Ford, de 1928, introduzindo um modelo 'seis cilindros pelo preço de quatro' no ano seguinte. O V-8 de 1932 foi um contragolpe: ele custava apenas US$ 15 a mais do que o Chevrolet de seis cilindros, e US$ 35 a menos do que o Plymouth de quatro cilindros.

Inimigos comuns e amigos do 'lado escuro'
O outro inimigo de Henry Ford foi a Grande Depressão, que levou a cidade de Detroit à falência, deixando a metade da força de trabalho local desempregada e reduzindo a produção de carros a 15% da sua capacidade. Ele esperava que um Ford novo e empolgante pudesse atrair aquele dinheiro guardado debaixo do colchão, fazendo com que o país saísse do buraco econômico.

Edsel Ford dedicou-se ao design do projeto. O filho de Henry, mais urbano do que o pai, pegou emprestado toques visuais da divisão de luxo da companhia a fim de fazer com que o 32 se parecesse com um baby Lincoln. Uma caixa de radiador aerodinâmica, pára-choques estriados e acabamentos brilhantes deram ao novo modelo um toque de excelência.

Embora os V-8 estivessem disponíveis em vários modelos de luxo, nunca um motor do gênero fora oferecido em um carro projetado para a classe trabalhadora. Henry saboreou o desafio de inventar um V-8 para as massas. Ele integrou diversos componentes em um único bloco de motor a fim de eliminar etapas do processo de fabricação. Sistemas simplificados de combustível, lubrificação e ignição também reduziram os custos.

Mas o lançamento apressado do V-8 no mercado acabou sendo um erro. O carro apresentava defeitos no motor atribuídos a pistões frágeis, arrefecimento inadequado e lubrificação deficiente. Porém, assim que esses defeitos foram corrigidos, os consumidores se deliciaram com a velocidade do Deuce.

Cartas de elogio vieram até do 'lado escuro' da sociedade. Clyde Barrow (um dos integrantes da dupla criminosa Bonnie and Clyde) escreveu: "Com velocidade constante e ausência de problemas, a Ford superou todos os outros carros". Uma carta dirigida à Ford com a assinatura de John Dillinger (famoso ladrão de bancos dos EUA na década de 1930), de autenticidade duvidosa, dizia: "Sou capaz de fazer qualquer outro carro comer a poeira do Ford".

Os amantes dos carros potentes logo descobriram que os 65 HPs e uma velocidade máxima de 120 quilômetros por hora eram apenas o início para o V-8. Em leitos de lagos secos, corredores na Califórnia atingiram velocidades de quase 210 quilômetros por hora antes da Segunda Guerra Mundial. O V-8 'cabeça chata' era também o motor preferido nas pistas retas e ovais.

Stringer aderiu ao movimento em 1955, quando era um adolescente de Steubenville, em Ohio. "Comecei comprando uma revista automobilística contendo fotos e artigos sobre o Ford 32", conta ele. "Quando era aluno da Universidade Purdue, dirigi um calhambeque envenenado feito com a conjugação de uma carroceria de Ford Modelo A, um chassi de um Ford 32 e um motor Chevrolet V-8. Finalmente comprei o meu primeiro Deuce, um cupê de cinco janelas, em 1959".

Stringer ingressou na Ford Motor Company em 1963, e passou a maior parte dos seus 35 anos na companhia trabalhando como engenheiro de caminhões. Em 1968, o seu gosto deslocou-se dos carros envenenados para os Deuces originais de fábrica. Desde então ele foi proprietário e restaurador de dezenas de modelos daquele automóvel.

"Os 32s sempre me atraíram devido às suas linhas e ao visual suave", diz Stringer.

Em 1978 ele comprou por US$ 7.000 o veículo que eu dirigi. Após um processo de reconstrução que durou oito anos, usando peças novas ainda disponíveis e tinta com a tonalidade do modelo original, este carro foi premiado em várias exposições de prestígio, incluindo algumas organizadas pelo Early Ford V-8 Club of America. Com menos de 80 mil quilômetros rodados, dos quais apenas 800 quilômetros referem-se ao período posterior à restauração, este carro é a coisa mais próxima possível de um Ford 32 recém-fabricado. Stringer calcula que o seu Deuce valha US$ 125 mil.

Contrastando com a maioria dos carros antigos, nenhum ruído desagradável é emitido pelo motor V-8, que pega rapidamente e responde satisfatoriamente ao acelerador. A alavanca de mudança alta sai direto do assoalho, não possuindo nenhum envoltório que prejudique o seu funcionamento. A passagem de marchas é fácil, contanto que se preste atenção ao amplo trajeto horizontal da mudança em forma de "H". Além disso, é recomendável que não se tente passar apressadamente as marchas.

É claro que a dinâmica de direção é antiquada. O volante ou é pesado (durante as manobras de estacionamento) ou necessita de constantes correções (para compensar a folga enquanto se dirige em velocidade normal). Os freios roncam em baixa velocidade e carecem do poder de parada para que se dirija em auto-estradas. As saliências nas estradas provocam uma cacofonia de guinchos e chacoalhadas apesar do amplo isolamento de borracha acrescentado ao modelo de 1932. A suspensão rudimentar reage às grandes sacudidelas com vários movimentos cíclicos de mola.

Quando espicaçado por uma rápida pisada no acelerador, o Deuce reage rapidamente e a velocidade aumenta. A aceleração deste V-8 é modesta para os padrões atuais, mas para os da década de 1930 ela provavelmente rivalizava em popularidade com a elevação das barras das saias das mulheres, as viagens de avião e o fim da Lei Seca. A impulsão da primeira marcha faz com que o carro chegue a 40 quilômetros por hora, e a segunda a 64 quilômetros por hora. Aos 75 anos de idade, o Deuce é ainda um deleite para o motorista.

Várias centenas de Fords 1932 deverão se dirigir para Dearborn, no Michigan, de 9 a 12 de agosto, para a comemoração do 75° aniversário do Deuce. As informações sobre o evento estão disponíveis no site www.deuce75.com#uolcelular{clear:both;margin:1.5em 0 0 0;font-size:.8em}#uolcelular h3{background:#efefef;color:#000;font:bold 1.1em arial;padding:3px;height:12px;display:block;margin:0;padding-left:1em}#uolcelular #borda{height:3em;border:1px solid #efefef;color:000;font:normal 13px arial;background:url(http://img.uol.com.br/wap-ico.gif) 1em .4em no-repeat;padding:0;padding-top:1.1px}#uolcelular #borda #txtCel{margin:.2em 0 1em 4em;*margin-bottom:1em}#uolcelular #borda #txtCel a{color:#666;text-decoration:none}#uolcelular #borda #txtCel a:hover{text-decoration:underline}#uolcelular #borda #txtCel a strong{color:#000}

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