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01/08/2007

Chelsea Clinton poderá ser "primeira filha" pela segunda vez

The New York Times
Jodi Kantor*
Pergunte se Chelsea Clinton lembra mais o pai ou a mãe, e os amigos se concentram nas similaridades entre mãe e filha. Ela tem o hábito de se precaver contra perguntas fazendo ela própria várias perguntas antecipadamente. O interesse entusiasmado pelo sistema de saúde. A tendência de soar um pouco teatral quando fala sobre política, mesmo reservadamente. A forma como ambas valeram-se de contatos familiares para estabelecer carreiras pós-Casa Branca, e como, apesar disso, acabaram conquistando os colegas céticos devido à diligência e ao entusiasmo.

E se a sua mãe, a senadora Hillary Rodham Clinton, conseguir tornar-se a primeira mulher presidente dos Estados Unidos, Chelsea Clinton poderá ver-se em uma posição histórica e estonteante: ela poderá ser a "primeira filha" do país pela segunda vez.

Michelle V. Agins/The New York Times 
Chelsea, entre Hillary e Bill Clinton, durante cerimônia em Nova York em janeiro de 2001

Chelsea certamente traz experiência para essa função. Aos 12 anos de idade ela apareceu no vídeo de Bill Clinton, "Man From Hope" ("O Homem da Esperança"), falando sobre as virtudes paternas do ex-presidente (Clinton também falou aos telespectadores a respeito da reação da sua filha, que o perdoou após ele ter confessado as suas transgressões conjugais). Durante o escândalo Monica Lewinsky, seis anos mais tarde, ela foi fotografada de mãos dadas com os pais, parecendo mantê-los unidos.

Quando Hillary disputou pela primeira vez uma vaga no Senado, a sua filha de 20 anos cruzou o Estado de Nova York de cima para baixo ao lado da candidata. Agora, aos 27 anos, Chelsea ainda está ajudando os pais, acompanhando-os nas suas viagens (recentemente a Aspen, no Colorado, à Alemanha e a Israel), arrecadando verbas (ela ajudou a arrecadar mais de US$ 20 milhões para a fundação do seu pai no último outono) e desempenhando uma versão mais glamourosa do papel de toda uma vida: o da filha modelo.

"Isso é o 'The Truman Show'", diz Jill Kargman, uma amiga de Chelsea Clinton, citando o filme sobre um personagem cuja vida inteira é um programa de reality television (um programa de televisão apoiado na vida real).

Mas, como Truman, que acaba se libertando, Chelsea agora tem a sua própria vida: um emprego em um fundo de hedge, um namorado sério, um círculo de amigos próximos e um lugar permanente no circuito de festas de Nova York.

Ultimamente, Chelsea tem sido capaz de desfrutar a sua celebridade e também de controlá-la, gozando dos benefícios, mas enfrentando poucos dos problemas que costumavam afligí-la, como as piadas sobre a sua aparência, e as especulações dos tablóides a respeito de um casamento cancelado e de uma lua-de-mel secreta. Ela conta com um publicitário, mas principalmente para defender-se da publicidade. Ela e os seus pais recusaram os pedidos de entrevista para este artigo, assim como fizeram incontáveis vezes quando solicitados a falar sobre tal assunto.

Agora Chelsea precisa decidir se vai abrir mão de parte da sua privacidade para ajudar a mãe, que tenta ser escolhida para disputar a presidência pelo Partido Democrata. Até o momento, Chelsea é mais uma personagem do que uma presença na campanha. Ela procura retratar a senadora Clinton como uma força poderosa, mas protetora, uma amiga das mulheres e das crianças e um símbolo de progresso de uma geração para outra. Os eleitores ouvem histórias sobre os enfeites de natal da infância de Chelsea Clinton, da sua predileção pelo livro "Goodnight Moon" e até sobre o seu berço. O vídeo de campanha que é uma paródia de "Sopranos" inclui uma piada sobre estacionamento paralelo que a compara a Meadow, a filha leal da família da televisão.

Os estrategistas de campanha não dizem quando - ou se - Chelsea aparecerá no circuito eleitoral. "Ainda que o presidente e a senadora Clinton sejam figuras públicas, a filha deles não é", afirma o porta-voz da campanha, Howard Wolfson. "Embora Chelsea Clinton tenha participado dos eventos para a sua mãe e apóie os pais nos seus projetos políticos e filantrópicos, ela continuará a se concentrar nos seus próprios interesses profissionais e pessoais como pessoa de vida privada".

Aqueles que têm familiaridade com os Clinton vêem Chelsea Clinton como um recurso estratégico, e não como uma voz sempre presente. "Ela vai falar a respeito do que sabe, ou seja, da sua mãe", diz Donna E. Shalala, a ex-integrante do gabinete Clinton que acompanhou Chelsea na viagem às Olimpíadas em 2000. John A. Catsimatidis, empresário e apoiador leal de Hillary, que diz que viu Chelsea em um número enorme de eventos para arrecadação de verbas, concorda. "Ela é uma garota muito talentosa, muito inteligente", diz ele. "E as pessoas preferem ver uma integrante da família Clinton do que um representante em um evento desse tipo".

Chelsea começou a universidade interessada em medicina, o que a teria afastado dos pais, já que teria pela frente longos anos de treinamento em hospitais. Em vez disso, após ter se formado com menções honrosas pela Universidade Stanford em junho de 2001, ela se matriculou na Universidade Oxford, que o seu pai freqüentou como bolsista da Rhodes. Ela chegou logo após o 11 de setembro de 2001, e logo se juntou a outros norte-americanos traumatizados devido aos ataques. Três décadas antes, Bill Clinton e os seus amigos de Oxford avaliavam o papel dos Estados Unidos no Vietnã. O grupo de Chelsea avaliou o que o 11 de setembro significa para a sua geração.

Chelsea compartilhou a sua resposta em um ensaio sincero publicado alguns meses depois na revista "Talk": "Para a maioria dos jovens norte-americanos que eu conheço, 'servir', no sentido mais amplo da palavra, parece ser neste momento a única coisa a fazer", escreveu ela. "Será que agora as operações bancárias é que são importantes?". As suas palavras lembravam aquelas proferidas pela jovem Hillary Clinton, que, como os seus diretores de campanha lembram freqüentemente aos eleitores, optou por defender a infância em vez de tomar o partido das grandes corporações após se formar em direito.

Mas, depois de Oxford, Chelsea Clinton ingressou na McKinsey, uma empresa de consultoria conhecida como a escola de treinamento da elite empresarial. Ela era a mais nova da sua turma, contratada para ocupar o mesmo nível daqueles que tinham diplomas de MBA. A sua entrevista soou mais como uma conversa, diz D. Ronald Daniel, um funcionário da firma. "É por isso que ela é uma boa consultora. Porque somos fazedores de perguntas profissionais e também ouvintes profissionais".

Como os clientes muitas vezes preferem que a McKinsey permaneça invisível, o trabalho era discreto, permitindo que Chelsea e os seus colegas fingissem que ela fosse apenas mais uma recém-formada.
"Quando Chelsea estava em festas conosco, ela era uma integrante do grupo", conta Gautam Mukunda, cujo escritório ficava a algumas portas do de Chelsea. "Com base no que sei sobre o pai dela, ele nunca esteve em uma sala na qual não fosse o centro das atenções, algo que começou antes de tornar-se presidente. Chelsea tem uma capacidade profunda e admirável de desviar-se do foco das atenções".

No outono passado, Chelsea deixou a McKinsey e assumiu o cargo de analista de investimentos no Avenue Capital, um fundo de hedge administrado por Marc Lasry, um doador leal para as causas democratas em geral, e especificamente para as dos Clinton. A companhia investe os seus US$ 18 bilhões na dívida de empresas que enfrentam problemas.
Os amigos dizem que a independência financeira é importante para Chelsea. Ela pode melhorar o salário anual de seis dígitos que recebia na McKinsey em centenas de milhares de dólares na Avenue devido aos bônus potenciais.

Colegas da McKinsey e da Avenue Capital fazem um relato uniforme sobre Chelsea, afirmando que ela chegava cedo, saía tarde, fazia avaliações sensatas e não solicitava favores especiais. No mês passado, em um show beneficente para a Escola Americana de Balé, de cuja diretoria faz parte, Chelsea parecia estar trabalhando arduamente enquanto os outros participantes se divertiam. A maior parte das mulheres da sua idade usava vestidos reluzentes que exibiam a pele nua, mas Chelsea usava um colete escuro e trazia os cabelos penteados e amarrados para trás. Ela saiu antes do término da apresentação, dizendo aos amigos que precisava retornar ao seu computador.

O balé é a principal tarefa cívica de Chelsea - ela praticou balé por anos a fio - e é uma escolha impecável: chique mas discreta no que diz respeito ao "fator paparazzi", apolítica mas, que evoca uma das mais famosas patrocinadoras do balé de Nova York, Jacqueline Kennedy. Nos comitês beneficentes, diz Kargman, Chelsea é uma presença pragmática, tendo recentemente ajudado a ganhar uma argumentação no sentido de manter o preço das entradas para um evento em US$ 75.

Muitas entrevistas com os amigos de Chelsea seguem o mesmo padrão: pedidos para não ser identificada no artigo, seguidos pelas menções ternas a Hillary, e depois por momentos de ansiedade devido à possibilidade de que a mãe venha a descobrir os elogios feitos pela filha. Mesmo assim, em mais de uma dúzia de entrevistas, o que emergiu foi um retrato consensual de uma mulher sincera e séria, que, conscientemente ou não, adquiriu uns poucos hábitos típicos dos políticos.

Freqüentemente adotando posições similares àquelas dos seus pais, Chelsea discute mais políticas públicas do que política partidária, e exibe estatísticas com facilidade - o número de não segurados nesta categoria, o custo para se expandir a cobertura nesta outra - para apoiar os seus argumentos.

Chelsea parece estar bastante consciente de que os outros estão sempre a observando. Colegas de sala de aula em Stanford perceberam que ela sempre usava maquiagem completa, como se esperasse ser fotografada a qualquer momento. Nos jantares de festas e casamentos, ela parece temer aparelhos de escuta e intrometidos.

Mas quando Chelsea é apresentada, ela freqüentemente age como uma estudante curiosa. Daniela Amini, uma amiga, recentemente a viu participar de uma mesa de jantar cheia de desconhecidos fazendo perguntas bem informadas sobre assuntos como história iraniana, carpetes antigos e literatura russa.

Leslie H. Gelb, presidente emérito do Conselho de Relações Exteriores, observou a forma proposital como Chelsea navega pelo circuito de festas e coquetéis. "Ela tem plena consciência de que pode valer uma semana de manchetes ou um mês de boatos", diz Gelb.

Chelsea também parece paciente com desconhecidos que se insinuam constantemente no seu cotidiano. "Mais do que qualquer ator, ela poderia mostrar-se antipática", diz Kargman, que recentemente tentou manter uma conversa com Chelsea, enquanto um fã atrás do outro interrompia a conversa para falar sobre os pais dela.

Durante a disputa da sua mãe pelo Senado em 2000, Chelsea abordou os eleitores "como um pato faz com a água", diz William Dal Col, que administrou a campanha de Rick A. Lazio, o oponente republicano. Mesmo assim, ela se esquivou de entrevista e de pedidos para falar em público.
Em "The Girls in the Van" ("As Garotas na Van"), o livro sobre a cobertura da campanha para a "Associated Press", Beth J. Harpaz descreveu como, em um evento em um asilo para idosos, um moderador pediu a Chelsea que deixasse a platéia ouvir a sua voz. Ela disse uma única palavra - "hello" - e a seguir afastou-se do microfone, sem sequer dizer algo como "estou feliz em estar aqui".

Desde então, Chelsea tornou-se uma oradora mais segura, tendo aparecido em um evento beneficente de balé e em uma cerimônia da ONU. Ela raramente diz algo de surpreendente. E nem precisa fazê-lo. As pessoas mostram-se encantadas por apenas ver os lábios dela se moverem e ouvir o som da sua voz emergir. Em 2004, Chelsea juntou-se a uma investida eleitoral de última hora na Flórida, fazendo campanha com outras filhas de democratas e usando chavões como: "Eu sabia que tinha que estar aqui hoje porque o que está em jogo é muito alto".

Chelsea tornou-se uma participante ativa nas atividades da família. No outono passado, ela foi vice-coordenadora de uma semana de arrecadação de verbas para a fundação do seu pai, um evento visto como uma comemoração atrasada pelo aniversário de 60 anos do ex-presidente. "A participação no evento ajudaria o trabalho que ele tem feito durante toda a sua vida - resolver problemas, ajudar as pessoas e até salvar vidas", disse ela aos possíveis doadores, pedindo contribuições na casa de cinco e seis dígitos.

Terry McAuliffe, também vice-coordenador, enfatizou o papel desempenhado por Chelsea em uma entrevista concedida na ocasião: "Ela e eu estamos envolvidas desde o primeiro dia", declarou ele a um repórter do "New York Times".

Os amigos de Chelsea dizem que ela é dedicada à mãe e à sua candidatura presidencial, embora não goste muito da loucura típica da campanha. Vanessa Kerry, cujo pai perdeu a eleição de 2004, explicou o doloroso dilema que um filho adulto de um candidato enfrenta: ficar distante da campanha e manter a normalidade, ou apoiar o pai que ama pagando o preço de perder a privacidade.

Kerry ainda sente-se machucada pelo escrutínio de que foi alvo, os falsos boatos - um deles envolvendo uma paquera com o ator Ben Affleck -, os ataques ao seu pai, o senador John Kerry, o democrata por Massachusetts. "A minha pele nunca ficou calosa", conta Kerry.
Quanto a Clinton, que é um foco bem maior de fascínio público, ela diz: "Não posso fazer idéia daquilo pelo que ela está passando".

Chelsea, que nunca teve um irmão ou irmã com quem dividir as pressões sobre si, tem um parceiro cuja vida é um espelho estranho dela própria. Marc Mezvinsky, que trabalha para a Goldman Sachs em Nova York, também é filho de dois políticos, Marjori Margolies-Mezvinsky e Edward M. Mezvinsky, ambos ex-membros do Congresso. E Marc Mezvinsky sobreviveu à humilhação de um escândalo quando o seu pai admitiu a culpa de ter ludibriado dezenas de investidores, embolsando US$ 10 milhões.

O velho Mezvinsky é aquele tipo de pessoa que gosta de mencionar o nome de pessoas famosas. "Quando ele achou que isso iria ajudar, ligou e disse, 'Estou passando o final de semana com os Clinton'", conta Robert A. Zauzmer, o promotor do caso na Pensilvânia. Segundo documentos do tribunal, Mezvinsky se gabou junto aos seus alvos de uma amizade anterior entre o seu filho e Chelsea, e usou a conta bancária do filho para realizar transferências monetárias não detectadas. O Mezvinsky jovem, um ex-aluno de Stanford que usa óculos e mantém o cabelo bem penteado, conhecido pela sua confiança e pelo senso de humor, "não fazia idéia do que se passava", afirma Zauzmer.

Mezvinsky e o pai, cujo pena de prisão deverá terminar em novembro de 2008, não responderam a pedidos para que tecessem comentários.
Chelsea e Mezvinsky parecem sérios no que diz respeito a um futuro juntos, segundo amigos, alguns dos quais se perguntam se haverá um casamento na Casa Branca caso Hillary ganhe a eleição. O laço entre os dois é claro. Os amigos dizem que em festas e outros eventos os dois tratam-se com muito carinho e afeto. Chelsea participou recentemente de um jantar de sabá na casa dos pais da sua amiga Daniela Amini na esperança de aprender mais sobre o judaísmo, a religião de Mezvinsky. Chelsea é uma metodista tradicional.

Agora que ela cresceu "pelo menos não terá que morar na Casa Branca" caso a sua mãe torne-se presidente, diz Shalala. No entanto, Chelsea poderá simplesmente estar muito próxima aos pais, com as vidas muito entrelaçadas, para ficar longe deles.

Durante o governo do pai, Chelsea pôde participar - vestindo roupas clássicas de crianças - de algumas situações indubitavelmente típicas de adultos. Segundo as memórias da sua mãe, Chelsea estava presente quando o pai e os seus assessores discutiram como admitir o caso com Lewinsky perante a nação. Durante a maratona de negociações de paz entre israelenses e palestinos em Camp David em 2000, Chelsea ajudou a romper a tensão conversando com os membros da delegação durante os intervalos.

Dennis Ross, à época o principal negociador norte-americano, diz que "não era incomum" ver Chelsea e a mãe em reuniões durante o governo Clinton. As duas mulheres "eram capazes de atuar como excelentes caixas de ressonância para o presidente". Mais recentemente, a senadora Clinton disse que a filha é uma das suas "melhores assessoras", juntamente com o marido.

Caso a mãe torne-se presidente, o papel de Chelsea na Casa Branca, ou a ausência de tal papel, poderá constituir-se em uma pista quanto às suas ambições. Os amigos dizem que ela não está apressada e que Chelsea tem várias opções: Uma vida no mundo das finanças? A Fundação Clinton, que poderia passar de uma geração para outra? Ou será que a própria Chelsea disputaria um cargo político?

Este é um tópico que é motivo de grande especulação nos círculos próximos a ela. Quando Kargman ouviu Chelsea discursar pela primeira vez em um evento beneficente de balé, alguns anos atrás, ele se perguntou se não estaria vendo a futura primeira mulher presidente. "Ela vai seguir todo o percurso", pensou Kargman.

Para o público, Chelsea forneceu apenas a mais modesta das indicações de que tenha este tipo de impulso. No seu ensaio sobre o 11 de setembro, ela escreveu que sentia "uma nova urgência para desempenhar um papel no futuro dos Estados Unidos". Chelsea disse que não sabia para onde a vida a levaria, mas de uma coisa estava certa: "De alguma forma servirei o meu país", prometeu.

*Eric Konigsberg contribuiu para este artigo. UOL

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