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01/08/2007

Cineasta Michelangelo Antonioni morre aos 94 anos

The New York Times
Rick Lyman*
Michelangelo Antonioni, o diretor italiano cujos cânticos frios de alienação foram pedras fundamentais do cinema internacional nos anos 60, inspirando doses iguais de admiração, acusação e confusão, morreu na segunda-feira (30/07) em sua casa em Roma, informou a imprensa italiana na terça-feira. Ele tinha 94 anos. Ele morreu no mesmo dia que Ingmar Bergman, o cineasta sueco que morreu em sua casa na Suécia.

"Com Antonioni, não apenas perdemos um dos maiores diretores vivos, mas também um mestre do cinema moderno", disse o prefeito de Roma, Walter Veltroni. Seu gabinete disse estar planejando que o corpo de Antonioni seja velado na quarta-feira, informou a agência de notícias "Reuters".

AFP 
Michelangelo Antonioni dirigiu clássicos como "Blow Up" e "A Aventura"

Alto, cerebral e resolutamente sério, Antonioni remonta um tempo em meados do século passado em que ir ao cinema tinha uma finalidade intelectual, quando passagens propositadamente opacas em filmes reconhecidamente difíceis provocavam longas noites de discussão em cafés de calçada, e quando diretores da moda como Antonioni, Alain Resnais e Jean-Luc Godard eram seguidos à beira-mar em Cannes por cinéfilos empunhando câmeras e exigindo saber o que raios queriam dizer com seus mais recentes ultrajes.

Antonioni provavelmente é mais conhecido por "Blow-Up - Depois Daquele Beijo" ("Blow-Up"), um drama de 1966 situado em Londres sobre um fotógrafo de moda que passa a acreditar que uma foto que tirou de dois amantes em um parque público também mostra, escondida ao fundo, evidência de um assassinato. Mas sua verdadeira contribuição duradoura ao cinema está em sua trilogia anterior -"A Aventura" ("L'Avventura"), de 1959; "A Noite" ("La Notte"), de 1960; e "O Eclipse" ("L'Eclisse"), de 1962 - que explora a visão central atormentada do cineasta de que as pessoas se tornaram emocionalmente desconectadas umas das outras.

Esta visão de distanciamento das pessoas foi expressa perto do final de "A Noite", quando sua estrela Monica Vitti observa: "Toda vez que tento me comunicar com alguém, o amor desaparece".

Em uma geração de quebradores de regras, Antonioni foi um dos mais subversivos e venerados. Ele desafiou o público de cinema com um foco intenso em personagens intencionalmente vagos e um desdém por convenções padrões como trama, ritmo e clareza. Ele levantava questões e nunca as respondia, fazia seus personagens agirem de forma autodestrutiva e deixava de explicar porquê, e estendia suas tomadas por tanto tempo que os atores às vezes saíam do personagem.

Tudo fazia parte do plano do diretor. Como Antonioni explicou: "Os efeitos posteriores de uma cena de emoção, me ocorreu, também podem ter significado, tanto sobre o ator quanto sobre o avanço psicológico do personagem".

Antonioni também rompeu outras convenções. Muitos de seus cortes, durações de cena e movimentos de câmera eram altamente idiossincráticos e ele freqüentemente posava seus personagens de forma altamente formal. Ele usava enquadramentos de ponto de vista apenas raramente, uma prática que ajudava a erguer uma barreira emocional entre o público e seus personagens enigmáticos.

"O que é impressionante nos filmes de Antonioni não é o fato de serem bons", escreveu o estudioso de cinema Seymour Chatman. "Mas o fato de terem sido feitos".

Talvez o momento definidor da carreira de Antonioni tenha ocorrido na noite em que "A Aventura" foi exibido no Festival de Cinema de Cannes em 1960. Grande parte do público abandonou a sessão e ocorreram muitas vaias e apupos. O diretor e Monica Vitti acharam que suas carreiras tinham acabado.

Mas posteriormente naquela noite, Roberto Rossellini e um grupo de outros cineastas e críticos influentes esboçaram uma declaração que divulgaram na manhã seguinte. "Cientes da importância excepcional do filme de Michelangelo Antonioni, 'A Aventura', e estarrecidos pelas demonstrações de hostilidade que provocou, os críticos e membros da profissão abaixo assinados estão ansiosos em expressar sua admiração pelo realizador deste filme", escreveram.

Nascia uma das grandes lendas do cinema iconoclasta - o fato de ser vaiado em Cannes poder se tornar um emblema de honra.

"A Aventura" ganhou o Prêmio Especial do Júri do festival e se tornou um sucesso internacional de bilheteria, provocando um debate furioso. Alguns acharam o filme sem sentido; outros leram montes de significados em suas lânguidas situações difíceis. Antonioni ganhava reputação internacional.

No ano seguinte, a influente revista britânica de cinema "Sight and Sound" realizou uma pesquisa envolvendo 70 importantes críticos de todo o mundo e eles não apenas apoiaram "A Aventura", mas também o consideraram o segundo maior filme já feito, atrás apenas de "Cidadão Kane".

Após conquistar sua reputação no início dos anos 60, Antonioni surpreendeu a muitos ao tentar fazer filmes com o apoio de Hollywood. Mais surpreendente, talvez, tenha sido o fato de ter obtido assim seu maior sucesso comercial com "Blow-Up - Depois Daquele Beijo" em 1966.

"Meus assuntos são, de forma geral, autobiográficos", ele escreveu certa vez. "A história é inicialmente construída por meio de discussões com um colaborador. No caso de 'O Eclipse', as discussões levaram quatro meses. O roteiro foi então escrito, por mim mesmo, levando talvez 15 dias. Meus roteiros não são roteiros formais, mas sim diálogos para os atores e uma série de anotações para o diretor. Quando a filmagem tem início, há invariavelmente uma grande quantidade de mudanças. Quando eu chego ao set de uma cena, eu insisto em permanecer sozinho por pelo menos 20 minutos. Eu não tenho idéias preconcebidas de como a cena será feita, mas aguardo para que venham as idéias que me dirão como começar."

O mundo em um filme de Antonioni "é um mundo de pessoas alienadas umas das outras", escreveu Andrew Turner em seu livro "World Film Directors" (1968). "Suas ações não têm significado ou coerência, e mesmo a mais fundamental das emoções, o amor, parece insustentável."

Os entrevistadores descobriram que Antonioni era um entrevistado frio, combativo. "Mesmo quando está contando histórias sobre si mesmo, o rosto de Antonioni mantém sua expressão habitualmente séria", escreveu Melton S. Davis em um perfil de 1964 para "The New York Times Magazine". "Preciso nos modos, conservador no vestir e sereno ao falar, ele poderia ser considerado um banqueiro ou marchand de arte recontando um negócio fracassado."

Mas Antonioni também podia ser graciosamente encantador. Às vezes, disseram entrevistadores, os olhos verdes vivos do diretor se suavizavam e seus lábios se curvavam em um sorriso que alguns descreviam como irônico, outros, como frio.

Michelangelo Antonioni nasceu em 29 de setembro de 1912 em uma família abastada de proprietários de terras em Ferrara, no norte da Itália, uma cidade que descreveu como uma "cidadezinha maravilhosa na planície de Pádua, antiga e silenciosa". Por volta dos dez anos, lembrou sua família, Michelangelo começou a desenhar fantoches e a construir modelos de cenários para eles. Posteriormente, na adolescência, se tornou interessado em pintura a óleo, preferindo retratos a paisagens.

Ele freqüentou a Universidade de Bolonha e obteve um diploma de economia e comércio em 1935. Mas foi na universidade que ele também começou a escrever histórias e peças e a dirigir algumas delas. Ele foi o fundador da trupe teatral da universidade e um de seus principais campeões de tênis. Ele também escreveu críticas severas a filmes de gênero, tanto americanos quanto italianos para o jornal local, e decidiu experimentar dirigir um filme.

Antonioni queria fazer um documentário realista sobre um asilo de loucos local. Os pacientes o ajudaram a montar o equipamento. Então ele acendeu os fortes holofotes.

Os pacientes se descontrolaram, ele escreveu posteriormente, "e seus rostos - que antes estavam calmos, se tornaram convulsivos e devastados. E então foi nossa vez de ficarmos petrificados. O cameraman nem mesmo teve força para parar sua câmera, nem eu fui capaz de dar qualquer ordem. Foi o diretor do asilo que finalmente gritou 'Parem! Apaguem as luzes!' E na sala semi-escura nós podíamos ver uma enxurrada de corpos se retorcendo como se estivessem nos últimos espasmos da agonia da morte".

Antonioni decidiu abandonar o cinema.

Em 1940, aos 27 anos, ele se mudou para Roma para trabalhar como secretário do conde Vittori Cini. O emprego não durou muito. Ele trabalhou como caixa de banco e se juntou à equipe da revista "Cinema", editada por Vittorio, filho de Benito Mussolini. Durante este período, Antonioni deixou sua aversão a dirigir e fez um curso no Instituto de Cinema Experimental. Ele escreveu alguns roteiros, incluindo "Un Pilota Ritorna", em 1942, em colaboração com outro amigo diretor, Roberto Rossellini.

Em 1943, Antonioni voltou a Ferrara e encontrou um marchand local disposto a financiar seu primeiro filme, um documentário chamado "Gente del Po", sobre as vidas miseráveis dos pescadores locais. As forças de ocupação alemãs destruíram grande parte do filme, apesar de alguns pedaços terem sobrevivido e se tornado um curta-metragem de nove minutos que antecedeu "Quando Fala o Coração" de Alfred Hitchcock, no Festival de Cinema de Veneza, em 1947.
FILMES DE ANTONIONI
Arquivo
Monica Vitti em "A Aventura", que ganhou prêmio em Cannes
Divulgação
Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni em "A Noite"
Divulgação
"Deserto Vermelho" traz Monica Vitti novamente como protagonista
Divulgação
Jack Nicholson e Maria Schneider no filme "Profissão: Repórter"


Depois da guerra, Antonioni escreveu mais críticas de cinema e continuou fazendo documentários de curta-metragem, tudo isto enquanto se tornava cada vez mais cético em relação ao movimento neo-realista, que dominava o cinema italiano, e seu foco incansável nas condições sociais precárias. Ele ansiava por olhar além destas coisas, olhar dentro dos corações dos indivíduos. "Seus filmes eram sobre varredores de rua, não sobre varrição de rua", como colocou o crítico de cinema Robert Haller. Mas ninguém lhe permitia fazer os filmes que queria fazer.

"Por dez anos, os filmes me forçaram não a usar idéias, mas palavras vazias, esperteza, senso comercial, paciência, estratagemas", escreveu Antonioni em uma introdução a uma coleção de seus roteiros, de 1963. "Eu sou tão escassamente dotado de tais dons que me recordo de tal período como sendo o mais doloroso de minha vida."

Aos 38 anos, Antonioni encontrou apoio para seu projeto mais ambicioso, de ficção, "Crimes da Alma" ("Cronaca di un Amore"). Sobre um homem e uma mulher tramando matar o marido desta, ele provou ser o primeiro exemplo da abordagem de Antonioni. No filme, o marido morre, mas não se sabe se foi assassinado, cometeu suicídio ou morreu por acidente. Toda esta trama então desaparece e o filme passa a se concentrar nas emoções dos amantes.

Assim como em filmes posteriores de Antonioni, os cenários eram desoladores, as cenas compostas de forma exagerada, as tomadas durando um pouco mais que o necessário. O filme conquistou o Grande Prêmio Internacional do Festival de Punta del Este em 1951.

Em 1954, seu casamento de 12 anos com Letizia Balboni acabou. Ela contou posteriormente aos entrevistadores que o diretor tinha se tornado cada vez mais distante. "Nós vivíamos em silêncio", ela disse. "Nós chegamos ao ponto em que nos comunicávamos por meio dos personagens que ele criava e sobre os quais queria meu conselho. Ele só tem um meio de se expressar: seu trabalho. O que ele faz é com que seus atores vivam as crises emocionais em seus filmes, vivendo as crises de sua própria vida".

Antonioni mergulhou em profunda depressão. Sua insônia piorou. Ele freqüentemente passava as primeiras horas da madrugada escrevendo roteiros.

Em 1955, no auge de sua crise, Antonioni realizou seu primeiro triunfo artístico importante. "As Amigas" ("Le Amiche") era sobre vidas mundanas, sem amor, de um grupo de mulheres de classe média em Turim. Ele conquistou um Leão de Prata no Festival de Cinema de Veneza.

Antonioni começou a experimentar mais com improviso no set de filmagem. "É apenas quando pressiono meu olho contra a câmera e começo a mover os atores que tenho uma idéia exata da cena", ele escreveu. Ele usou esta técnica extensamente em "O Grito" ("Il Grido"), em 1957, provavelmente o mais sinistro de seus filmes.

Foi enquanto filmava "O Grito" que Antonioni conheceu uma jovem atriz de teatro chamada Monica Vitti, que se tornaria sua maior e mais duradoura estrela, e sua companhia quase constante durante grande parte dos anos 60.

Por dois anos, Antonioni não conseguiu encontrar um produtor que o financiasse. Finalmente, em 1959, ele encontrou alguém e concluiu um roteiro que estava na sua cabeça há muito tempo. Mas "A Aventura" quase morreu antes de nascer. Cronicamente carente de recursos, seu produtor acabou abandonando o projeto enquanto Antonioni e os atores estavam trabalhando em uma ilha próxima da Sicília.

"Chegou ao ponto de não haver comida", lembrou Antonioni. "Uma equipe nos deixou. Nós conseguimos outra equipe e ela também partiu. Eu tinha 20 mil metros de filme e os atores permaneceram, de forma que coloquei a câmera no meu ombro e continuei filmando". No final, um novo produtor apareceu.

"A Aventura" provou ser o ponto de virada de sua carreira e amplamente considerada a obra-prima de Antonioni.

Como acontece na maioria dos filmes de Antonioni, ele se concentra nas vidas confortáveis, debilitadas, de italianos abastados, neste caso um grupo de amigos em uma viagem de iate. Sem aviso, durante uma visita a um atol, um deles, uma mulher emocionalmente perturbada chamada Anna, simplesmente desaparece. Ela teria se afogado porque seu amor, Sandro (Gabriele Ferzetti), parecia sem pressa para se casar com ela? Teria se atirado de um penhasco em um acesso de tédio? Teria sido engolida pelo tubarão que disse ter visto? Ou teria fugido em outro barco?

A pequena ilha é revistada. Chove. A polícia chega. Então, gradualmente, Sandro desenvolve uma atração pela melhor amiga de Anna, Claudia (Vitti). Ela resiste, então cede a ele. No final, eles esquecem totalmente Anna. A busca é abandonada. Sandro trai Claudia sem motivo aparente. Nós nunca descobrimos o que aconteceu com Anna.

Em "A Aventura", a técnica singular de Antonioni pode ser vista em sua plenitude. "O senso dominante de alienação transmitido por 'A Aventura' é tanto produto do estilo do filme quanto de seus eventos ou diálogos", escreveu Turner.

O diretor encontrou rapidamente financiamento para seus próximos dois filmes, que exploravam ainda mais os temas de alienação introduzidos em "A Aventura" e que ele disse posteriormente que deveriam ser vistos como uma trilogia.

Em "A Noite", Marcello Mastroianni interpreta um autor com bloqueio de escritor sofrendo em um casamento sem amor com Jeanne Moreau. Ele conhece uma jovem em uma festa, interpretada por Vitti, que ele acredita personificar a criatividade que o abandonou. O filme conquistou o Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim, em 1961.

"O Eclipse" tratava mais diretamente dos efeitos alienantes da riqueza material, acompanhando o caso amoroso de uma jovem mulher de gostos simples - Vitti de novo - e um corretor da Bolsa ávido por dinheiro (Alain Delon).

O final do filme é bastante discutido. Abandonando os personagens principais, o filme acaba com uma montagem de vários minutos de duração composta de 58 tomadas, a maioria delas em uma esquina ou perto dela onde os amantes costumavam se encontrar. Água verte de um barril. Os freios de um ônibus chiam. Uma fonte é desligada. Um avião sobrevoa acima. Finalmente, com a esquina escura e vazia, a câmera dá um zoom até a luz branca, aniquiladora, de uma iluminação de rua. Fim.

Antonioni disse que pretendia que o final mostrasse "o eclipse de todos os sentimentos" e o via como uma coda tanto para o filme quanto para toda a trilogia. Mas ele também queria que pessoas diferentes interpretassem sua obra de formas diferentes. "Pode haver significados, mas eles são diferentes para cada um de nós", ele disse a um entrevistador.

Em 1964, Antonioni fez seu primeiro filme colorido, "O Deserto Vermelho" ("Il Deserto Rosso"), com Richard Harris. Ele também era estrelado por Vitti, como uma mulher que se tornava cada vez mais perturbada. Para espelhar seu estado mental, o diretor usou a cor de formas bastante incomuns, fazendo com que as casas e mesmo as árvores fossem pintadas de cores vivas e então mudando estas cores de uma cena para outra.

Em meados dos anos 60, Antonioni era um dos diretores de cinema mais famosos e controversos do mundo; seus filmes eram exibidos regularmente no circuito mundial de festivais e o autor era tema de inúmeros ensaios e artigos de revista. Inevitavelmente, um estúdio de Hollywood, neste caso a MGM, o chamou. Nem tão inevitavelmente, Antonioni aceitou, assinando um contrato de três filmes.

"Blow-Up" foi seu primeiro esforço para o estúdio. Filmado em inglês, com os astros britânicos David Hemmings e Vanessa Redgrave no auge da cena fashion da Swinging London, "Blow-Up" se tornou o maior sucesso do diretor. Também era, estilisticamente, diferente de seus filmes anteriores, com uma trama mais convencional e andamento mais rápido, apesar de ainda fundamentalmente ambíguo.

Após seu sucesso comercial e de crítica, Antonioni viajou para os Estados Unidos para fazer seu primeiro filme de grande orçamento e escolheu o movimento de protesto estudantil como assunto. "Zabriskie Point" (1970) foi o resultado e foi um desastre.

Apesar de alguns críticos estrangeiros terem elogiado o filme, ele foi quase que universalmente atacado nos Estados Unidos. "Para muitos críticos, parecia que o diretor, que começou a década no controle absoluto de seu meio, a estivesse terminando em algo parecido com confusão total", escreveu Turner.

"Zabriskie Point" foi um fiasco de bilheteria para a MGM, um dos maiores fracassos financeiros da época. Antonioni ficou devastado e, de muitas formas, sua carreira nunca se recuperou. Certamente, seu período criativo mais fértil tinha acabado. Ele fez seis filmes nos anos 60, muitos deles considerados obras-primas, mas faria apenas mais três filmes no quarto de século que se seguiu.

Mas Antonioni reconquistou parte de seu respeito anterior junto aos críticos em 1975, com "Profissão: Repórter" ("The Passenger), estrelado por Jack Nicholson como um repórter no Norte da África que assume a identidade de um traficante de armas. O filme termina com a famosa tomada contínua de 10 minutos na qual Nicholson é visto em seu quarto de hotel, esperando para ser morto. A câmera se afasta do quarto e vagueia pelo pátio. Pessoas e objetos entram e saem da cena contínua até a câmera completar o círculo, entrando novamente no quarto de hotel para encontrar Nicholson morto. "'Profissão: Repórter' não deixa dúvida da maestria de Antonioni", escreveu o crítico de cinema David Thomson, que o chamou de "um dos grandes filmes dos anos 70".

Após "Profissão: Repórter", Antonioni anunciou que queria dedicar algum tempo para estudar novas tecnologias e passou cinco anos fazendo isto, até que Vitti pediu para que voltasse à direção com um filme para a televisão italiana em 1980, chamado "O Mistério de Oberwald" ("Il Mistero di Oberwald"). Rodado em vídeo e transferido para filme, ele era substancialmente mais leve que seus trabalhos anteriores. Isto, ele disse, lhe permitiu "escapar da dificuldade do compromisso moral e estético, do desejo obsessivo de se expressar". Ele recebeu uma fita de prata por efeitos visuais no Festival de Veneza em 1980, mas teve pouco impacto internacional.

Antonioni fez seu último filme comercial em 1982, "Identificação de uma Mulher" ("Identificazione di una donna"), sobre um homem que tem um caso com duas mulheres após a morte de sua esposa. Ele conquistou o Grande Prêmio do Festival de Cannes naquele ano.

Em 1985, enquanto trabalhava na adaptação cinematográfica de um conto que escreveu em 1976, Antonioni sofreu um derrame e o projeto foi colocado de lado. Ele se casou no ano seguinte pela segunda vez, com Enrica Fico, e viveram tranqüilamente em um apartamento em Roma. Ela estava ao lado dele quando morreu, informou a agência de notícias italiana "Ansa". Ele não teve filhos.

Após o derrame, Antonioni trabalhou em um documentário da televisão italiana sobre a Copa do Mundo de 1990, mas não trabalhou novamente no cinema até 1995, quando produtores italianos conseguiram lhe tirar da aposentadoria para fazer "Além das Nuvens" ("Al di là delle Nuvole"), baseado em um livro de seus contos. Mas devido à enfermidade de Antonioni, o diretor alemão Wim Wenders o ajudou e foi listado como seu co-diretor.

Desde o derrame, Antonioni tinha dificuldade de falar mais que poucas palavras de uma vez, de forma que grande parte do trabalho foi feito por sua esposa, Enrica, que interpretava energicamente as exigências do diretor. O filme foi estralado por Jeanne Moreau e Jeremy Irons. O ressurgimento de Antonioni levou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a lhe conceder um Oscar honorário pelo conjunto da obra em 1995.

Antonioni voltou a dirigir em seus 90 anos. Ele colaborou com Steven Soderbergh e Wong Kar-wai, o diretor de Hong Kong, em uma trilogia sobre amor e sexualidade chamada "Eros", que foi lançada em 2004. Ele também dirigiu um curta chamado "Lo Sguardo di Michelangelo". Para seus defensores, como David Thomson, "o fato do maior cineasta vivo do mundo ser incapaz de trabalhar é um tema adequado para uma de suas meditações".

Para Thomson, "os enigmas da obra de Antonioni estão sujeitos ao tempo da mesma forma que monumentos estão à erosão, e os feitos de alguns filmes podem compensar ou explicar os aparentes, ou iniciais, limites de outros. Por exemplo, 'Profissão: Repórter' nos ajudou a ver o anseio pela fuga e espaço em 'A Aventura' e ilumina a persistência da vida no final de 'O Eclipse'. Eu suspeito que os melhores filmes de Antonioni continuarão crescendo e mudando, como as dunas ao longo dos séculos no deserto. Neste processo, se restarem olhos para ver, ele se tornará um padrão para beleza".

Mas para outros Antonioni permanece não apenas enigmático, mas também inacessível no final.

Um entrevistador lhe pediu para olhar para trás para sua vida. "Em um mundo sem cinema, o que você teria feito?" lhe foi perguntado.

Antonioni respondeu: "Cinema".

* Christine Hauser e Graham Bowley contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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