UOL Notícias Internacional
 

01/08/2007

No Afeganistão, a televisão é o novo fenômeno de massas

The New York Times
Barry Bearak
Em Cabul
Há sete anos, durante um período muito diferente no Afeganistão, um estudante de medicina chamado Daoud Sediqi vinha de bicicleta do campus universitário quando foi parado pela truculenta polícia religiosa do Taleban. O jovem foi imediatamente tomado por uma sensação de terror, porque estava violando pelo menos duas leis.

Uma transgressão bastante óbvia era o comprimento do seu cabelo. Embora o governo do Taleban insistisse que os homens usassem barbas não aparadas, ele se opunha à falta de higiene e o estudante tinha deixado o cabelo crescer de forma emaranhada. A outra transgressão era mais séria. Se os policiais vasculhassem as suas posses, encontrariam um DVD com um filme de conteúdo pornográfico.

"Felizmente, eles não procuraram; a minha única punição foi ter a cabeça raspada devido à longa cabeleira", recorda Sediqi, que, agora, aos 26 anos, é um dos homens mais conhecidos do país, uma pessoa que surgiu de um novo manancial de fama - ele não é um chefe de milícia nem um mulá, mas uma celebridade da televisão, o apresentador do programa "Astro Afegão", o equivalente neste país de "American Idol".

Joao Silva/The New York Times - 26.jul.2007 
Televisão ligada em restaurante de Cabul, Afeganistão

Desde a queda do Taleban no final de 2001, o Afeganistão tem se desenvolvido de forma intermitente. Entre os fatos que não mudaram e que ainda tiram a tranqüilidade das pessoas estão a guerra contínua, líderes ineptos, policiais corruptos e condições de vida terríveis. Segundo as últimas pesquisas do governo, somente 43% das casas possuem janelas e telhados sem vazamentos, 31% contam com água potável e 7% têm vasos sanitários.

Mas a indústria televisiva está tendo um começo fenomenal no país, já que os afegãos andam atualmente entretidos - seja o fato positivo ou negativo - com aquela mesma atividade escapista que seduz o resto do mundo: novelas que mostram a luta entre os indivíduos insuportavelmente maliciosos e as pessoas inacreditavelmente virtuosas, chefes de cozinha preparando refeições que a maioria do povo jamais comerá em cozinhas que as pessoas nunca terão dinheiro para possuir, apresentadores de programas de entrevistas que expõe os segredos de pessoas muito desavergonhadas para deixar de falar sobre os seus problemas.

A última pesquisa de âmbito nacional, feita em 2005, revela que 19% dos lares afegãos contam com uma televisão, um número notável, considerando-se não só que a posse de televisores era considerada um crime durante o governo do Taleban, mas também que apenas 14% da população tem acesso à energia elétrica. Em um estudo realizado neste ano nas cinco províncias mais urbanizadas do país, dois terços das pessoas disseram que assistem à televisão todos os dias, ou quase todos os dias.

"Talvez o Afeganistão não seja tão diferente assim de outros lugares", diz Muhammad Qaseem Akhgar, um proeminente analista social e editor jornalístico. "As pessoas vêem televisão porque não há mais nada para se fazer".

Não há dúvida de que a leitura não chega a ser uma opção para o povo deste país; somente 28% da população é alfabetizada. "Onde mais a pessoa pode encontrar diversão?", questiona Akhgar.

Todas as noites, o povo em Cabul rende-se à tentação do horário nobre de TV da mesma forma que atende aos chamados para as orações. "Como você pode ver, há verdade na televisão, porque no mundo inteiro as sogras sempre provocam brigas", diz Muhammad Farid, um homem que está sentado em um restaurante barato ao lado da Mesquita Pul-i-Khishti, com a atenção focalizada em uma novela indiana que foi dublada para o idioma dari.

As mulheres, que devido às normas muçulmanas dificilmente podem sair de casa, assistem com mais freqüência aos seus programas favoritos de televisão em casa. Já os homens são livres para fazer em torno da televisão um ritual comunitário. Em diversos restaurantes, com os dedos destros mergulhados em pilhas de arroz fumegante, eles sentam-se de pernas cruzadas em banquetas acarpetadas, com os olhares fixos no aparelho de televisão instalado próximo ao teto. Profundas questões metafísicas surgem em meio à luz tênue: será que Prerna encontrará a felicidade com Bajaf, que, afinal de contas, não é o pai do seu filho?
"Esses são problemas que nos ensinam coisas sobre a vida", diz Sayed Agha, que vende verduras em um carrinho de mão durante o dia, e assiste aos melodramas televisivos à noite.

A programação não varia muito. Às 19h30, o aparelho é sintonizado na Tolo TV para que a população assista a "Prerna", uma novela conhecida pelo nome da sua protagonista principal. Às 20h, o canal é mudado para que se veja "O Ladrão de Bagdá". Às 21h, retorna-se à Tolo, para a guerra intra-familiar e extra-conjugal que se passa em "Tulsi", o apelido de um programa cujo título significa literalmente "Porque a Sogra Era Antes a Nora".

Cabul possui oito estações de televisão, incluindo uma operada precariamente pelo governo. "O horário de pico é das 18h às 21h, porque é neste período que a população liga os seus geradores para obter energia elétrica", diz Saad Mohseni, que administra a Tolo, o canal que domina o mercado na maior parte do país. "As pessoas adoram as novelas".

"Acabamos de adquirir os direitos para transmitir o programa norte-americano '24 Horas' ", diz ele. "Temos algumas preocupações. A maioria dos vilões é composta de muçulmanos, mas criamos grupos de análise de programação e descobrimos que a maior parte das pessoas não se importa com isso, contanto que os vilões não sejam afegãos".

Mohseni, um ex-banqueiro da área de investimentos, e os seus três irmãos fundaram a Tolo TV (Tolo significa "amanhecer" em dari) em 2004, com o auxílio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). Após terem passado a maior parte das suas vidas adultas na Austrália, os Mohseni retornaram à Cabul pós-Taleban buscando oportunidades de investimento e descobriram uma situação quase pré-histórica no setor televisivo, que estava no ponto para ser explorado. As pessoas podiam comprar televisores coloridos usados por US$ 75. Mas o que eles gostariam de ver? Os gostos afegãos não puderam se desenvolver durante décadas, tendo passado de Milton Berle para Johnny Carson, e daí para Bart Simpson.

Tudo seria novo em folha. "Deixamos-nos guiar por aquilo que gostávamos", conta Mohseni.

Na maioria das vezes, isso significou que a Tolo colheu todos os clichês do vasto universo da televisão internacional. Programas sobre crimes reais fizeram com que os afegãos fossem apresentados ao sensacionalismo dos seus próprios pederastas e assassinos em série. Os reality shows pegam pessoas normais nas ruas e as transformam por meio de roupas e penteados sofisticados. Programas de argüições recompensam os indivíduos cultos: quantos quilos de cogumelo o Afeganistão exportou no ano passado? Um participante que responde corretamente ganha um galão de óleo de cozinha.

Alguns programas estrangeiros, como aqueles que mostram desastres e perseguições policiais, são tão destituídos de diálogos que a Tolo pode transmití-los sem tradução. Outros formatos exigem apenas pequenas modificações.

Sediqi está prestes a dar início à terceira temporada de "Astro Afegão". Ele nunca viu "American Idol" e diz que jamais ouviu falar do seu congênere norte-americano, Ryan Seacrest. No entanto, ele é capaz de apresentar habilmente os vocalistas concorrentes e de convencer os telespectadores a votar nos seus favoritos pelo telefone celular.
Uma outra cópia é Khanda Bazaar, ou Laughter Bazaar, que se originou de "Astro Afegão", utilizando o mesmo processo de eliminação semanal de um dos participantes.

Comediantes contam as suas piadas e o júri escolhe os seus favoritos.
"Tenho que lhe dizer que estou me divertindo muito", afirma Sediqi, usando o seu inglês limitado. Ele é um dos vários astros jovens da Tolo cuja elegância é suficientemente exótica para parecer quase extraterrestre para um afegão comum. Homens mais velhos que preferem as novelas aos concursos de canto provavelmente gostariam de aplicar uma boa surra em Sediqi. "As pessoas no interior do país e nas mesquitas dizem que o programa está arruinando a nossa sociedade", admite Sediqi.

A Tolo atraiu uma grande audiência enquanto testava os limites de certos tabus. Zaid Mohseni, o irmão caçula de Saad, diz: "Quando colocamos pela primeira vez no ar um homem e uma mulher juntos, recebemos reclamações: isso é ilegal, não é islâmico, blá, blá, blá... Depois as críticas diminuíram. Não havia problema, contanto que o homem e a mulher não conversassem. Finalmente, a situação melhorou ainda mais. Não havia problema, contanto que eles não rissem".

Os limites são pressionados, mas não rompidos. Um programa de entrevistas ao vivo chamado "Mulher" é moderado pelo psiquiatra Muhammad Yasin Babrak. Embora as mulheres que telefonam sejam sinceras nas suas lamentações, o terapeuta limita-se a assumir um papel meio neutro, em vez de dar uma de conselheiro para as sexualmente frustradas. "Não falo sobre incesto ou homossexualismo", diz ele.

Vídeos musicais, importados principalmente da Índia, são transmitidos regularmente. Para não ferir as tradições afegãs, os braços e as barrigas nus das dançarinas são obscurecidos com uma faixa de camuflagem eletrônica esbranquiçada. Mas os eventos esportivos são, por algum motivo, considerados menos eróticos. Maria Sharapova foi mostrada jogando em Wimbledon com a pouca roupa característica das tenistas, e os braços inteiramente expostos.

Independentemente da censura, alguns observadores consideram a televisão um portal para a promiscuidade. "Quarenta milhões de pessoas estão vivendo com o HIV e a Aids, e a televisão está finalmente ajudando o Afeganistão a contribuir para o aumento desse número", afirma com sarcasmo o aiatolá Asif Mohseni.

Asif Mohseni é um ancião de barba branca, e embora não tenha parentesco com a família que controla a Tolo TV, ele, também, entrou no setor televisivo, criando uma estação mais voltada para a transmissão de cânticos islâmicos. "Temos uma economia arruinada", afirma Mohseni. "Você acredita que a resposta para o problema seja esse lixo que são os seriados indianos repletos de pessoas seminuas?".

A maior reclamação dirigida contra a Tolo vem dos políticos, incluindo membros do governo. A cobertura jornalística da Tolo, embora cada vez mais profissional, é com freqüência nada lisonjeira e até irreverente. A rede exibiu imagens de membros do parlamento dormindo nas suas mesas ou arremessando garrafas d'água contra os desafetos em meio às discussões políticas. Um parlamentar foi fotografado com o dedo no nariz e, a seguir, limpando o dedo.

Em abril, quando o procurador-geral Abdul Jabar Sabet achou que havia sido citado fora de contexto, ele enviou policiais até a sede da Tolo para prender a equipe jornalística. A confusão que se seguiu precisou ser mediada pela missão da ONU em Cabul.

"Tem sido bastante estranho", afirma Saad Mohseni, o diretor da Tolo. "Este é o Afeganistão, uma jovem democracia, e não temos problemas com traficantes de drogas, com o Taleban e nem mesmo com a população local. Os nossos problemas são todos com o governo, seja devido à burocracia, às tentativas de censura ou a alguém tentando extorquir dinheiro movido por interesses velados".

Ele faz uma pausa para causar efeito.

"Com a democracia vem a televisão. Para algumas pessoas é difícil acostumar-se a isso".

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