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02/08/2007

Bósnia pretende expulsar seus ex-combatentes árabes

The New York Times
Nicholas Wood
Em Sarajevo, Bósnia-Herzegóvina
Quando Fadhil Hamdani chegou pela primeira vez à Bósnia, vindo do Iraque, em 1979, ele não fazia idéia de que permaneceria no país por tanto tempo. Mas após os estudos prolongados, o casamento com uma mulher bósnia, o nascimento de cinco filhos e a cidadania, os anos tornaram-se décadas.

Hoje em dia ele garante que se sente mais bósnio do que iraquiano.

Mas o governo bósnio não concorda, e enxerga nele uma ameaça à segurança nacional. O governo está enviando a Hamdani e a outros combatentes estrangeiros que moram na Bósnia há anos uma notificação de deportação.

Os árabes, o maior grupo entre os centenas de combatentes estrangeiros, combateram ao lado do Exército Muçulmano Bósnio durante a guerra travada aqui, de 1992 a 1995, contra sérvios e croatas. Em troca, receberam a cidadania bósnia.

Muitos partiram após a guerra, que fragmentou comunidades muçulmanas, sérvias e croatas e custou a vida de cerca de 100 mil pessoas. Mas alguns deles permaneceram no país e nele criaram raízes.

Autoridades bósnias dizem que as suas políticas estão simplesmente revogando decisões que foram tomadas ilegalmente ao final da guerra. Mas políticos bósnios e autoridades internacionais dizem que essa reversão é motivada principalmente por uma preocupação maior: a Bósnia não deve ser vista como um abrigo para militantes islâmicos.

Autoridades ocidentais e políticos locais, especialmente os ex-oponentes dos muçulmanos, acusam os ex-combatentes de promover o islamismo radical e, neste processo, de prejudicar a reputação da Bósnia.

"Algumas das estruturas deles têm estado muito ativas promovendo atividades radicais na forma do wahhabismo", acusou Dragam Mektic, vice-ministro da Segurança da Bósnia, em uma recente entrevista, referindo-se a uma modalidade rígida de islamismo. "A população sente-se ameaçada".

Os governos ocidentais têm encorajado a medida.

Miroslav Lajcak, um diplomata eslovaco que é o alto representante da comunidade internacional na Bósnia e a principal autoridade estrangeira aqui, intensificou a pressão sobre o governo para que este dê andamento às deportações. Até o momento, apenas dois ex-combatentes foram de fato expulsos, ambos no ano passado.

"A presença de combatentes estrangeiros não é particularmente útil para a construção de um Estado democrático moderno", afirma um diplomata ocidental que está envolvido de perto com a alteração da política relativa aos estrangeiros, e que falou sob a condição de que o seu nome não fosse divulgado, conforme é comum nos meios diplomáticos.

Embora vários ex-combatentes que permaneceram no país tenham conseguido se encaixar na sociedade bósnia, outros resistiram à adaptação. Imad al-Hussein, um ex-estudante de medicina da Síria, que usa uma barba espessa, transformou-se na face pública dos combatentes muçulmanos, ou mujahedeen, após a guerra. Ele é um dos seis ex-combatentes que o governo deseja expulsar primeiro. O governo não divulgou uma acusação pública contra ele.

As suas idéias estão de fato em descompasso com as normas seguidas pela maioria dos muçulmanos daqui. Por exemplo, ele diz que os atentados suicidas a bomba são justificáveis, mas apenas dentro de Israel. Hussein afirmou em uma longa entrevista que ele e os seus ex-camaradas sempre agiram de acordo com a lei na Bósnia. Mas em resposta à ameaça de ser removido à força da casa da sua família, ele disse: "Fico me perguntando se serei capaz de conter os meus instintos. Se você se defende na porta da sua casa, torna-se um mártir. E isso é uma grande tentação".

Outros veteranos procuram nervosamente ganhar tempo, e reclamam de que não há nada que os vincule a qualquer tipo de atividade ilegal. "Se havia qualquer coisa contra nós, então por que eles deixaram que se passassem 12 anos para passarem a nos perseguir?", reclama Raffaq Jalili, um marroquino que foi ferido na guerra.

Andrew Testa/The New York Times 
Raffaq Jalili, um marroquino, em Zenica, Bósnia-Herzegovina

A Bósnia ainda está se recuperando da guerra, e as autoridades internacionais que exercem um papel importante aqui estão trabalhando no sentido de resolver as grandes diferenças que dividem as populações muçulmanas, sérvias e croatas. O representante estrangeiro mais graduado - atualmente Lajcak - ainda conta com o poder de fazer leis e demitir políticos locais.

Tanto a Arábia Saudita quanto os Estados Unidos dizem que extremistas islâmicos usaram passaportes bósnios para viajar entre o Oriente Médio e a Europa; algumas autoridades governamentais bósnias afirmam que é impossível confirmar tais alegações.

Serviços de inteligência ocidentais e os seus congêneres bósnios também alegam ter descoberto dois grandes complôs nos últimos seis anos tramados por extremistas muçulmanos na Bósnia para atacar alvos ocidentais.

Em outubro de 2001, seis argelinos foram presos pela polícia bósnia, sendo mais tarde enviados para a prisão norte-americana na Baía de Guantánamo, em Cuba. Em 2005, um sueco descendente de bósnios e um turco que morava na Dinamarca foram acusados de armazenar explosivos e trajes para fabricar um artefato explosivo para um homem-bomba. Eles foram condenados e sentenciados à prisão em janeiro último.

Não se sabe quantos combatentes estrangeiros permanecem na Bósnia - as estimativas variam bastante, de mais de uma dúzia a várias centenas. O governo afirma que uma comissão examinou uma lista de mais de mil nomes, tendo até o momento cancelado a cidadania de 420 pessoas. Hamdani foi o primeiro a ser notificado pela comissão, um ano atrás.

De 1996 a 2001, vários dos ex-combatentes ocuparam Bocinja, que era uma vila sérvia na parte central da Bósnia. Os combatentes viveram lá segundo a lei islâmica shariah até serem expulsos pelo governo, tendo-se dispersado pela Bósnia Central.

Hamdani chegou à Bósnia com 18 anos de idade, e estudou engenharia em Zenica. Quando irrompeu o conflito na Bósnia em 1992, ele estava casado e tinha dois filhos.

Segundo ele, era natural que lutasse pelo seu novo país, quando as forças bósnio-sérvias, apoiadas pela vizinha Sérvia, atacaram muçulmanos em todo o país. Em fevereiro de 1995, nove meses antes do fim da guerra, ele recebeu a cidadania.

Assim como ocorre com os outros casos sob revisão, ele não teve o direito de apelar perante a comissão, que se reuniu a portas fechadas e lhe enviou a decisão por correio.

"Creio que não importa quando você chegou ao país", disse ele em um entrevista. "O que importa é a unidade na qual você serviu durante a guerra".

Sérvios e croatas afirmam que os membros muçulmanos do governo concederam cidadanias de forma muito generosa.

Jalili, um ex-agente de alfândega marroquino, traz cicatrizes no rosto e tem uma orelha deformada por uma granada propelida por foguete. Em um cemitério ao lado de uma colina, perto de Zenica, ele mostrou as colunas de concreto sem nomes que marcam as sepulturas dos combatentes árabes da sua unidade.

Agora ele, a mulher e os dois filhos moram em Zenica, sobrevivendo com uma pensão para os veteranos incapacitados. Em março último Jalili também foi notificado pelo correio de que a sua cidadania foi cancelada.

"Quando cheguei aqui pela primeira vez, todos me receberam de braços abertos", queixa-se Jalili. "Agora estamos sendo chutados como cachorros".

O governo diz que a justificativa para cancelar as cidadanias é o fato de que, ao final da guerra, o governo não estava funcionando de maneira apropriada e, portanto, emitiu passaportes que careciam de legitimidade.

"A cidadania pode ser cancelada caso seja descoberta qualquer irregularidade no processo, ainda que a pessoa atualmente preencha os requisitos para a naturalização", afirma Darryl Li, um pesquisador de direito de Yale que está estudando o caso dos veteranos. "Uma pessoa que mora na Bósnia há 15 ou 20 anos com uma mulher e filhos, agora se vê na mesma situação legal de um novo imigrante, com a exceção do fato de que metade da sua vida foi burocraticamente apagada". UOL

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