UOL Notícias Internacional
 

02/08/2007

Uma nova tribo de moradores de tendas

The New York Times
Julia Chaplin

Em Ibiza, Espanha
Serena Cook é a concierge suprema para os veranistas endinheirados nesta ilha resort espanhola. Uma ex-chef de alimentos orgânicos de Londres, ela dirige um serviço de concierge que ajuda os clientes, entre os quais Calvin Klein, Hugh Grant e membros do U2, a receberem convites de festas VIP, reservas de restaurante e de quintas desejáveis, que podem ser alugadas por até US$ 16 mil por semana em julho e agosto.

Mas ela está bastante à vontade em relação ao seus arredores. Sua casa de fazenda de um quarto nas colinas fora da cidade de Evissa não tem quarto de hóspedes, de forma que ela alugou um chalé próximo para seus visitantes. Quando o aluguel subiu, ela fez o que qualquer neo-boêmio engenhoso de Ibiza faria: ela comprou tendas indígenas de lona de 5 X 5,5 metros, as pintou com padrões tribais em vermelho terra e azul celeste e a armou além de sua piscina, à sombra de uma palmeira. Tudo por apenas US$ 2.165.

Claude Armand Bal/The New York Times 
Ibiza vê o aumento no número de tendas indígenas usadas como uma espécie de moradia

"Eu sempre tive esta idéia romântica de dormir em uma tenda", disse Cook, 33 anos, que mora na ilha entre maio e outubro (ela dirige sua empresa, a Deliciously Sorted, de Londres durante o inverno europeu) e mobiliou o ambiente com uma cama dupla, velas votivas mexicanas e um tapete persa. "Mas principalmente, era uma forma prática de criar outro quarto".

Cook faz parte de um número pequeno mas crescente de moradores daqui que adotaram a tenda como uma alternativa atraente para as caras reformas residenciais. Em uma ilha ainda altamente influenciada pelo espírito contracultural e o multiculturalismo dos mochileiros que vieram para cá nos anos 60, tendas são para muitos um local apropriadamente despojado e emocionante onde passar a noite.

Não que Ibiza não tenha mudado muitos nos mais de 40 anos desde que viajantes de cabelo comprido de todo mundo começaram a chegar em busca de locais menos temperados como Goa, Marrocos e o Sudeste Asiático, ocupando casas de fazenda dilapidadas, chamadas fincas. Mas mesmo agora, quando a ilha se tornou refúgio de jet setters como Kate Moss e Jade Jagger, quase todo restaurante, clube e hotel-fazenda da moda está decorado com elementos semi-espirituais como estátuas de Buda, pinturas de deidades hindus e almofadões bordados marroquinos.

A tenda, que chamou atenção aqui pela primeira vez há 10 anos, quando um centro de ioga importou várias para abrigar seus estudantes, era algo natural para a ilha.

Jagger ajudou a promovê-la pouco depois, quando armou uma tenda com bola de discoteca e tapetes marroquinos em sua propriedade em Sant Joan, uma espécie de enclave rico, hippie, no norte (ela já acrescentou uma segunda). Então, no ano passado, as tendas de lona fabricadas por uma empresa espanhola, a Tipiwakan, começaram a ser vendidas pela 100% Ibiza, uma loja de consignados em um terreno imenso que parece algo como um ferro-velho New Age. Elas variam em preço de US$ 2.500 (para o modelo de 5 metros de diâmetro e 5,5 metros de altura na qual podem dormir até oito) a US$ 7.495 (para a de 10 metros e que acomoda até 25 pessoas). Pintura decorativa é algo extra.

"Se tornou um negócio e tanto", disse Guillermo Fernandez Oriol, proprietário da 100% Ibiza, que estava sentado em frente à sua casa, um trailer ampliado com um tiki bar e sofás ao ar livre.

No ano passado, disse, ele vendeu 12 tendas; neste verão, antes do início de seu mês mais movimentado, agosto, ele vendeu 15. (Ele também começou um bem-sucedido aluguel de tendas para pessoas que vêm passar o fim de semana, que as usam para festas em grandes quintas alugadas; a tenda de 5 X 5,5 metros sai por US$ 1.322 por três dias, incluindo velas, tapetes marroquinos, almofadões e filtro de sonhos).

Seus instaladores xamanescos são dois irmãos que vivem em tendas em um terreno na floresta de Ibiza e que limpam as novas tendas com queima de sálvia e cânticos. "95% dos meus compradores são proprietários de imóveis de Londres ou da Alemanha que os usam como quartos de hóspede", disse Fernandez Oriol. "Eles têm uma mente aberta".

Quando não está filmando, Danny McGrath, um diretor de cinema britânico, vive em Ibiza com sua esposa, Sophie, uma figurinista, e a filha deles em uma finca de 500 anos em um vale remoto passando a finca de Jagger. Quando decidiram se mudar para Ibiza há quatro anos por estarem cansados de preocuparem "a que festas ou jantares deveriam ir" no meio cinematográfico londrino, disse McGrath, eles compraram uma tenda de 5 X 6 metros e a armaram entre os pinheiros perto de sua finca como um ambiente reservado para os convidados.

Eles mudam a decoração todo ano, usando objetos de cenários de filmes nos quais trabalharam, como os atuais cobertores marroquinos vermelhos e amarelos e os pufes de couro alinhavado do filme "Cruzada", de Ridley Scott, de 2005, no qual McGrath trabalhou como figurinista.

"É um ótimo lugar para vir após uma noite em um clube lotado ou uma festa em uma quinta", disse McGrath, que se tornou interessado em estruturas tribais no final dos anos 80, após viver na reserva Paiute-Shoshone, perto de Bishop, Califórnia, enquanto trabalhava como instrutor de esqui. "Você pode ficar na tenda com os amigos enquanto os sol nasce e pode sentir o cheiro do orvalho no ar".

Tendas também parecem particularmente adequadas ao verão de Ibiza, com suas noites frescas e clima seco do Mediterrâneo. Para aquecimento ou preparar marshmallow, uma pequena fogueira pode ser acesa na terra no centro - tendas não têm piso - e uma aba perto do topo pode ser aberta como uma chaminé. O tecido pode ser levantado ou baixado para ajustar a temperatura e ventilação. E em caso de vento forte, os instaladores enrolam uma corda por fora ao seu redor e a amarram em estacas no solo.

O único inconveniente é a falta de banheiros. Christelle e Matt Jones, um casal que se mudou de Londres para Ibiza há dois anos com seus quatro filhos (eles estão se preparando para abrir uma filial em Ibiza de sua padaria de Londres, a Flour Power City), tiveram que transferir a tenda do quintal para um ponto mais próximo da casa devido às queixas dos hóspedes sobre a caminhada noturna traiçoeira até o banheiro.

Outros anfitriões são mais despreocupados. "Os hóspedes usam o banheiro da casa", disse McGrath. "Mas a metade nem se dá ao trabalho de tentar subir o morro a tempo". Ele freqüentemente lembra os hóspedes que os sioux e cheyennes viviam desta forma: "Eles não tinham água corrente mas eram um povo higiênico".

Para ficar de acordo com o espírito predominante em Ibiza, os donos de tendas tendem a explorar o tema da vida tribal em sua decoração. Muitos vão além dos padrões pintados como os de Cook em seus esforços para evocar um senso de autenticidade espiritual e cultural, exibindo objetos cerimoniais nativo-americanos como tambores entalhados em madeira, filtros de sonhos, bolsas de ervas medicinais e maços de ervas secas para purificação espiritual.

Na verdade, as tendas originais nas planícies não tinham nenhum significado religioso ou cerimonial, e este tipo de decoração apenas "glamouriza o passado", disse Linda A. Holley, autora de "Tipis, Tepees, Teepees", um guia para a história das tendas indígenas publicado pela Gibbs Smith no início deste ano. "É um mito no qual muitas pessoas acreditam", ela disse.

Outros nem mesmo tentam a autenticidade, misturando alegremente mobília de diversas culturas, desde que pareçam adequadamente primitivas. Ursula Erasmus, uma empresária alemã que abandonou uma carreira como importadora de acessórios da Ásia no ano passado por estar "cheia do estresse de clientes exigentes demais" e que se aposentou em Ibiza, decorou sua tenda de 7 metros com tapetes de peles de vaca e cabra comprados no site eBay e um sofá-cama de Bali, juntamente com tambores e instrumentos nativo americanos.

Ela comprou sua tenda, que acomoda uma dúzia, na última primavera, depois que seu filho de 16 anos, que estuda em um internato suíço, avisou que em um mês faria uma visita com sua trupe de teatro em excursão. ("Dez adolescentes ao todo!", disse Erasmus.) Então, no último minuto, seu filho cancelou, e Erasmus acabou convidando amigos.

"Dois xamãs estão vindo da Alemanha" no final do verão, ela disse. E os vários expatriados que conhece do círculo de tambores africanos do Las Dalias, um restaurante e clube em San Carlos, o centro da cena neo-hippie, "virão para uma grande festa" no final do verão, "na qual tocaremos música e prepararemos comida na fogueira dentro da tenda".

Enquanto isso, Cook optou por ceder sua casa aos convidados e usar ela mesma a tenda. "Mas quando o sol se levanta pela manhã, fica quente como uma fornalha lá dentro", ela disse.

Não é uma situação ideal para seus amigos de Londres, que passam a noite toda nos clubes e querem dormir até tarde.

"De qualquer forma eu tenho que levantar cedo para meu trabalho", ela disse. "Como os índios". George El Khouri Andolfato

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