UOL Notícias Internacional
 

03/08/2007

Rússia finca bandeira em leito do mar no Pólo Norte em disputa por recursos

The New York Times
C.J. Chivers

Em Moscou
Uma expedição russa mergulhou na quinta-feira mais de 3 quilômetros sob a camada de gelo do Ártico em um par de mini-submarinos e fincou uma bandeira russa no leito do mar no Pólo Norte.

Foi uma ação simbólica visando reforçar a antiga, mas contestada reivindicação russa a quase metade do Oceano Ártico, e quaisquer campos potenciais de petróleo, gás ou outros recursos existentes lá.

A expedição, que recebeu intensa cobertura das organizações de notícias russas e da televisão estatal, misturou aventura em alto-mar com a tradição russa de exploração polar, mas também foi um evento publicitário coreografado.
VIAGEM AO FUNDO DO MAR
AFP / NTV
Imagem de TV russa mostra mini-submarino que explorou mar Ártico
AFP/NTV
Navio russo Akademik Fyodorov que transportou o mini-submarino
Reuters
Mini-submarino explora o Oceano Ártico, no Pólo Norte
Reuters
Missão colocou bandeira russa sob o mar do Pólo Norte


Dentro dos primeiros mini-submarinos a chegar ao leito do mar estavam membros da câmara baixa do Parlamento russo, sendo que um deles, Artur Chilingarov, liderou a expedição que buscava evidência que apoiasse a reivindicação russa sobre a região em grande parte não mapeada.

Tal reivindicação, que atualmente não conta com apoio legal, se baseia na afirmação russa de que o leito do mar sob o pólo, chamado de Cordilheira Lomonosov, é uma extensão da plataforma continental da Rússia e, portanto, território russo.

A Rússia submeteu sua reivindicação a uma comissão internacional em 2001, que até o momento decidiu que os dados disponíveis são insuficientes para apoiá-la. Mas a Rússia tem pressionado.

"Nós temos que determinar a fronteira, a fronteira mais ao norte da plataforma russa", disse Chilingarov pela televisão para todo o país antes do mergulho, que foi rotulado como o primeiro do gênero - uma descida à escuridão sob a maior janela cortada na camada de gelo por um quebrador de gelo movido à energia nuclear.

A Dinamarca colocou em campo suas próprias expedições científicas para estudar o extremo oposto da cordilheira oceânica e buscar evidência de que ela vem da plataforma continental ao norte da Groenlândia, uma possessão dinamarquesa.

Após emergir várias horas depois, Chilingarov falava como se fosse o primeiro homem na lua. "Se daqui cem ou mil anos alguém descer onde estivemos, esta pessoa verá a bandeira russa", ele disse. A bandeira é feita de titânio.

Os eventos do dia ressaltaram tanto o senso de confiança restaurado da Rússia quanto sua disputa internacional por acesso, influência e diretos de extração no extremo norte, que se intensificou à medida que subiram os preços do gás e petróleo e a tendência de aquecimento global encorajaram a especulação de que a região poderia se tornar mais navegável.

Cinco países - Canadá, Dinamarca, Noruega, Rússia e Estados Unidos - possuem território dentro do Círculo Ártico, o que significa que, segundo uma convenção internacional, eles têm direito a zonas econômicas no Oceano Ártico em uma faixa de 320 km de suas costas.

Vários outros países buscaram estender suas influências lá, vendo o potencial da região praticamente desabitada de exploração de hidrocarbonetos e minérios. A demarcação final da área, caso as estimativas dos geólogos sobre seus depósitos estiverem corretas, poderia ser uma chave para futuro poder e riqueza nacional.

Pelo menos um país com interesse no resultado registrou imediatamente sua desaprovação à expedição russa. "Nós não estamos no século 15", disse Peter MacKay, ministro das Relações Exteriores canadense, na rede "CTV" de televisão. "Você não pode sair pelo mundo fincando bandeiras e dizendo: 'Nós reivindicamos este território'".

Sergey Lavrov, o ministro das Relações Exteriores russo, falando das Filipinas, ignorou as críticas à expedição, dizendo que as reivindicações da Rússia no norte são sólidas e que no devido tempo serão estabelecidas como fato.

"A meta desta expedição não é demarcar direitos russos, mas provar que nossa plataforma se estende até o Pólo Norte", disse Lavrov para a "Radio Mayak". "Há métodos científicos concretos para isto".

A expedição contou com financiamento público e privado, grande parte do qual levantado pelo próprio Chilingarov. Qualquer nova evidência científica que o projeto obtiver para o governo russo teria que ser submetida a uma comissão para fronteiras de plataformas continentais, cujos membros são eleitos pelos países que assinaram a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar.

A Rússia tem uma longa tradição de exploração e extração do norte. Desde o início dos tempos soviéticos, o Kremlin tinha estações de pesquisa no gelo ártico. Stalin enviou a primeira equipe em 1937.

Independente dos méritos da reivindicação russa, os cientistas russos se maravilharam com a expedição, que envolveu dois pequenos submarinos que desceram mais de 14 mil pés (4.267 metros) sob a camada de gelo flutuante e em constante movimento.

Então emergiram, o que os cientistas disseram ter sido uma tarefa ainda mais difícil porque o submarino tinha que encontrar o caminho de volta ao local exato de partida, no buraco no gelo. Os submarinos eram pequenos demais para penetrar no gelo por conta própria, de forma que uma navegação errada poderia tê-los deixado presos sob o gelo.

Assim que chegou a Moscou a notícia de que a expedição tinha sido um sucesso, os cientistas de lá falaram com orgulho evidente.

"Nós podemos dizer que é um grande feito técnico e tecnológico", disse Leopold I. Lobkovskiy, vice-diretor de estudos geológicos do Instituto P.P. Shishov de Oceanologia em Moscou, que forneceu a embarcação de pesquisa para a expedição.

Outro cientista, Ivan Y. Frolov, diretor do Instituto de Pesquisa Ártica e Antártica em São Petersburgo, alertou que seja lá o que o breve mergulho tenha encontrado, ele fará pouco para resolver as disputas sobre a futura demarcação. Mas ele notou certo valor no evento, que foi uma parte da expedição anual de verão para estudar o clima, o mar e o gelo.

"Eu duvido que este mergulho representará um avanço no problema que está sendo discutido na imprensa", ele disse. "Foi uma boa chance de demonstrar as capacidades deste equipamento e as profundezas que pode atingir, assim como para demonstrar a coragem do sr. Chilingarov, que é grande". George El Khouri Andolfato

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