UOL Notícias Internacional
 

04/08/2007

Acidentes aéreos alimentam ansiedade entre viajantes no Brasil

The New York Times
Alexei Barrionuevo*
No Rio de Janeiro
Alire Assis Brasil, na cidade para visitar uma tia, aguardava pacientemente nesta semana pelo ônibus para levá-la de volta para casa, em Florianópolis - a cerca de 18 horas de distância.

Ela poderia ir de avião, uma viagem que levaria duas horas e meia. Mas nos últimos meses, ela optou por evitar as incertezas do problemático sistema de aviação do Brasil, que se agravaram após o pior acidente aéreo do país há duas semanas.

"Aviões são uma verdadeira preocupação atualmente", disse Alire, 42 anos, que viaja com freqüência entre as duas cidades. "A segurança de saber quando chegarei lá me fez tomar o ônibus".

Almeida Rocha / Folha Imagem - 25.jul.2007 
Reforma na pista principal de Congonhas, fechada desde acidente do avião da TAM

Ela está entre os muitos brasileiros que estão optando pelas longas viagens de ônibus em vez da espera, em alguns casos, de dias inteiros nos aeroportos.

O acidente aéreo foi o segundo grande e fatal em 10 meses, fazendo muitos brasileiros terem dúvidas em relação a viagens aéreas no maior país da América do Sul. "Parece que estamos andando para trás", disse Glória Maria Anniboleti, que esperava no aeroporto internacional do Rio de Janeiro por um avião para Curitiba, na quinta-feira.

O mais recente acidente, pouco tempo depois da colisão no ar em setembro entre dois aviões que voavam sobre a Amazônia e que matou 154 pessoas, provavelmente tornará a viagem aérea menos acessível aos 187 milhões de habitantes do Brasil. Nos últimos anos, companhias aéreas de baixo custo provocaram uma explosão no número de passageiros aéreos. Apesar de muitos terem saudado os preços mais baixos, alguns agora questionam se o sistema cresceu demais, rápido demais e sem investimento adequado, sobrecarregando a infra-estrutura aeroportuária e os controladores de tráfego aéreo.

O mais recente acidente também aprofundou uma das piores crises políticas enfrentadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde que assumiu o governo há cinco anos. Ela se somou à longa série de crises de corrupção dos últimos meses que atormentam o líder brasileiro.

Há temores de que a economia sofrerá. O turismo já está sofrendo. Além disso, os acidentes estão provocando novas preocupações entre os investidores internacionais em relação à pobre infra-estrutura de transporte.

O fato de o transporte aéreo estar em tamanha dificuldade é particularmente duro de ser aceito aqui, considerando a rica tradição de aviação do Brasil. Um grande país com florestas tropicais protegidas, ele há muito conta com o transporte aéreo para desenvolver sua economia e conectar suas populações. O herói brasileiro Alberto Santos-Dumont realizou um dos primeiros vôos registrados em um biplano em Paris, em 1906, apenas três anos depois do vôo histórico dos irmãos Wright no Kitty Hawk. Mais recentemente, a fabricante brasileira de aeronaves, a Embraer, se tornou uma empresa de peso no mercado de jatos executivos.

Seguindo os modelos americano e europeu, as companhias aéreas de baixo custo despontaram no Brasil nos últimos anos. As tarifas aéreas caíram 29% desde 2001, segundo um relatório para investidores apresentado em junho pela Gol, uma companhia aérea de baixo custo que se tornou a Southwest Airlines do Brasil. A Gol estimou que o crescimento de passageiros nos aviões no Brasil ultrapassaria 12% ao ano na próxima meia década e que o número de passageiros por toda a América do Sul cresceria em 7% ao ano no mesmo período, a taxa mais alta fora da China.

Passageiros como Wellington Souza, 22 anos, um eletricista do Rio que começou a viajar de avião neste ano, se beneficiaram com as tarifas mais baixas e a capacidade de pagar de forma parcelada pelas passagens. Agora, ele e outros acham que as tarifas subirão de preço juntamente com o valor do seguro e outras taxas para as companhias aéreas. A TAM, a companhia aérea cujo avião sofreu o acidente de 17 de julho, teria separado US$ 1,5 bilhão para indenizar as famílias das vítimas e arcar com outros custos ligados ao acidente.

Desde a mais recente tragédia, o governo tem se concentrado em reduzir o movimento no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, onde ocorreu o acidente, que servia como eixo do tráfego aéreo no país. Nelson Jobim, que Lula nomeou como ministro da Defesa após o acidente, adotou um tom firme na quinta-feira ao insistir que não cederá à pressão das companhias aéreas para reabrir a discussão sobre sua decisão de redistribuir 151 vôos que passavam por Congonhas.

Lula, por sua vez, é criticado por ter sumido de cena por três dias após o mais recente acidente e por não ter feito mais para resolver a crise aérea desde o acidente de setembro. Ele disse na quinta-feira, durante uma reunião de ministros e líderes de partido, que não estava ciente da escala dos problemas da aviação, os comparando a um câncer que o pegou de surpresa. "Você pensa que tudo está bem, apenas para descobrir que o problema é muito maior", ele disse.

Os dias de depoimentos perante uma comissão do Senado que investiga o acidente se tornaram um jogo de apontar de dedos para os líderes dos órgãos responsáveis pelas viagens aéreas, que negam a responsabilidade pela reabertura da pista de Congonhas antes da conclusão das obras para torná-la menos escorregadia. Quase uma dúzia de pilotos alertou que a pista estava potencialmente perigosa nas três semanas que antecederam o acidente, com pelo menos um se queixando de aquaplanagem.

As soluções potenciais para a crise são difíceis. Construir novos aeroportos levaria anos, assim como a criação de uma linha de trem até os aeroportos menos utilizados fora de São Paulo, uma metrópole de mais de 20 milhões de habitantes. O governo já recuou do plano para construir um novo aeroporto em São Paulo em prol da construção de uma nova pista para o aeroporto de Cumbica.

A recuperação dos dados da caixa preta do avião da TAM e da conversa dos pilotos na cabine aponta para um possível erro do piloto ou um problema mecânico com o reverso do avião, o freio de ar. Mas tanto especialistas brasileiros quanto do exterior temem conclusões que ignorem os problemas estruturais do sistema de aviação.

"As autoridades brasileiras gastam mais tempo tentando encobrir ou esconder o que está acontecendo do que melhorando o sistema", disse Marc Baumgartner, presidente da Federação Internacional das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo, em Montreal.

Com as viagens aéreas em caos, o estigma associado à viagem de ônibus mais barata está desaparecendo rapidamente. O principal terminal intermunicipal de ônibus do Rio estava lotado nesta semana, com um movimento 30% maior desde o acidente de 17 de julho, disse Beatriz Lima, a porta-voz do terminal.

Viajar de ônibus nem sempre é a dificuldade de baixo custo associada aos ônibus de longa distância nos Estados Unidos. Os passageiros podem comprar passagens de classe executiva com assentos ultra-reclináveis, e café e água costumam ser oferecidos. Dentro do terminal de ônibus, Sandra Oliveira, 30 anos, aguardava na fila para comprar a passagem para São Paulo, uma viagem de cerca de seis horas. Ela parou de voar em março, após aguardar mais de sete horas por seu vôo no Rio. "Eu disse que nunca mais, até que resolvam este caos aéreo."

Uma das maiores empresas do Brasil, a Companhia Vale do Rio Doce, ou CVRD, utiliza um novo avião corporativo da Embraer de US$ 7 milhões desde setembro passado para assegurar que seus funcionários não enfrentarão atrasos em certas rotas, disse um porta-voz da empresa, Fernando Thompson. Para poupar tempo e dinheiro, a gigante de mineração ordenou que seus empregados não utilizassem as companhias aéreas regulares ao longo da rota coberta pelo avião da empresa, ele disse. Algumas empresas estão recorrendo a videoconferências para reduzir as viagens de funcionários.

Com a incerteza geral, alguns turistas estão cancelando viagens. O artista de rap, Ice-T, cancelou suas apresentações marcadas alegando o "caos da aviação".

Sandra Marques, dona de um hotel em Trancoso, uma cidade no Estado da Bahia, que fica a 22 horas de ônibus de São Paulo, disse que muitas pessoas cancelaram reservas nos últimos dias. O turismo de europeus também caiu, ela disse, uma tendência que ela espera que continuará.

"Os turistas podem escolher para onde ir, e não vão optar para ir para o caos", ela disse.

Joshua Schneyer contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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