UOL Notícias Internacional
 

04/08/2007

Chávez coloca na estrada o seu "batalhão louco" de fãs

The New York Times
Simon Romero
Em La Fria, Venezuela
"Eles com certeza tirarão fotos nossas com os seus satélites", afirmou o presidente Hugo Chávez, referindo-se às agências de inteligência dos Estados Unidos, na sexta-feira (03/08), quando o seu Airbus pousava nesta cidade andina com o ator Sean Penn, um grupo de ministros do seu gabinete e dignatários de meia dúzia de países.

"Eles dirão: 'Lá vai Chávez com um batalhão louco contendo africanos, canadenses, cubanos'", continuou o presidente venezuelano, dando a seguir uma alfinetada referente às relações políticas entre Estados Unidos e Venezuela. "Até mesmo gringos!"

Palácio Miraflores/Reuters 
Hugo Chávez (dir.) e o ator Sean Penn a bordo do avião presidencial venezuelano

A visita de Penn para escrever sobre Chávez segue-se a outras feitas por celebridades de Hollywood, como Danny Glover, intelectuais conhecidos, como Tariq Ali e diretores de cinema, como o argentino Fernando Solanas. Todos eles visitaram recentemente o país para presenciar a transformação da sociedade venezuelana, naquilo que Chávez chama de uma "Revolução Bolivariana".

Mas raramente uma recepção a atores e escritores e estrangeiros foi tão calorosa quanto aquela dispensada nesta semana a Penn, a quem Chávez, talvez para compensar as condenações internacionais das quais foi alvo, devido à forma como o seu governo tratou os críticos na mídia local, chamou de "corajoso", devido à sua oposição aberta à guerra no Iraque e a outras políticas do governo Bush.

Após providenciar que Penn visitasse Villa del Cine, o estúdio estatal de cinema próximo a Caracas, criado para enfraquecer o controle de Hollywood sobre a indústria cinematográfica nacional, e à cidade afro-venezuelana de Barlovento, o presidente jantou reservadamente com o ator na quinta-feira, antes de seguir com ele na sexta-feira para um passeio no oeste da Venezuela.

O que se seguiu, para um grupo de jornalistas que teve a rara oportunidade de acompanhar Chávez em tal viagem, foi uma observação de como o seu governo usa a imagem e a pompa para cortejar a opinião pública tanto na Venezuela quanto no exterior.

Durante o vôo, Chávez falou a Penn sobre a história venezuelana e fatos do seu próprio passado como soldado, nos intervalos das conversas sobre política com outros passageiros do espaçoso Airbus dotado de assentos de couro.

Chávez advertiu que a região de fronteira no Estado de Tachira, onde o avião pousou, "fica muito perto do local onde a CIA se encontra", em uma crítica não muito sutil ao relacionamento estreito entre a Colômbia e o governo Bush.

Em relação aos Estados Unidos, Chávez previu que o aumento dos déficits orçamentários e comerciais prenuncia uma crise financeira que fará com que o país "exploda de dentro para fora".

"Poderia haver uma revolução nos Estados Unidos", disse Chávez. "Nós os ajudaríamos".

Penn ouviu a maioria dos comentários de Chávez com um sorriso simpático, fazendo alguns gestos de aprovação com a cabeça e emitindo murmúrios ininteligíveis. "Ele é um homem calado", afirmou Chávez aos outros passageiros, apontando para Penn. "Mas é uma pessoa que traz fogo dentro de si".

Não há dúvida de que Chávez gosta de ocupar o assento do motorista em tais investidas - literalmente. Na pista do aeroporto em La Fria, ele assumiu a direção de um Tiuna, um veículo militar semelhante a um Humvee, montado na Venezuela, colocou Penn no banco de trás e passou a dirigir pelas pitorescas vilas andinas.

Uma viagem que normalmente demora 90 minutos até Pueblo Encima, uma pequena comunidade rural na qual Chávez comemoraria a criação de uma fábrica de fertilizantes e a chegada de vacas leiteiras da Argentina e do Uruguai, levou mais de quatro horas, já que o presidente parou o Tiuna dezenas de vezes para conversar com populares que o apóiam e que se aglomeravam na beira da estrada.

Uma caminhonete levando os jornalistas seguia na frente, enquanto fotógrafos e cinegrafistas desesperados pediam aos gritos ao motorista que acelerasse ou parasse. Às vezes eles gritavam animadamente, como quando tiraram fotografias de Penn urinando no acostamento.

Ciceroneado por Andres Izarra, o presidente da Telesur, a rede regional de notícias apoiada pelo governo venezuelano, Penn pareceu um pouco aflito quando lhe perguntaram quais eram as suas impressões sobre o país.

Em uma curta entrevista durante uma das várias paradas do comboio, Penn se recusou a falar sobre quaisquer similaridades que pudessem existir entre o presidente que ocupava o volante do Tiuna e o populista sulista, inspirado de certa forma no governador da Louisiana, Huey Long, que Penn interpretou na recente adaptação para o cinema do livro de Robert Penn Warren, "All the King's Men".

Em vez disso, Penn apresentou um cartão do Instituto de Reportagem na Guerra e na Paz, que ele disse estar representando na sua viagem à Venezuela.

"Escreverei sobre esta experiência, portanto estou um pouco hesitante para falar sobre ela", disse Penn, usando uma camiseta e óculos escuros de aviador (ele escreveu relatórios semelhantes após viagens a países como Iraque e Irã). "Até agora tudo tem sido extraordinário".

A seguir, com a mesma intensidade calada a qual Chávez se referira anteriormente, o ator passou a procurar alguém que tivesse um isqueiro para que ele acendesse um Marlboro Light.

Sem se deixar intimidar pelas críticas de alguns atores e diretores venezuelanos que ridicularizam os vínculos amigáveis entre alguns dos seus congêneres estrangeiros e Chávez, o presidente enalteceu a presença de Penn a cada parada.

Durante um discurso em Pueblo Encima para uma platéia de centenas de pessoas agasalhadas, assim como Chávez e grande parte da sua comitiva - todos vestidos com a cor vermelha do seu partido político -, uma chuva de montanha fez com que o grupo da tropical Caracas tremesse de frio, enquanto Chávez elogiava as vacas leiteiras.

Ele elogiou a aliança da Venezuela com Cuba na presença de Ricardo Alarcon, o presidente da Assembléia Nacional de Cuba. Chávez saudou os dignatários de Burkina Fasso, Canadá e Bélgica, que elogiaram as suas políticas.

E com a perspicácia de um político que sabe como agradar os amigos onde quer que consiga encontrá-los, Chávez usou o inglês para proferir umas poucas palavras para Penn: "Thank you, thank you, thank you". UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host