UOL Notícias Internacional
 

04/08/2007

Um assalto de brincadeira, e abortado, ao Queen Mary

The New York Times
Randy Kennedy

Em Nova York
No remanso em Red Hook, Brooklyn, geralmente há muitas coisas flutuando na água, a maioria das quais você não tocaria sem a ajuda de um bom traje de proteção. Mas após o nascer do sol na sexta-feira, algo realmente estranho estava boiando lá, nas águas rasas perto do píer 41: um submarino feito quase que totalmente de madeira, tendo dentro dele um homem com uma obsessão.

Damon Winter/The New York Times 
Duke Riley em seu submarino feito de carvalho e que foi batizado de Turtle

O homem, Duke Riley, um artista do Brooklyn altamente tatuado cujos projetos de performance ao redor de Nova York freqüentemente o colocam em apuros com as autoridades, passou os últimos cinco meses construindo a embarcação como uma réplica aproximada daquele que se acredita ter sido o primeiro submarino americano, uma esfera de carvalho chamada Turtle (tartaruga), que entrou em ação no Porto de Nova York durante a Guerra da Independência.

O plano de Riley também era militar - apesar de altamente metafórico, dado que ele é um artista. Ele queria flutuar na direção norte, pelo Canal Buttermilk, para realizar uma incursão contra o Queen Mary 2, que tinha acabado de ancorar em Red Hook, tendo como objetivo se aproximar o suficiente para gravar um vídeo de si mesmo contra a imensidão do navio para uma futura exposição em galeria.

Mas quando ele foi parado pelo barco da polícia de Nova York, por volta das 10 horas da manhã, o resultado não foi nada metafórico: Riley, 35 anos, e dois amigos que ajudaram a rebocá-lo, foram levados sob custódia por um exército de autoridades, e a excursão deles provocou brevemente temores de que um ataque terrorista pudesse estar em andamento.

A enxurrada de atenção que se seguiu, na televisão e em um número incontável de blogs urbanos, gerou o tipo de publicidade pela qual a maioria dos artistas pagaria altas somas.

O comissário de polícia, Raymond W. Kelly, emitiu uma declaração posteriormente chamando o incidente de "travessura marinha" - "a embarcação criativa de três indivíduos aventureiros" - e dizendo que nada suspeito foi encontrado "além da embarcação em si". Ele minimizou a possibilidade de que o navio de cruzeiro correria risco caso a intenção fosse mais maliciosa que artística, sugerindo que o submarino foi detectado com bastante antecedência.

Kelly disse que um detetive da polícia de Nova York, designado para a divisão de inteligência do departamento e que estava a bordo do Queen Mary 2 na manhã de sexta-feira, foi o primeiro a avistar o que parecia ser um submarino de brinquedo sendo rebocado por uma balsa de borracha conduzida pelos dois amigos de Riley. Ele contatou a patrulha portuária do departamento, que enviou três barcos ao local juntamente com um helicóptero, aos quais posteriormente se juntaram a Guarda Costeira e um caminhão de materiais perigosos.

Ainda assim Riley, que saiu pela escotilha enferrujada sem a lata de cerveja que levou consigo para a embarcação quando ela foi lançada por volta das 9h15, conseguiu se aproximar até 60 metros da proa do navio, em um momento em que as autoridades dizem que a segurança dos portos é um fator crítico na proteção contra o terrorismo. De um píer próximo, vários de seus amigos e marchands de arte gritavam congratulações por trás de uma cerca.

Mas a polícia apreendeu o submarino e a Guarda Costeira intimou Riley pela violação da zona de segurança de 90 metros do navio. A polícia emitiu mais duas intimações, por navegação insegura. (Riley não tinha meios de propulsão e contava apenas com a gentileza da maré para conduzi-lo até seu objetivo.)

Damon Winter/The New York Times 
Riley é detido pela polícia antes de navegar sua réplica de submarino até o Queen Mary II

Em uma entrevista no Píer 41 na tarde de quinta-feira, após Riley ter telefonado para um repórter para alertá-lo da excursão planejada, o artista disse que se interessou pela construção do submarino após ler a respeito do Turtle em livros de história. (Segundo alguns relatos, a tentativa do submarino original de prender um explosivo no fundo de um navio de guerra inglês fracassou, mas o artefato explodiu perto do navio e fez com que os ingleses movessem suas embarcações. Outros relatos dizem que o submarino nunca foi lançado ao mar.)

Riley construiu seu submersível de 2,40 metros não de carvalho, mas de compensado barato, revestido de fibra de vidro e contendo no alto vigias e uma escotilha compradas de uma empresa de sucata marinha. Bombas no fundo lhe permitiam adicionar água como lastro ou removê-la.

Na noite de quinta-feira, ele e os dois amigos, Jesse Bushnell e Mike Cushing, perambularam pelas águas escuras de Red Hook - evitando a camisinha ou rato morto ocasionais - para se certificarem de que o submarino, chamado Acorn (bolota), era capaz de navegar e submergir. (Ele nunca o fez completamente.) Eles carregaram uma grande quantidade de chumbo no fundo e estavam acrescentando pedras para submergir a embarcação revestida de musgo, que lembrava algo saído de Júlio Verne com um toque de Huck Finn, tripulada pelos membros do programa "Jackass".

"Nós começamos a discutir uns com os outros e a dizer: 'Ei, você está fazendo isto errado'", disse Bushnell, que é dono de uma loja de bicicletas em Providence, Rhode Island. "E então percebemos que não há forma certa de fazer isto". Ele acrescentou de forma rabugenta: "Eu basicamente andei por estas águas por três dias de cueca".

A última grande obra de Riley foi uma taverna improvisada ilegal construída no ano passado em um pedaço de terra perto de Rockaway Inlet, em Queens, que no início dos anos 1900 era uma espécie de território do Velho Oeste, com saloons e lutas de boxe. Tal projeto também foi prematuramente encerrado pela polícia, que chegou à noite com cães de guarda e dispersou a maioria dos amigos de Riley. Com o submarino, que ele lançou em uma viagem teste até o Queen Mary 2 que teve vida curta, em julho, Riley disse que sabia que a performance real provavelmente terminaria com uma prisão. Ou com seu naufrágio.

"Eu não sou realmente um sujeito muito técnico", ele disse, sentado sem camisa no píer na quinta-feira, com várias coisas verdes da água ainda grudadas em seus braços. "Eu apenas imaginei muito disto". Ao ser perguntado como ele planejava voltar à costa depois que a maré o levasse até o navio, ele sorriu. "Eu realmente não tinha pensado nisso", disse.

Na tarde de sexta-feira, enquanto ele, Bushnell e Cushing eram levados sob custódia ainda molhados, os marchands de Riley, Alberto Magnan e Dara Metz, disseram que planejam expor o submarino em breve na galeria deles em Chelsea. E pagar a fiança de Riley, se necessário. "O primo da minha esposa é advogado", disse Magnan.

Enquanto falava, um dos policiais corpulentos que estava na proa do barco da patrulha portuária riu e, apontando para o submarino de madeira abaixo dele, disse: "O que vamos fazer com esta coisa? Parece o Turtle!" George El Khouri Andolfato

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