UOL Notícias Internacional
 

05/08/2007

Britânicos em província afegã conseguem avanços iniciais contra o Taleban

The New York Times
Carlotta Gall

Em Sangin, Afeganistão
A base do exército britânico daqui fica em uma ex-quinta de um senhor das drogas, com sacos de areia nas janelas e postos de observação e muros marcados por estilhaços. Ela é um lembrete de que até poucas semanas atrás, Sangin era uma das cidades mais perigosas na província mais perigosa no Afeganistão, Helmand.

Desde a chegada delas no segundo trimestre a esta região sem lei de montanhas e deserto, as tropas britânicas perderam 64 homens em combates quase diários contra uma força do Taleban sem igual em tamanho e ferocidade no país. Os rebeldes ainda controlam metade da província, a ameaça mais séria à estabilidade no Afeganistão.

Mas apesar da presença de milhares de combatentes do Taleban, e da dura luta ainda à frente, os comandantes militares daqui dizem acreditar que conseguiram um avanço significativo. Nos últimos meses eles conseguiram fazer o Taleban recuar e mantê-lo de fora de algumas poucas áreas estratégicas. Ao mesmo tempo, eles disseram, o apoio popular aos rebeldes está ruindo.

"Agora nós vemos como uma ameaça que pode ser enfrentada", disse o major Hamish Bell, segundo em comando do batalhão britânico enviado para o norte de Helmand, sobre a insurreição.

O progresso em Helmand talvez seja o mais importante em todo o país, disseram comandantes militares, dado que a província tem a maior concentração de rebeldes e produz 42% do ópio afegão, que ajuda a alimentar a insurreição. Se puderem limpar Helmand, eles disseram, isto poderia abrir o caminho para um maior progresso contra o Taleban.

Mas apesar de Helmand mostrar o que é possível no Afeganistão, comandantes alertam que ainda resta uma luta longa e árdua para reconquistar o território do Taleban, região por região, aldeia por aldeia, e o sucesso não é certo. Em quase seis anos de guerra, um terço das províncias do Afeganistão está nas mãos de rebeldes, uma situação muito pior do que entre 2002 e 2005, os anos imediatamente após a invasão liderada pelos Estados Unidos, quando o Taleban foi derrubado e forçado a recuar e cruzar a fronteira com o Paquistão.

Províncias como Helmand, distantes da capital e relativamente calmas, eram protegidas apenas com uma leve presença militar americana, o que as deixou vulneráveis quando o Taleban decidiu voltar.

Em outras províncias do sul, Kandahar e Uruzgan, a presença do Taleban permaneceu forte. Combater o Taleban é como pressionar mercúrio ou apertar um balão, disseram os comandantes: quando os rebeldes são suprimidos em uma área, eles despontam em outra.

E quando pressionados por combate convencional, o Taleban muda de tática e passa para ataques suicidas, bombas de estrada e seqüestros. Em uma medida dos riscos presentes aqui, no começo de julho o filho de 14 anos do chefe de polícia de Sangin foi seqüestrado em uma estrada fora da cidade e posteriormente morto.

Mas os comandantes militares dizem que o progresso em Helmand é uma indicação de que as forças da Otan acertaram seu passo desde o ano passado, quando o Taleban promoveu um ressurgimento espetacular, tirando proveito da transferência das províncias dos comandantes americanos para a força da Otan.

À medida que as forças da Otan se estabeleceram e se tornaram mais numerosas no sul do Afeganistão, as forças americanas foram capazes de enviar mais tropas para o leste. Lá, elas também informaram progressos em algumas áreas de fronteira. Tudo isto ajudou as forças da Otan a realizarem uma ofensiva contra o Taleban, em vez de lutar na defensiva, como foram obrigadas a fazer no ano passado, e conquistar a confiança da população local.

"Eu não acho que o Taleban voltará", disse Abdul Rahman, um paramédico de 45 anos, a única pessoa qualificada trabalhando em uma pequena clínica privada daqui. "Ele foi enfraquecido." Segundo ele, as pessoas também não apóiam mais o Taleban.

O que fez a diferença aqui, disseram os britânicos, foi a mudança de suas táticas e o dobrar do número de soldados, para quase 6 mil atualmente, com mais soldados a caminho.

Quando os soldados pára-quedistas britânicos chegaram a Helmand, o presidente Hamid Karzai pediu que o foco fosse salvar os pequenos centros distritais de caírem nas mãos do Taleban, tão grave era a ameaça dos rebeldes. Cercados e isolados, os britânicos eram atacados até sete vezes por dia. Eles usaram fogo de artilharia para limpar uma área apenas para que os helicópteros de suprimentos pudessem pousar.

Ao longo do inverno afegão, os britânicos posicionaram unidades móveis de fuzileiros para obrigar o Taleban a recuar das bases distritais sitiadas e para fora dos centros das cidades. Na primavera e verão, eles realizaram operações de varredura, com a ajuda de soldados americanos, afegãos e pequenas unidades dinamarquesas e estonianas.

Em maio, eles conseguiram expulsar o Taleban da área de Sangin. Com três companhias no vale, eles conseguiram impedir as tentativas dos

"Ainda não acabou, mas os indícios são de que o aumento de soldados e a mentalidade mais ofensiva foi bem-sucedida", disse o major Dominic Biddick,32 anos, comandante da Companhia A do Regimento Real Inglês, agora baseado em Sangin. A base britânica, antes virtualmente sob sítio, não recebe um tiro há um mês, ele disse.

Os britânicos agora conseguiram se focar em seu plano original de contra-insurreição, que visava criar "inkblots" (borrões de tinta), ou zonas seguras, ao redor das principais cidades e gradualmente expandir a segurança para fora. Desta forma, eles estão iniciando projetos de reconstrução na capital provincial, Lashkar Gah, na cidade de Gereshk, que fica na estrada principal, e agora em Sangin.

Localizada estrategicamente, Sangin, uma rica cidade agrícola às margens do Rio Helmand, comanda o acesso ao norte, onde grande parte do Taleban está concentrado, e até a usina hidrelétrica em Kajaki, um grande projeto americano de desenvolvimento.

A ameaça do Taleban permanece mesmo nestas zonas seguras. Mas o tenente-coronel Stuart Carver, que comanda o Grupo de Batalha do Norte,
disse: "Não há grupos grandes de 50 talebans perambulando pelas cidades e tomando grande parte delas."

A forte presença de segurança britânica e afegã em Sangin pela primeira vez encorajou os afegãos locais a fornecerem informações sobre os movimentos do Taleban.

Neste ano, o Taleban perdeu terreno e homens, incluindo alguns comandantes de alto nível, e está tendo dificuldade para encontrar recrutas junto à população local, disse Carver.

Oficiais da Otan dividem o Taleban em dois tipos de combatentes. A primeira faixa, como são chamados, é composta de homens calejados e movidos ideologicamente que voltaram ao combate saídos de sua base de retaguarda no Paquistão. A segunda faixa é composta de homens locais que podem ingressar na batalha por uma série de razões -econômicas, tribais ou religiosas.

"A maior diferença entre este ano e o ano passado é que agora não há mobilização da segunda faixa", disse Carver. "Eles tentaram", ele disse sobre o Taleban.

Ainda assim, disseram oficiais militares, o Taleban parece nunca ter escassez de homens. Eles completam suas fileiras com combatentes estrangeiros, principalmente paquistaneses, mas também um punhado de árabes e tchetchenos, assim como afegãos de outras províncias, como a vizinha Uruzgan.

Os militares encontraram carteiras de identidade paquistanesas nos combatentes mortos, assim como papéis e CDs com propaganda jihadista em tchetcheno e árabe, disse um oficial. Um grande grupo de homens da área tribal paquistanesa do Waziristão foi morto em uma batalha, disse Carver.

Mas o enfraquecimento do Taleban é aparente até mesmo para os moradores locais, como Hayatullah, um agricultor de 29 anos que fugiu do norte de Helmand no ano passado e atualmente vive perto da principal base britânica, Bastian, na região central de Helmand.

"O Taleban não é mais forte", ele disse. "Se estivesse forte, ele viria combater os britânicos aqui."

Sangin, que era uma cidade fantasma há três meses, está voltando com
dificuldade à vida. Lojas reabriram, apesar de outras estarem em ruínas, e a hostilidade silenciosa inicial em relação aos soldados estrangeiros está começando a ceder.

Alguns poucos anciãos tribais pediram ajuda aos militares na limpeza dos canais de irrigação. Médicos militares afegãos, americanos e britânicos ofereceram dois dias de consultas gratuitas em meados de julho e receberam centenas de pessoas, incluindo dezenas de mulheres e crianças. Isto foi um passo positivo para a aceitação, disse Biddick.

Ele e outros comandantes esperam que a situação continue melhorando.

"Eu acho que a grande batalha era pelo apoio local", disse Carver. "Uma
parte dos moradores locais agora acredita que realmente continuaremos aqui e portanto está preparada para apostar em nós. Antes, eles achavam que chegaríamos, mataríamos alguns poucos talebans e então partiríamos."

"Antes eram pessoas assustadas demais até mesmo para olharem para você ou acenarem caso alguém estivesse olhando, mas agora até conversam", ele acrescentou. "É um passo à frente eles conversarem conosco e um verdadeiro passo conversarem conosco para ver se podemos solucionar seus problemas."

Mas após um ano e meio de combates intensos, nem todos os moradores locais foram persuadidos. "Nós não esperamos um bom governo, apenas derramamento de sangue", disse Haji Mullah Fida Muhammad, um ancião com barba branca. Ele acha que o Taleban ainda é forte o bastante para reconquistar a cidade. Outros esperam que eles tentarão de novo.

"O Taleban está lá fora, então esperamos mais combates", disse Haji Mullah Salim, 55 anos, um vendedor de tecidos. Ele voltou para abrir sua loja, mas sua família ainda está acampada no deserto por segurança, ele disse.

Ainda há conversa sobre uma ofensiva do Taleban, mas os comandantes da Otan estão mantendo a pressão sobre os rebeldes e dizem que o perigo agora está na mudança de tática do Taleban, para atentados suicidas e bombas de estrada. As táticas de guerrilha são bastante ameaçadoras e também podem minar o apoio local, como pode atestar o chefe de polícia local, Haji Ghulam Wali.

Foi seu filho que foi retirado de um táxi e seqüestrado por rebeldes na
estrada que liga Sangin à capital provincial. O comandante do Taleban, Tor Jan, intimou Wali ao telefone para que deixasse seu cargo para salvar seu filho.

Quando ele se recusou, eles amarraram os pés e mãos do filho com uma
corrente e o entregaram morto, crivado de 20 balas. Então, em meados de
julho, uma bomba foi detonada em uma carrocinha de um menino enquanto o
carro do chefe de polícia passava pelo mercado da cidade, matando quatro pessoas, incluindo o menino.

"Eles cometeram um crime terrível", disse Wali sobre a morte de seu filho. "O Islã não permite tal crueldade."

Mesmo assim, ele disse, a cidade está mais segura. O Taleban, ele insistiu, "perdeu a moral, está fraco agora. Antes não podíamos ir ao mercado, mas agora são eles que estão escondidos e não podem ir ao mercado".

Ele, assim como várias autoridades afegãs entrevistadas na província, pediu aos britânicos para aproveitarem sua vantagem e acabarem com o Taleban enquanto os rebeldes estão em baixa.

Cientes da facilidade com que o Taleban pode se reinfiltrar nas áreas, os britânicos estão avançando com cuidado. Os comandantes britânicos disseram que o trabalho agora é consolidar o controle de Sangin e Gereshk, em vez de caçar o Taleban em seus redutos.

"Nós poderíamos limpar o restante da área, mas o risco é removermos o
Taleban e deixar um vácuo", disse Biddick, o comandante britânico em Sangin. O governo afegão também precisa enviar mais soldados e policiais para preencher o vácuo, ele acrescentou.

"Estas são as condições estabelecidas para 12 meses, mas o Afeganistão será medido em décadas, não em anos", disse o major. "Nós sabemos que isto é apenas a ponta do iceberg." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host