UOL Notícias Internacional
 

05/08/2007

Uma amizade tão grande que sufoca

The New York Times
Jessie Sholl*
Começou como muitos outros romances: uma apresentação numa festa. Ela e eu escorregamos rapidamente para um papo gostoso, passando da mesa de comidas para o bar e para o sofá, sorrindo e gargalhando, as faíscas entre nós quase visíveis. Qualquer um podia perceber que estávamos nos apaixonando. Só havia um detalhe: nenhuma de nós era lésbica.

Eu sempre fiquei fascinada pelas pessoas que me fazem rir. Desta vez, porém, não era tanto o fato de ela ser muito engraçada. Tinha algo a ver com nós duas juntas.

Havia uma química -uma química que criou um ninho apertado à nossa volta e deixou todos os outros de fora. No final da noite, tínhamos incomodado quase todos os outros presentes. Foi o início de nosso caso de amor platônico.

As duas na faixa dos 20 anos e relativamente novas em San Francisco, ela e eu logo entramos na fase do "nós". Telefonávamos para perguntar: "O que vamos fazer neste fim de semana?", e nunca: "O que você vai fazer?" Ela se tornou meu par permanente em festas e baladas, minha parceira substituta, e eu a dela.

No Natal, quando as duas estávamos sem dinheiro para pegar um avião e visitar nossas famílias, comemoramos juntas, bebendo champanhe barata e comendo frango com curry que ela me ensinou a fazer. Ela me deu vestidos de brechó embrulhados em papel que ela mesma havia pintado, e eu lhe dei material de pintura para os intricados desenhos pontilistas que estava fazendo.

Nosso caso de amor superou até minha mudança para Nova York para fazer faculdade, três anos depois de nos conhecermos. Nos visitávamos sempre que possível e nos telefonávamos constantemente; num Dia de Ação de Graças conversamos durante três ou quatro horas, as duas comendo sanduíches de peru.

Em termos de homens, estávamos sempre procurando, mas na verdade não estávamos atrás de namorados. Procurávamos anedotas para trazer de volta ao ninho e oferecer uma à outra, como alimento: ele beija como um gatinho lambendo leite; a estante dele está cheia de novelas românticas; ele se recusa a tirar o chapéu de caubói até para transar.

Pensando bem, é chocante que alguém quisesse sair conosco quando estávamos tão claramente envolvidas.

"Mais próximas que irmãs", costumávamos dizer. Durante cinco anos ela e eu estivemos como que apaixonadas, mais que melhores amigas. E então, de repente, acabou.

Ela foi convidada para uma turnê com uma banda de rock na Europa e me perguntou se eu queria encontrá-la em Praga, cidade que tínhamos combinado de conhecer juntas anos antes, ao ver fotos da viagem de uma amiga. É claro que eu disse sim.

Assisti a todas as apresentações, aplaudindo orgulhosamente minha amiga. Então, na terceira e última noite (eu partiria na manhã seguinte para Paris, onde tinha planos, e ela seguiria para a próxima etapa da turnê), sentei-me por acaso ao lado de um americano, e no intervalo começamos a conversar. Acontece que David morava em San Francisco, perto da rua onde eu tinha morado, e estava passando o verão em Praga.

Perguntei se conhecia algum clube para dançar, e ele passou cinco minutos desenhando num guardanapo um mapa dos melhores lugares. Depois do show, minha amiga saiu dos camarins e eu convidei David para nos acompanhar, pensando que pelo menos assim não nos perderíamos na cidade.

Infelizmente, nenhum clube estava aberto, então David nos levou ao Chapeau Rouge, um bar agitado, cheio de estrangeiros. Não havia pista de dança. Mas ela e eu abrimos espaço no meio do bar, usando toda a nossa capacidade de chocar, fazendo caras-e-bocas de modelos e sacudindo exageradamente o corpo, como nos clipes dos anos 80 que gostávamos de imitar.

David, surpreendentemente, não pareceu envergonhado. Ele sorriu, riu e até ergueu o copo, nos brindando em checo: "Na zdravi".

Pouco depois, quando ela saiu para tomar um ar, David me perguntou há quanto tempo nós duas estávamos juntas.

Eu quase engasguei com a cerveja. "Oh, não, somos apenas amigas."

"Espero não ter ofendido", ele disse.

"Não, imagine", eu respondi, e nesse exato momento comecei a notar que David era bem bonito.

E charmoso. Enquanto ela ficou lá fora conversando, David me falou sobre Praga. Conversamos sobre literatura e sobre os filmes de humor negro de que nós dois gostávamos; ele me fez rir. Nossas banquetas no bar lentamente se inclinaram uma para a outra.

Minha amiga, exausta com a apresentação, disse que queria voltar para o hotel. Quando saímos do bar, eu disfarçadamente coloquei minha mão na de David e disse a ela que achava que ia ficar mais um pouco na rua.

Horas depois, quando David e eu voltamos ao hotel para pegar minha mala -ele ia me acompanhar até a estação-, pensei que não queria contar a ela sobre nosso primeiro beijo; não queria reduzi-lo a mais uma fofoca engraçada. Pela primeira vez eu voltava de um encontro para nosso ninho de mãos vazias. O que ela iria pensar? Mas eu não precisava ter-me preocupado; ela mal acordou para se despedir.

Quando meus planos em Paris não deram certo, voltei alegremente para Praga, onde David e eu passamos três dias escondidos em salões de chá onde se precisava puxar uma corda de seda para poder entrar, vagando pelo enorme castelo medieval e nos fartando de "goulash", com alguns goles de absinto como sobremesa.

E tomamos uma decisão: como eu tinha terminado a escola e estava louca por uma mudança, voltaria para San Francisco, pelo menos até ele terminar a faculdade, quando faríamos novos planos. Seria perfeito. Eu ia morar na mesma cidade que meu novo namorado e minha melhor amiga.

Agora pecebo como isso foi ingênuo. Mas acho que em certo nível eu já sabia na época, pois alguns dias depois de minha volta a San Francisco ela e eu chegamos a um entendimento mudo: era melhor eu não mencionar David.

Mas algumas semanas depois, enquanto tomávamos café, deixei escapar: "Estou com saudades de David".

Ela me olhou como se eu estivesse louca: "Mas você não esteve com ele hoje de manhã?"

"Sim, mas...", eu comecei, então mudei de assunto.

Não demorou para que David e eu fôssemos morar juntos. Certa noite, quando eu sabia que ele ia trabalhar até mais tarde, convidei minha amiga para jantar. Ela parecia abatida. Sugeri que fizesse mais testes, talvez uma nova fita demo com a voz mais trabalhada. Disse que podia lhe emprestar dinheiro para novas fotos. O macarrão que eu tinha preparado esfriou enquanto eu planejava a vida dela, ou o que eu achava que deveria ser.

Antes de David, ela não teria se incomodado com meus conselhos; afinal, era o tipo de conversa animadora que sempre tínhamos. Mas é claro que dessa vez tudo havia mudado, e em vez de parecer uma grande amiga simpática e prestativa eu soava mandona e agressiva.

"Chega", ela disse finalmente. "Já entendi."

O próximo encontro que tivemos foi em nosso restaurante de sushi preferido, e ela mencionou uma amiga que tinha começado a namorar um cara e desaparecera; muitas vezes tínhamos falado que detestávamos as mulheres que fazem isso. E então ela disse: "Foi o que você fez. Desapareceu".

Pensei em tudo o que eu tinha feito para impedir que isso acontecesse, mas não havia como negar que uma parte de mim tinha desaparecido, a parte que estava apaixonada por David, que eu escondera porque sentia que ela não queria ouvir falar no assunto. Eu quisera muito compartilhar tudo isso com minha melhor amiga, mas sabia que não podia, então guardei para mim.

De repente não agüentei mais: "Você tem idéia da pressão que está fazendo contra mim?"

Ela fez uma pausa, revirando o sushi, e disse: "Não. Que pressão?"

"Eu nem posso mencionar o nome dele perto de você!"

Ela riu. "Está brincando? Você só fala nele!"

Nossa conversa seguiu vacilante depois disso -a certa altura eu disse que gostaria que ela ficasse feliz por mim, e ela recebeu como uma ofensa, mas não sabia explicar por quê. Foi assim: depois de anos encantadas com nossa amizade única, depois de anos usando nossa intimidade para manter os outros afastados, não podíamos nem falar com franqueza sobre o que realmente sentíamos. Não sabíamos como.

Ao nos despedirmos lá fora, ela disse que foi bom termos aliviado a tensão. Eu concordei entusiasticamente, mas nossas palavras pareceram ocas, falsas, como algo que diríamos para um cara antes de correr para o apartamento da outra com uma nova anedota muito divertida na ponta da língua.

Vinte e quatro horas depois, ela rompeu comigo. Sua voz estava trêmula no telefone quando me disse que não queria mais ser minha amiga. Embora eu devesse ter adivinhado, fiquei tão surpresa que não consegui sentir tristeza, nem raiva. Mal consegui perguntar por quê.

"Você espera demais de mim", ela disse como explicação. "Como se eu fosse da sua família."

A implosão de um amor platônico não é menos devastadora do que a de um amor verdadeiro. Eu chorei, emagreci, não conseguia dormir. Meu coração, ou pelo menos uma área vizinha, doía. Eu sabia que aquilo sobre eu tratá-la como alguém da família era apenas uma desculpa. Afinal, não era isso o que sempre havíamos dito, que éramos mais próximas que irmãs?

Afinal, foi proximidade demais. Tínhamos criado um ninho tão apertado, tão sufocante, que não havia espaço para mais ninguém; mal havia espaço para cada uma de nós respirar. É claro que um amor platônico não precisa ser assim, e com muitas amizades próximas não é. Mas no nosso caso foi.

Uma coisa eu aprendi dos nossos tempos de colecionadoras de anedotas, e ela também: é melhor ir embora do que ser deixada para trás. Acho que foi por isso que ela agiu assim naquele momento. Porque sabia a simples verdade, mesmo que eu não soubesse, ou talvez ainda não conseguisse admitir para mim mesma: eu precisava fazer uma escolha. E já tinha feito.

*Jessie Sholl é escritora e vive em Nova York Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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