UOL Notícias Internacional
 

06/08/2007

Uma fantasia para aqueles que não gostam de fantasias

The New York Times
Charles McGrath
O livro de Neil Gaiman, "Stardust", no qual se baseia o filme "Stardust - O Mistério da Estrela" ("Stardust", EUA/Inglaterra, 2007) que estréia nos cinemas no dia 10 de agosto, é uma espécie de anomalia entre os trabalhos que fizeram de Gaiman uma lenda no universo das histórias em quadrinhos.

Para início de conversa, embora tenha sido originalmente lançado em quatro episódios pela DC Comics em 1997, "Stardust" nunca foi uma série de quadrinhos com ilustrações e diálogos, como, digamos, o famoso "Sandman" do autor. Na sua primeira versão, foi um livro de prosa com ilustrações semelhantes às de Arthur Rackham feitas por Charles Vess, e que só foi lançado no formato dos quadrinhos porque as editoras tradicionais não se mostraram dispostas a investir tanto na impressão colorida.

"Stardust (Ser um Romance No Reino das Fadas)" foi posteriormente relançado como livro de capa dura e brochura, e em 1999 foi publicada na versão que continha apenas texto, sem as ilustrações de Vess.

Passado em dois mundos paralelos, uma estranha vila vitoriana chamada Wall e o fantástico reino de Stormhold, e com uma trama que envolve tanto uma bruxa quanto um grupo de príncipes assassinos que buscam um meteorito caído que é na verdade uma mulher jovem, "Stardust" é também escrito em um estilo conscientemente tradicional.

Gaiman o escreveu em cursivo, usando uma caneta-tinteiro e um caderno com capa de couro, desse ele recentemente em Nova York, e o resultado foi que eliminou "muita inutilidade de informática". O seu objetivo foi evocar o gênero usado por escritores do início do século 20 como Lord Dunsany e Hope Mirlees, que escreveram histórias de fantasia que foram algumas vezes chamadas de "contos de fadas".

"Na primeira metade do século 20 não havia uma distinção de gênero", conta ele. "As pessoas que escreviam fantasias eram apenas romancistas. Hope Mirrlees, por exemplo, era amiga de Virginia Woolf e de T.S. Eliot. Neste país havia alguém como James Branch Cabell, que era uma figura muito distinta. Não existia a idéia de que a fantasia fosse, de alguma forma, menos respeitável. Então, em meados do século, surge Tolkien, que no início não foi também rotulado de escritor de fantasia. Mas no início da década de 1970 "O Senhor dos Anéis" era venerado, e a obra estimulou o surgimento de um gênero inteiro, com as suas expectativas distintas".

Em outras palavras, "Stardust" tinha como objetivo ser uma obra pré-Tolkieniana, um romance de fantasia que não parecesse se enquadrar nesta categoria, e a equipe de criação do filme - o diretor, Matthew Vaughn, e a roteirista, Jane Goldman - tentaram fazer o mesmo: um filme de fantasia que pudesse ser visto não apenas pelos fãs de "O Senhor dos Anéis", ou mesmo pelos fiéis adoradores da obras de Gaiman, mas também por aqueles indivíduos que não morrem de amores pelos filmes de fantasia.

Sob vários aspectos, Goldman e Vaughn não pareciam ser as escolhas prováveis para o filme - que conta com astros como Claire Danes, Michelle Pfeiffer e Robert De Niro - especialmente ao se levar em conta que Gaiman é conhecido pelas suas reservas quando se trata de transformar o seu trabalho em filme. A forma como ele geralmente trabalha - desenvolvendo uma narrativa gráfica quadro a quadro e a seguir passando as instruções para um artista - é, segundo Gaiman, o mais próximo que se pode chegar do cinema, sem de fato se fazer um filme.

"O que eu faço é semelhante a ser ao mesmo tempo o roteirista, o diretor e o editor", explicou Gaiman. "O artista gráfico equivale ao cinegrafista e aos atores". Gaiman fez também um filme de verdade, "Um Pequeno Filme Sobre John Bolton" ("A Short Film About John Bolton", Inglaterra, 2002), um documentário sobre "o outro" John Bolton: o artista de fantasia, e não o embaixador dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU).

Goldman, por outro lado, nunca havia escrito um roteiro cinematográfico antes e é mais bem conhecida por ter elaborado um guia para o "X Files" e por ter sido a apresentadora de uma série britânica de televisão sobre fenômenos paranormais.

Vaughn dirigiu apenas um outro filme, "Nem Tudo é o Que Parece" ("Layer Cake", Inglaterra, 2004), e é mais conhecido como o produtor dos filmes de Guy Ritchie sobre ladrões, "Snatch - Porcos e Diamantes" ("Snatch", EUA, 2000) e "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes", ("Lock, Stock and Two Smoking Barrels", Inglaterra, 1998). Alguns dos filmes mais recentes de Ritchie, feitos sem Vaughn, sugerem que as contribuições do produtor podem ter consistido em bem mais do que preencher cheques, mas o principal fator que fez com que Gaiman escolhesse Vaughn foi o fato de achá-lo confiável.

Segundo Gaiman, a sua primeira escolha foi Terry Gilliam, mas Gilliam, tendo feito "Os Irmãos Grimm" ("The Brothers Grimm", EUA, 2005), queria ficar um tempo longe dos contos de fadas, de forma que Gaiman teve que dar uma chance a Vaughn. "Simplesmente não se faz tal coisa, não se jogam fora opções gratuitas", explicou Gaiman. "Dizer que os produtores de Hollywood não são confiáveis é como afirmar que leões não são vegetarianos. Mas Matthew sempre honrou a sua palavra, e eu de fato confio nele".

Ao telefone, pelo menos, Vaughn soa como um daqueles jogadores de cartas trapaceiros e de fala rápida que aparecem nos filmes de Ritchie. "Eu escrevi o roteiro, dirigi e produzi", diz ele, referindo-se a "Stardust", explicando que obteve as verbas de forma independente. "Agreguei a obra toda. Sou muito bom quando se trata de fazer as coisas à minha maneira".

Ele disse que quando conversou com Gaiman já sabia que tinha o filme inteiro na cabeça. "Para mim, uma boa idéia é uma boa idéia", prossegue Vaughn. "Se determinado projeto tem problemas demais, é melhor não fazê-lo. Mas, no caso deste filme, contávamos com uma boa idéia".

A idéia, de forma resumida, era tornar as cenas fantásticas de certa forma mais realistas dos que as vitorianas. "Basicamente, adoro os livros de fantasia, mas queria fazer um filme de fantasia que não fosse, ao mesmo tempo, um filme de fantasia", conta Vaughn. "Repeti para as pessoas: 'Simplesmente ajam de forma normal. Vocês não estão usando fantasias, mas roupas'".

Ele diz ter introduzido deliberadamente toques modernos em Stormhold. Por exemplo, a carruagem na qual os príncipes viajam foram construídas para se parecerem com um veículo Hummer, e as roupas dos príncipes lembram menos os vestuários tradicionais das cortes do que o traje usado por Clint Eastwood em "Por um Punhado de Dólares" ("Per un Pugno di Dollari", Alemanha/Espanha/Itália, 1964). Grande parte das cenas foram filmadas em localidades na Escócia e na Islândia, e o filme utiliza os efeitos especiais de computador de forma bem menos freqüente do que outros filmes do gênero.

"Esse filme é na verdade 'Fuga à Meia-Noite" ("Midnight Run", EUA, 1988)", acrescenta Vaughn, referindo-se ao filme de perseguição policial no qual um caçador de recompensas, interpretado por De Niro, atravessa o país com um criminoso de colarinho branco, Charles Grodin, que é procurado tanto pelos policiais federais quanto pela Máfia, da qual ele roubou US$ 15 milhões. "Yvaine e Tristan", explica ele, referindo-se às estrela caída e ao seu companheiro semi-mortal (Danes e Charlie Cox), "são Charles Grodin e De Niro. O FBI são os príncipes. E as bruxas são a Máfia. Essa foi a minha inspiração. Pensei: 'Vou fazer um filme que seja divertido e dinâmico como 'Midnight Run' e que tenha a aura de 'A Princesa Prometida' ("Princess Bride", EUA, 1987)".

Gaiman explica: "Matthew mostrou-se muito confiante quanto às cenas de aventuras dos garotos na história, mas ele não demonstrou tanta confiança assim quanto ao aspecto romântico, e ficou claro que o filme não poderia ser apenas um 'Jogos, Trapaças e Duas Fadas Fumegantes'". Assim, Gaiman sugeriu Goldman, que ele conhece há vários anos, e que o encorajou quando o autor escrevia o seu primeiro livro, "Dreamland". De acordo com Vaughn e Goldman, os dois entenderam tudo imediatamente e concordaram quanto às idéias a respeito de como o filme deveria ser estruturado.

A narrativa é curta, com apenas cerca de 50 mil palavras, e vagarosa. O protagonista só nasce no segundo capítulo, e a trama caminha nem tanto para um clímax tradicional, mas para uma série de quase fracassos. O roteiro cinematográfico ao mesmo tempo comprime e expande a história.

Por exemplo, Goldman e Vaughn expandiram o papel da bruxa perseguidora, interpretada por Pfeiffer, que de forma mágica alterna a sua aparência de uma velha encarquilhada para uma bela loura ("Se tivéssemos mais dinheiro poderíamos ter feito coisas ainda mais horríveis e divertidas na área do envelhecimento", diz Vaughn. "Eu tenho um livro de fotos de mulheres de 90 anos, e ele é mais assustador do que qualquer filme de terror que já assisti").

Eles também ampliaram algumas passagens do livro, sobre uma jornada que Tristan e Yvaine fazem a bordo de um navio pirata voador que coleta raios, em um idílio naval de transformação, no qual Tristan cresce, apaixona-se e adquire um guarda-roupas e apetrechos para penteados sob os cuidados de um capitão pirata (De Niro), que, ainda que não seja gay, gosta de vestir-se elegantemente na privacidade da sua cabine.

"Não sei de onde saiu aquilo", disse Goldman em uma entrevista por telefone. "Foi simplesmente um daqueles momentos mágicos. Matthew e eu estávamos pensando que poderia ser interessante se o capitão de alguma maneira lidasse com questões relativas à identidade, da mesma forma que Tristan".

O fato de astros da magnitude de Pfeiffer e De Niro aparecerem na história, que gira em torno do poder dos astros, embora de um tipo totalmente diferente, foi algo que Gaiman jamais antecipou.

"Quando imaginei o elenco, sonhei com Alec Guinness fazendo todos os papéis", diz ele. "Fiquei surpreso quando quando percebi o que acabou ocorrendo. Houve coisas quanto às quais discordei, e acabei perdendo, mas os fatos comprovaram que Matthew estava certo quanto a elas. Quando você olha para a obra, todas as pistas subliminares que indicam ao expectador que ele está assistindo a um filme de fantasia não estão presentes. É como assistir a um filme histórico ligeiramente distorcido". UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host