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07/08/2007

Tradição é obstáculo para carreira das trabalhadoras japonesas

The New York Times
Martin Fackler
Em Tóquio
Yukako Kurose ingressou na força de trabalho em 1986, um ano após o Japão aprovar a primeira lei de igualdade de oportunidades trabalhistas para homens e mulheres. Assim como outras jovens mulheres que aspiravam a uma carreira, ela esperava que a lei lhe abrisse as portas. Mas a sua carreira promissora no departamento de uma loja terminou 15 anos atrás, quando nasceu a sua filha.

Ela foi preterida para as promoções depois que passou a deixar o trabalho todos os dias antes das 18h30 para pegar a filha na creche. Depois disso, foi empurrada para uma função administrativa que era um beco sem saída em termos de ascensão funcional. Finalmente, ela pediu demissão.

"As tradições trabalhistas japonesas fazem com que seja quase impossível para as mulheres ter uma família e uma carreira", afirma Kurose, 45, que atualmente trabalha para uma companhia de poliéster.

Ko Sasaki/The New York Times 
Yukako Kurose teve a carreira profissional interrompida com o nascimento de sua filha

Desde a aprovação da Lei de Oportunidades Iguais no Emprego, aprovada em 1985, passou a ser comum ver mulheres trabalhando nas linhas de produção das fábricas, em canteiros de obras e ao volante de táxis. Mas elas tiveram muito menos sucesso no que se refere a alcançar posições de autoridade, que continuam sendo um privilégio dos homens de terno.

Em 1985, as mulheres ocupavam apenas 6,6% de todos os cargos gerenciais nas companhias e no governo japoneses, segundo a Organização Internacional do Trabalho, uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU). Por volta de 2005, esse número havia aumentado para apenas 10,1%, apesar do fato de 27 milhões de mulheres trabalhadoras no Japão serem responsáveis por quase a metade da força de trabalho. Já nos Estados Unidos, segundo a organização, as mulheres detinham 42,5% dos cargos gerenciais em 2005.

Os especialistas em questões relativas às mulheres afirmam que a discriminação ostensiva é apenas parte do problema do Japão. Uma barreira ainda maior para o avanço das mulheres é a notoriamente exigente cultura corporativa do país, particularmente no que se refere à expectativa de que os funcionários submetam-se a jornadas de trabalho que começam de manhã e só terminam à meia-noite.

As estatísticas governamentais revelam que muitas mulheres abandonam a trajetória gerencial nos seus empregos aos vinte e tantos e trinta e poucos anos de idade e começam a ter filhos. À medida que o índice de natalidade no Japão cai rapidamente e a população envelhece, aumentam os temores de que o país não possa se dar ao luxo de perder tamanho potencial.

"Se a expectativa for de uma jornada de trabalho de 15 horas diárias, a maioria das mulheres desistirá", afirma Kuniko Inoguchi, um ex-ministro que lidava com a questão da igualdade dos sexos. "O Japão está perdendo metade da sua capacidade intelectual no momento em que enfrenta carência de mão-de-obra".

Mesmo com os casos flagrantes de discriminação, as ações na Justiça são raras devido a uma profunda aversão cultural ao litígio. Um outro grande problema tem sido o fato de a lei de oportunidades iguais ser praticamente inócua. Apesar de duas revisões, a lei não prevê nenhuma punição real para as companhias que continuam discriminando. No máximo, o que o Ministério do Trabalho pode fazer é ameaçar publicar os nomes dos violadores, e o ministério nunca fez tal coisa.

Como resultado, o Japão está entre os países ricos nos quais há maior desigualdade entre os sexos, segundo a "medida de poder dos sexos" do Programa de Desenvolvimento da ONU, um índice da participação feminina na economia e na política das nações. O país ficou em 42° lugar entre as 75 nações avaliadas em 2006 - imediatamente acima da Macedônia, e bem abaixo de outros países desenvolvidos, como os Estados Unidos, que ficou em 12° lugar, e a Noruega, que ocupa o primeiro lugar.

"É uma situação patética", critica Kumiko Morizane, vice-diretor da divisão de igualdade no emprego do Ministério do Trabalho do Japão. "Até mesmo no Paquistão, onde as mulheres cobrem as faces, eles tiveram uma mulher primeira-ministra".

Mas o ritmo dolorosamente lento das mudanças é um reflexo de atitudes sociais profundamente enraizadas quanto aos papéis dos sexos.

Takado Ariishi, 36, conheceu uma versão radical desse fenômeno ao crescer como a única filha do presidente da Daiya Seiki, a pequena fábrica da sua família que fornece peças para a Nissan.

No início, o seu pai, desapontado, cortou o cabelo dela como o de um garoto e proibiu que ela brincasse com bonecas. Quando ela teve o primeiro filho, dez anos atrás, o pai a despediu da companhia e nomeou como seu sucessor o neto recém-nascido.

Mesmo assim, Ariishi assumiu o cargo de presidente três anos atrás, após a morte do pai (o filho dela era ainda muito novo). Ela afirma ser a única mulher em um grupo de cerca de 160 diretores de empresas fornecedoras da Nissan. A primeira vez em que Ariishi participou das reuniões bianuais do grupo, pediram que ela aguardasse em uma sala junto com as secretárias. "Ainda tenho que provar o tempo todo que uma mulher pode ser presidente", lamenta Ariishi, uma engenheira que no seu escritório usa o mesmo uniforme azul unissex dos operários.

Ariishi conta que vai para casa todas as noites às 19h para colocar o filho na cama, mas que depois disso retorna ao escritório.

O peso de jornadas de trabalho tão longas faz com que a maioria das mulheres que desejam seguir uma carreira desista antes de alcançarem um posto gerencial. Midori Ito, presidente do Centro de Ação Pelas Mulheres Trabalhadoras, um grupo de âmbito nacional que dá apoio legal às mulheres trabalhadoras, diz que mais da metade das mulheres que aspiram a uma carreira desiste com pouco mais de 30 anos de idade, e que as que persistem optam por ficar solteiras.

Uma dessas é Miiko Tsuda, 38. Ela diz que devido ao fato de trabalhar até 22h ou 23h todas as noites no escritório de uma operadora de escolas, não teve tempo de pensar em casamento.

Mas, mesmo assim, Tsuda afirma que freqüentemente sente-se discriminada. Ela diz que ganha de 10% a 20% menos que os trabalhadores do sexo masculino da sua idade. Os colegas jovens pedem a ela e às outras mulheres que pressionem os botões dos elevadores para eles e que lhes sirvam chá. Ela relata ainda que apenas cinco dos cerca de 300 funcionários em função gerencial na empresa são mulheres. Há 17 anos, quando ela ingressou na firma, não havia nenhuma mulher gerente.

No entanto, os defensores dos direitos das mulheres dizem que as realidades impostas pelo encolhimento da população japonesa estão vagarosamente obrigando o sistema a mudar. Esses especialistas dizem que a necessidade de encontrar trabalhadores talentosos tem pressionado um pequeno mas crescente número de companhias a se esforçar mais para contratar mulheres como "sogo shoku", ou funcionárias de carreira, com possibilidade de chegarem a cargos de gerência. Alguns analistas estimam que cerca de um quarto das contratações de funcionários de carreira nos últimos anos foi de mulheres.

Algumas companhias estão adotando pequenas medidas para ter mais mulheres gerentes. Desde que deixou a loja em 2002, Kurose chefia a seção de desenvolvimento de diversidade da Teijin, uma fábrica de poliéster situada em Osaka. Ela organiza cursos para o treinamento de mulheres em gerenciamento, estipula metas de contratação e ajuda as mães que retornam da licença-maternidade a encontrar novas funções na companhia.

O progresso é lento. Somente cerca de 50 dentre os aproximadamente 2.000 gerentes da Teijin são mulheres, mas, segundo Kurose, isso representa o triplo do número de mulheres gerentes na época em que foi contratada pela companhia.

Atualmente, os defensores dos direitos da mulher estão começando a argumentar que o Japão precisa promover muito mais medidas deste tipo - não só para o bem das corporações, mas para a sobrevivência do país.

Eles apontam para estudos que indicam que as nações que contam com a maior participação das mulheres na força de trabalho, como os Estados Unidos, na verdade possuem índices de fertilidade mais elevados. Eles dizem que isso se deve ao fato de as mulheres trabalhadoras tenderem a ter filhos mais cedo, enquanto muitas que deixam os empregos para tornarem-se mães só o fazem quando se aproximam dos 40 anos de idade. "Aqui o índice de natalidade está diminuindo devido à falta de igualdade para as mulheres", afirma Inoguchi, o ex-ministro. "O declínio populacional está obrigando as pessoas a mudar de atitude". UOL

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