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07/08/2007
Um plano de aulas para a viagem de Zeus

Jennifer Conlin*

Yannis Behraki/Reuters - 22.dez.1999

Na última primavera americana, a preparação para uma viagem à Grécia em maio não incluiu apenas pesquisas na Internet em busca de vôos baratos, a busca de acomodações confortáveis para uma família de cinco e a verificação dos passaportes das crianças para checar se estavam atualizados (não estavam) - também foi preciso reunir um bom material de leitura.

"Quero que faça uma resenha destes aqui até o final da semana", eu disse a Charles, de 10 anos, ao lhe entregar um livro colorido chamado "Grécia Antiga" e outro intitulado "Mitos Gregos". Para minha filha de 11 anos, Florence, eu dei um livro sobre os deuses gregos. "Quero que você já saiba tudo sobre Hera e Hades quando estivermos prontos para o embarque". Depois me dirigi à minha filha de 15 anos, Harriet, que já estava me olhando de banda. Colocando a "Ilíada" e a "Odisséia" de forma reverente em suas mãos, eu disse: "São os poemas épicos de Homero sobre a Guerra de Tróia. Comece a ler".

Eram férias? Sim. Iríamos visitar Atenas e depois o Peloponeso, uma região que muitos consideram a mais preservada na Grécia, com montes íngremes, charmosas cidades costeiras, belas praias e mais ruínas antigas do que seria possível visitar em uma semana - se bem que a nossa idéia era cumprir esse objetivo. Essa deveria ser uma viagem de fins educativos, com paradas em Olímpia, Micenas, Epidauro e Corinto. Quando voltássemos da Grécia, meus filhos não chegariam apenas com um bronzeado - teriam todo um conhecimento recém-adquirido sobre as diferenças entre deuses e heróis e sobre as origens da democracia grega.

Como pais americanos vivendo na Grã-Bretanha, meu marido, Daniel, e eu inocentemente pensamos que poderíamos evitar todo aquele frenesi competitivo pela admissão em universidades americanas. Mas com os amigos e parentes nos Estados Unidos inscrevendo seus adolescentes em programas de aperfeiçoamento, experiências de imersão cultural e cursos de "afirmação pessoal", também pegamos a mesma febre que estava no ar. Eu me preocupei por achar que estava me transformando num daqueles adultos obcecados, que esquecem seus projetos de verões idílicos de acampamentos com caiaques e à luz de velas e começam a planejar a viagem de suas crianças para serem gerentes de marketing em Mumbai, só para impressionar os responsáveis pelo recrutamento nas principais universidades da Ivy League.

Bem, nem tanto, pelo menos não chegamos a esse ponto.

Mas se a idéia era a de injetar um tanto de história antiga nas mentes de minhas três crianças, porque não fazê-lo numa praia do Mediterrâneo abençoada pelo sol, onde as lições acadêmicas pudessem ter em seu intervalo sessões para pegar "jacaré" nas ondas, e onde um dia de arqueologia pudesse terminar com um prato de peixe fresco e souvlaki num café de frente para o mar?

Foi assim que no começo de maio lá estávamos, na Grécia. "E que lugar melhor para começar nossa viagem do que a Acrópole?", eu disse, conduzindo minha família pela colina íngreme em direção à cidade antiga, menos de uma hora depois de nossa aterrissagem em Atenas. Eu percebia as reações das crianças diante das ruínas. "Maneiro", disse Florence, subitamente encarando o Partenon. "Maneiríssimo", disse Charles, parecido com um personagem dos Flintstones enquanto subia numa rocha que tinha o dobro do tamanho dele.

Pensando que seria bom começar a expandir o vocabulário descritivo das crianças, li para elas o significado de Acrópole, que quer dizer "cidade alta", e lembrando que a origem do local remonta à era Neolítica. Já entediados, Charles e Florence começaram a ouvir Harriet, que lhes contava como Athena, a deusa da guerra, conquistou Atenas derrotando Poseidon, o deus do mar, numa espécie de competição. "Ali está o teatro de Dionísio", ela disse cheia de conhecimentos, pois tinha encerrado um curso de civilização clássica na escola. "Recebeu o mesmo nome do filho de Zeus que, de acordo com o mito, nasceu da coxa do pai". Florence e Charles já estavam encantados.

"Veja como isso está trazendo a civilização clássica até eles", cochichei para o meu marido, antes de perguntar a Harriet o que estava achando da leitura da "Ilíada".

"Eu já conhecia a história do filme `Tróia' com Orlando Bloom e Brad Pitt", ela disse com indiferença. ("Bem, já é um começo", Daniel devolveu o cochicho.) Naquela noite, me dando conta de que as férias de aprendizado obviamente exigiam mais deveres de casa do que os intervalos na praia, eu estabeleci um plano de aulas com os "objetivos do curso" de nossa viagem, na esperança de que isso poderia levar a uma experiência educacional mais edificante para todos nós. E depois, como toda boa mãe exigente, obriguei a família a seguir o planejamento.

Lição número um: Visite os museus, sem se importar com qualquer reação inicial contrária por parte das crianças. Eu sabia que praticamente em cada local do nosso itinerário haveria um museu, e pensei que isso poderia ajudar as crianças a transformar mentalmente o que muitas vezes parecia apenas uma paisagem de rochas numa verdadeira civilização antiga. Funcionou. No museu da Acrópole, Charles ficou fascinado com os fragmentos de frisos do Partenon em exibição - especialmente com uma imagem de Hércules enfrentando diversos monstros. O que nos levou a uma animada discussão em família sobre o destino dos Mármores de Elgin - retirados do Partenon e agora em exibição no Museu Britânico, será que deveriam ou não ser devolvidos a Acrópole? (Depois soubemos que um novo museu da Acrópole, com inauguração prevista para o início de 2008, tem um andar inteiro concebido para as esculturas, na esperança de que os famosos mármores retornem.) No Museu Nacional Arqueológico de Atenas, nós vimos várias peças que foram extraídas em escavações nos sítios que ainda visitaríamos - a máscara de Agamemnon, as adagas de Micenas e jóias da Era de Bronze. Até as crianças reconheceram que visitar esses museus antecipadamente fez com que a visita posterior às ruínas ficasse mais interessante.

E na velha Olímpia, onde os Jogos Olímpicos eram realizados a cada quatro anos, de 776 aC até mais de mil anos depois, por volta do ano 393 dC, em vez de irmos diretamente ao antigo estádio primeiro paramos no museu. É onde existe uma maquete do sítio arqueológico e das galerias, com a exibição de peças como um disco de bronze, parte de um bloco de partida para corridas, medalhas para os vitoriosos e estátuas do Templo de Zeus (para quem os jogos eram dedicados). E tudo isso nos ajudou a ter uma melhor imagem do local que percorreríamos dali a pouco.

Lição número dois: Tente fazer do aprendizado uma experiência divertida, para que as crianças se esqueçam de reclamar. A uma hora de distância de Atenas, na região do Peloponeso, nós visitamos Epidaurus, onde há um anfiteatro do século 4 aC quase que perfeitamente preservado e onde o drama grego ainda é encenado todos os verões. Nós ficamos ali por uma hora observando grupos de estudantes, turistas em excursão e outros visitantes cantando árias, canções pop e temas de comédias musicais no palco circular.

O teatro é famoso pela acústica quase perfeita, e quando você fica ali no meio dele pode ouvir sua própria voz amplificada, como experimentamos ao ter a coragem de apresentar em público nossa versão para "California Dreamin" (claro que sem a Harriet, que estava escondida atrás de uma pilastra). E como todos os outros turistas em Olímpia, nós corremos pela pista de atletismo (embora não estivéssemos nus como era o habitual na velha Olímpia) e tiramos fotos das crianças no local onde a pira olímpica ainda é acesa tanto para os Jogos de Verão como para os de Inverno.

Lição número três: Interrompa o estudo de vez em quando antes que a revolta se espalhe. Numa tarde em Atenas, em vez de visitar ruínas fomos às compras no bairro de Plaka, só para pedestres. As meninas passaram horas escolhendo miçangas soltas numa loja onde era possível montar bijuterias personalizadas, enquanto Charles começava a montar uma coleção de pins das Olimpíadas de Atenas 2004 numa outra loja que ostentava um mapa da Grécia feito de pins olímpicos.

Estávamos em Peloponeso, cujo nome vem de Pelops, que de acordo com a mitologia grega dominou a região após arrebatar sua mulher Hippodamia vencendo o pai dela, o rei Oinomaos, numa corrida de bigas. E por lá nos hospedamos no único resort que encontrei perto de Olímpia, o Aldemar Olympian Village. O gigantesco hotel aquático tinha cerca de 25 piscinas, uma praia arenosa bem grande, cinco restaurantes temáticos e também divertimento noturno (no nosso caso havia dois rapazes gregos conduzindo um grupo de turistas italianos numa competição de karaokê cantando canções pop americanas). Embora aquilo fosse algo um pouco despido de personalidade (parecia que estávamos em Orlando, em vez de Olímpia), as crianças ficaram felizes ao poder tirar uma tarde pulando de piscina em piscina em vez de estarem pulando de uma rocha para outra.

Perto de Pylos, charmosa aldeia portuária no sul do país, visitamos o que poderia ser uma das praias mais espetaculares - Voidokoilia - num amplo lago, onde a água do mar desemboca em piscina entre dois grandes rochedos. E em Nafplio, cidade costeira que muitos consideram uma das mais belas em todo o continente, passamos duas noitinhas andando pela enorme região de pedestres cheia de cafés e lojas, parando para sorvetes, crepes e uma comprinha ou outra.

Lição número quatro: Ajude as crianças a literalmente digerir a cultura local. Embora a maior parte das nossas refeições nunca tenha excedido o valor de US$ 50 para os cinco, incluindo uma garrafa de vinho, nós decidimos esbanjar na nossa primeira noite em Atenas nos presenteando com um elegante jantar num terraço no Orizontes, um restaurante no alto do monte Lycabettus, onde chegamos através de um teleférico. Contemplando a cidade em luz etérea, as crianças tiveram sua primeira experiência com comida grega e chegaram à conclusão de que gostavam daquilo (guisado de carneiro, grão-de-bico e até mesmo camarão envolto em phyllo, numa espécie de panqueca). Daniel e eu, de forma menos surpreendente, descobrimos que gostávamos de vinho grego.

Nem sempre o mais desbravador à mesa, Charles se apaixonou pelo gosto da lula, comendo o molusco grelhado, ensopado, com o pão, frito ou recheado. E de longe o melhor prato de lulas que ele pediu foi na aldeia de Epidaurus, sendo que o molusco havia sido pescado e descarregado de um barco numa marina bem próxima à nossa mesa. Florence descobriu que gostava de torta de espinafre, e Harriet se tornou viciada em hummus e queijo Haloumi frito, pedindo a iguaria em cada taverna que visitamos.

* Jennifer Conlin é a autora do livro "The Perfect Parents Handbook".

Tradução: Marcelo Godoy

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