UOL Notícias Internacional
 

08/08/2007

Congresso dá uma aula de política ao chefe de inteligência

The New York Times
Mark Mazzetti

Em Washington
Na noite da última quinta-feira, durante o frenético esforço da Casa Branca para ampliar sua autoridade de interceptação de comunicações, os líderes democratas da Câmara e do Senado se reuniram no gabinete no Capitólio da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, para uma teleconferência com Mike McConnell, a principal autoridade de inteligência do país.

McConnell estava atuando como negociador-chefe do governo Bush para a medida, e os democratas ficaram furiosos ao saber que ele tinha rejeitado a mais recente proposta deles. Eles questionaram se McConnell tinha sucumbido à pressão dos republicanos. Ele negou tais acusações, mas reconheceu que tinha sido altamente influenciado pelos líderes no Congresso de ambos os partidos.
Mannie Garcia/ AFP - 5.jan.2007
McConnell é diretor nacional de inteligência desde fevereiro


"Eu já dediquei 40 anos da minha vida a este negócio e já fui baleado durante uma guerra", respondeu McConnell, segundo pessoas que participaram da teleconferência. "Mas nunca senti tanta pressão na minha vida".

As últimas semanas foram uma espécie de curso de política para McConnell, um almirante reformado da Marinha de voz suave que deixou relutantemente um lucrativo emprego no setor privado para assumir o posto de diretor nacional de inteligência, em fevereiro.

McConnell obteve elogios de democratas e republicanos por seus esforços para reformar a complexa estrutura de inteligência dos Estados Unidos, mas seu papel como defensor mais visível da Casa Branca para a mudança da lei de vigilância provocou intensas críticas daqueles que questionam se um chefe de inteligência deve mergulhar na desordem política.

Durante uma entrevista em seu gabinete na terça-feira, McConnell insistiu que nunca sentiu pressão direta da Casa Branca para rejeitar a proposta democrata, e que, diferente das declarações de importantes democratas, ele nunca se comprometeu verbalmente com o plano deles.

Apesar de ter reconhecido as intensas pressões do Capitólio durante o debate em torno das versões concorrentes da legislação de vigilância, ele disse que seu cargo exige que permaneça "apolítico" mesmo em meio a um ciclone partidário como o debate da semana passada no Congresso. "Meu trabalho é falar a verdade ao poder", ele disse.

A disputa testou tanto o poder quanto a credibilidade da posição do chefe de inteligência, um cargo com menos de três anos que permanece uma obra em progresso. Há uma revolta entre alguns no Capitólio que dizem que McConnell agiu mais como um defensor do que como um especialista nas informações privadas que forneceu aos legisladores sobre as mudanças propostas para a Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira.

O deputado Rush D. Holt, democrata de Nova Jersey e membro do Comitê de Inteligência da Câmara, chamou o papel de McConnell no debate da vigilância de "insatisfatório, até mesmo embaraçoso".

"Se um alto membro da comunidade de inteligência pretende dizer a verdade ao poder", disse Holt, "ele deve ter o hábito de apresentar a verdade não adornada".

Perguntas sobre a distorção política da inteligência são um tema que envolvem o governo Bush desde os debates que precederam a invasão ao Iraque.

É por este motivo que a escolha de McConnell, um profissional de carreira de inteligência sem uma agenda partidária óbvia, foi saudada tanto por democratas quanto republicanos para suceder John D. Negroponte, o diplomata veterano que foi a primeira pessoa a servir como diretor nacional de inteligência e que renunciou para se tornar vice-secretário de Estado.

Antes de aceitar o posto de inteligência, McConnell criticou a forma como o governo Bush lidou com a inteligência pré-guerra sobre o Iraque, dizendo a um entrevistador em novembro de 2006 que o episódio diminuiu seu conceito de autoridades como o vice-presidente Dick Cheney.

"Meu senso disto é que a fé política deles e suas convicções influenciaram a forma como selecionaram e interpretaram a informação, assim como selecionaram e interpretaram os eventos externos", McConnell foi citado como tendo dito em "Cheney", uma nova biografia de autoria de Stephen F. Hayes. McConnell é citado no livro como tendo dito que Cheney e outros "obtiveram resultados que, no meu entender agora, foram desastrosos".

Natural da Carolina do Sul, de onde ainda mantém a fala arrastada, McConnell iniciou sua carreira militar em 1967 e passou a maioria dos 29 anos seguintes como oficial de inteligência. Durante a Guerra do Golfo Pérsico de 1991, ele era diretor de inteligência do Estado-Maior das Forças Armadas sob o general Colin L. Powell; em 1992, ele se tornou diretor da Agência de Segurança Nacional.

Após se aposentar da Marinha em 1996, McConnell passou quase uma década no setor privado, trabalhando como consultor para questões de inteligência para a Booz Allen Hamilton, em firma de consultoria de estratégia global e tecnologia. Atualmente ele freqüentemente deixa escapar jargões corporativos durante apresentações públicas sobre seus planos para reformar as agências de espionagem americanas.

Durante seus cinco meses como chefe de inteligência, McConnell fez da atualização da lei de vigilância uma de suas prioridades, e sua familiaridade com as minúcias da vigilância eletrônica o tornou o candidato óbvio para liderar as negociações com os legisladores sobre as mudanças na lei.

McConnell também era um homem de frente mais aceitável para a Casa Branca do que o criticado e politicamente enfraquecido secretário de Justiça, Alberto R. Gonzales, que neste ano passou por várias audiências desgastantes perante comissões do Congresso sobre o programa de grampos sem autorização da Justiça da Agência de Segurança Nacional.

Nas últimas semanas, McConnell informou centenas de legisladores sobre o que considera ser limitações significativas na lei de vigilância, assim como as propostas do governo Bush para eliminar tais restrições.

Foi um sinal da força que ele trouxe para a questão o fato de que durante o debate em torno da medida no Senado, na noite de sexta-feira, tanto republicanos e democratas alegavam que McConnell apoiava sua versão da legislação, e durante o debate o chefe de espionagem prestou consultoria aos legisladores fora do plenário do Senado até os momentos finais antes da votação.

O papel foi o mais visível já exercido por um chefe da espionagem americana desde que o novo cargo foi criado em abril de 2005. Alguns democratas dizem privativamente que algumas das declarações públicas de McConnell criaram um clima de medo para justificar a política, citando especificamente um boletim de imprensa divulgado por McConnell na noite de sexta-feira, alertando sobre "ataques que estão sendo planejados no momento para causar vítimas em massa nos Estados Unidos".

Na entrevista na terça-feira, McConnell rejeitou fortemente a acusação de que se desviou de seu papel apropriado. "Eu não sou um autor de políticas, não sou um político", ele disse. "Meu trabalho é buscar fundamentar a verdade com o máximo de clareza e entendimento possível." Ele também disse que buscaria obter a autoridade para usar quaisquer ferramentas que considerasse necessárias e legais para proteção contra futuros ataques terroristas.

O senador Christopher S. Bond, um republicano do Missouri no Comitê de Inteligência do Senado, disse que um curso relâmpago sobre o modo como funciona o Congresso poderá ajudar o almirante reformado a encontrar seu caminho.

McConnell "reconheceu pesarosamente que não tem experiência em política", Bond disse aos repórteres na semana passada.

"Eu sugiro a ele que obtenha o máximo de experiência possível rapidamente." George El Khouri Andolfato

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