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08/08/2007

Crítica de arte: Boneca, você tem que aparecer em fotografias

The New York Times
Roberta Smith
Em Nova York
Morton Bartlett é considerado por muitos um grande artista marginal. Mas as suas obras ganham nova dimensão em uma mostra reveladora dos seus desenhos, fotografias e esculturas na Galeria Julie Saul, em Chelsea. Bartlett, que nasceu em 1909 e morreu em Boston em 1992, é conhecido por ter feito um grupo de 15 esculturas anatomicamente completas, de crianças e adolescentes de pele branca como marfim. A maioria é do sexo feminino, e ele criou roupas elaboradas para elas. Depois disso, tirou pequenas e marcantes fotos em preto-e-branco das figuras, geralmente vestidas, mas algumas vezes nuas.

Julie Saul Gallery/The New York Times
Obra de Bartlett intitulada "Girl Licking Lips" ("Garota Lambendo os Lábios")
Julie Saul Gallery/The New York Times
"Girl Crying" ("Garota Chorando") faz parte de exposição em Nova York
Julie Saul Gallery/The New York Times
Auto-retrato do artista marginal Morton Bartlett, produzido em 1955

As esculturas de bonecas - a maioria feita nas décadas de 1940 e 1950 -, as suas roupas e as fotografias em preto-e-branco foram descobertas em 1993 por Marion Harris, um comerciante de antiguidades de Connecticut que exibiu o trabalho na Feira de Arte Marginal em Manhattan em 1995.

Desde então, a fama de Bartlett explodiu, da mesma forma que aumentaram as conjecturas sobre o que o levou a produzir as suas estranhas criaturas. Ele foi visto como um Humbert Humbert com uma faceta de Henry Higgins que fez as suas Lolitas a partir da estaca zero; um companheiro de Lewis Carroll, Hans Bellmer, Edgar Degas e Henry Darger. Órfão aos oito anos de idade, Bartlett foi tido como uma criança perdida que se tornou um gentil Gepetto e criou a família que nunca teve, gerando comparações com reclusos benignos como Joseph Cornell, Martin Ramirez, Adolf Wolfli, Bill Traylor e James Castle.

Segundo uma terceira versão, Bartlett, que foi adotado por uma família da classe alta de Boston e educado na Academia Phillips Exeter e na Universidade Harvard, foi um artista muito bem informado, apesar de auto-didata, cujo principal meio de expressão foi a fotografia. Juntamente com Claude Cahun, Paul Outerbridge e O. Winston Link, ele pode ser considerado um pioneiro das fotografias montadas, um dos filões mais ricos da arte contemporânea nos últimos 40 anos.

A imagem de Bartlett como sendo fundamentalmente um fotógrafo é reforçada pela atual exposição, que tem como peça central uma série de dez grandes fotografias coloridas nunca antes exibidas. Essas imagens sugerem que quaisquer que tenham sido as necessidades emocionais ou esculturais satisfeitas pelas bonecas, o principal motivo pelo qual Bartlett criou as figuras foi fotografá-las.

Bartlett orquestrou imagens artísticas psicologicamente complexas que ressoam com influências que vão da escultura da Renascença Nórdica à publicidade, às revistas de moda e às fotografias de Hollywood. As imagens finais dependem da habilidade cultural de Bartlett de criar imagem corporal, proporção juvenil e expressão facial, mas todos esses elementos tornam-se mais sutilmente variados nas suas fotografias. Na galeria Saul, as grandes imagens a cores não deixam dúvida quanto a isso ao combinarem as nuances das fotos em preto-e-branco com a vivacidade, os detalhes e as cores das bonecas previamente conhecidas.

No entanto, essas fotos coloridas de grande proporção eram desconhecidas até alguns anos atrás, e existiam apenas em slides coloridos. Um colecionador de Los Angeles, Barry Sloane, é responsável por esta descoberta das realizações de Bartlett.

"Eu geralmente sou bastante discreto", disse Sloane em uma entrevista por telefone, relutando em permitir que o seu nome aparecesse em um jornal. Ele viu o trabalho de Bartlett pela primeira vez em um museu europeu. A seguir, comprou diversas fotografias de Harris e continuou fazendo pesquisas por conta própria.

Os slides estavam em um grande conjunto de material adquirido por Sloane, caixa a caixa, de um vendedor que ele encontrou primeiro por meio da eBay. No meio dessa massa de material, que ainda está sendo catalogado, estavam os 17 slides coloridos das bonecas.

Vários colegas artistas o encorajaram a fazer cópias dos slides em papel fotográfico. "Lembro-me de que Mike Kelley disse que a cor era extraordinária", disse Sloane. "Ele me perguntou como é que alguém saberia como Morton Bartlett era talentoso em cores caso as imagens não fossem disponibilizadas em maior tamanho".

Ele pediu conselho ao fotógrafo Grant Mudford e acabou trabalhando com Chip Leavitt, da Lumiere Editions, uma companhia de impressão fotográfica cujos clientes incluem vários artistas de Los Angeles. Demorou dois anos até que eles decidissem pelo tamanho 71cm x 50cm. As imagens foram copiadas em papel fotográfico (em edições de dez) sem ajuste das cores ou bordas.

Sloane, um corretor de imóveis especializado em propriedades históricas que trabalha para a empresa Sotheby's International Realty, em Beverly Hills, na Califórnia, observou que o processo de cópia foi caro. "Estou fazendo isso por Morton", disse ele. "Qualquer dinheiro que eu obtiver com as vendas será usado para cobrir os custos da pesquisa, dos arquivos e, especialmente, da conservação". As fotografias em cores tornam tudo o que se refere ao trabalho de Bartlett mais intenso e deliberado. Os detalhes tornam-se nítidos e legíveis, o que aumenta a impressão de perfeição e de carga emocional. A escala de cor dos tecidos impressos é a mais apropriada possível: o algodão amarelo da roupa de praia de uma garota loura, as pequenas cenas rurais pitorescas em vermelho, azul e verde em uma saia de pregas.

Em cores, o conjunto de bonecas torna-se mais proeminente. Em uma das imagens uma garota loura com um chapéu de palha, com a língua colocada de forma provocante entre os lábios, é vista em frente à litografia de um prédio clássico - talvez um grande museu urbano, ou o Partenon. Embora o cenário de tinta em papel que faz lembrar papel de parede não seja único nas imagens coloridas, ele se destaca em uma outra fotografia: a de uma garotinha com um vestido branco amarfanhado, cuja face contorcida parece estar cheia de lágrimas.

As tensões nessas figuras são também mais evidentes. Às vezes Bartlett esculpia expressões belas e serenas; às vezes outras mais carregadas, como a da garota chorando. A boneca loura com vestido amarelo, sentada no chão, por exemplo, pode estar sorrindo, mas o seu sorriso é mais uma careta. É como se ela estivesse vendo um inseto se aproximando e tivesse que decidir entre esmagá-lo ou sair correndo aos gritos.

Existe uma espécie de artificialidade nas imagens de Bartlett que oscilam entre a comunicação da idealização de crianças favorecidas pela sociedade e as tensões subjacentes da infância que muitas vezes são geradas pelo exagero daquela idealização.

A mostra gerou novas informações sobre Bartlett, incluindo a de Mary Jane Dexter, uma mulher de Massachusetts, que diz que a sua mãe foi noiva de Bartlett no final da década de 1940, quando eles moravam na mesma rua, em casas opostas, na cidade de Cohasset, e tinham um negócio conjunto. Em uma entrevista, Dexter disse que tem fotografias que Bartlett tirou dela e do irmão.

Sloane disse que o material comprado inclui fotos nubladas no estilo de Alfred Stieglitz, um caderno de rascunhos, um álbum de retratos de crianças e vários auto-retratos que Bartlett fez no decorrer da sua vida (um deles está incluído na mostra).

Mas o que prevalece são os slides - milhares de slides, incluindo vários que mostram prédios em Boston, que podem ter sido trabalhos encomendados. E, o mais intrigante, há também fotos de crianças usando roupas de tecidos diáfanos e brincando em bosques.

Juntas, as mostras da galeria Saul e a descoberta de Sloane sugerem que, não importa o quão talentoso Morton Bartlett tenha sido, a amplitude da sua arte ainda é desconhecida. UOL

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