UOL Notícias Internacional
 

08/08/2007

Em empoeirados arquivos britânicos, uma teoria da riqueza

The New York Times
Nicholas Wade
Alan Baker/The New York Times

Por milhares de anos, a maioria das pessoas no planeta viveu em pobreza abjeta, primeiro como caçadores e coletores, depois como camponeses ou operários. Mas com a Revolução Industrial, algumas sociedades trocaram esta antiga pobreza por fantástica riqueza.

Historiadores e economistas há muito lutavam para entender como ocorreu esta transição e por que ocorreu apenas em alguns países. Um estudioso que passou os últimos 20 anos revirando arquivos medievais ingleses agora surge com respostas surpreendentes para ambas as perguntas.

O dr. Gregory Clark, um historiador econômico da Universidade da Califórnia, em Davies, acredita que a Revolução Industrial - o aumento do crescimento econômico que ocorreu primeiro na Inglaterra por volta de 1800 - aconteceu devido a uma mudança na natureza da população humana. A mudança foi uma na qual as pessoas desenvolveram gradualmente novos comportamentos estranhos, necessários para fazer com que a economia moderna funcionasse. Os valores de classe média de não-violência, alfabetização, mais horas de trabalho e disposição de economizar surgiram apenas recentemente na história humana, argumenta Clark.

Por terem se tornado mais comuns nos séculos antes de 1800, seja por transmissão cultural ou por adaptação evolutivas, a população inglesa finalmente se tornou produtiva o bastante para sair da pobreza, seguida rapidamente por outros países com o mesmo longo passado agrário.

As idéias de Clark circularam em artigos e manuscritos por vários anos e serão publicados em forma de livro no próximo mês, "A Farewell to Alms" (Um Adeus às Esmolas, Princeton University Press). Historiadores de economia têm muito apreço por sua tese, apesar de muitos discordarem de partes dela.

"Este é um grande livro e merece atenção", disse o dr. Philip Hoffman, um historiador do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Ele o descreveu como "prazerosamente provocador" e um "verdadeiro desafio" à escola de pensamento predominante de que são as instituições que moldam a história econômica.

O dr. Samuel Bowles, um economista que estuda a evolução cultural no Instituto Santa Fé, disse que o trabalho de Clark representa "grande sociologia histórica e, diferente da sociologia do passado, é moldada pela teoria econômica moderna".

A base do trabalho de Clark é sua recuperação de dados a partir dos quais pôde reconstruir muitas características da economia inglesa de 1200 a 1800. A partir destes dados, ele mostrou, mais claramente do que antes era possível, que a economia estava presa em uma armadilha malthusiana - cada vez que nova tecnologia aumentava um pouco a eficiência da produção, a população crescia, bocas adicionais devoravam o superávit e a renda média caía ao nível anterior.

Esta renda era deploravelmente baixa em termos de quantidade de trigo que podia comprar. Em 1790, o consumo médio de uma pessoa na Inglaterra ainda era de apenas 2.322 calorias por dia, com os pobres comendo meras 1.508. As sociedades de caçador-coletores existentes desfrutam de dietas de 2.300 calorias ou mais.

"O homem primitivo comia bem em comparação a uma das sociedades mais ricas do mundo em 1800", observa Clark.

A tendência da população de crescer mais rápido do que a oferta de alimento, mantendo a maioria das pessoas à beira da fome, foi descrita por Thomas Malthus em um livro de 1798, "Ensaio sobre o Princípio da População". A armadilha malthusiana, mostram os dados de Clark, regeu a economia inglesa de 1200 até a Revolução Industrial e, segundo seu ponto de vista, provavelmente refreou a humanidade ao longo de sua existência. O único respiro ocorria durante desastres como a Peste Negra, quando a população despencava, e por várias gerações os sobreviventes tinham mais o que comer.

O livro de Malthus é bastante conhecido porque deu para Darwin a idéia da seleção natural. Lendo a luta pela existência prevista por Malthus, Darwin escreveu em seu autobiografia: "Me ocorreu que sob estas circunstâncias, as variações favoráveis tenderiam a ser preservadas e as desfavoráveis a serem destruídas. Aqui, eu finalmente tinha uma teoria sobre a qual trabalhar".

Dado que a economia inglesa operava sob as restrições malthusianas, ela não responderia de alguma forma às forças da seleção natural que Darwin conjeturou que floresceriam sob tais condições? Clark começou a se perguntar se a seleção natural de fato mudou a natureza da população de alguma forma e, em caso afirmativo, se esta poderia ser a explicação que faltava à Revolução Industrial.

A Revolução Industrial, a primeira fuga da armadilha malthusiana, ocorreu quando a eficiência da produção finalmente acelerou, crescendo rápido o bastante para ultrapassar o crescimento da população e permitir o aumento da renda média. Muitas explicações foram oferecidas para este arranco de eficiência, algumas econômicas e outras políticas, mas nenhuma plenamente satisfatória, disseram historiadores.

O primeiro pensamento de Clark foi que a população poderia ter desenvolvido maior resistência a doenças. A idéia veio do livro "Guns, Germs and Steel" (Aarmas, Germes e Aço), de Jared Diamond, que argumenta que os europeus foram capazes de conquistar outras nações em parte por causa de sua maior imunidade a doenças.

Em apoio a esta idéia de resistência a doenças, cidades como Londres eram tão imundas e tomadas por doenças que um terço de sua população morria a cada geração, e as perdas eram restauradas por imigrantes do interior. Isto sugeriu a Clark que a população sobrevivente da Inglaterra podia ser descendente dos camponeses.

Uma forma de testar a idéia, ele percebeu, era por meio da análise dos antigos testamentos, que poderiam revelar uma conexão entre a riqueza e o número de filhos. Os testamentos fizeram isto, mas na direção oposta que ele esperava.

Geração após geração, os ricos tinham mais filhos sobreviventes do que os pobres, mostrou sua pesquisa. Isto significava que devia haver constante mobilidade social para baixo, à medida que os pobres fracassavam em se reproduzir e os filhos dos ricos assumiam suas ocupações. "A população moderna da Inglaterra é principalmente descendente das classes altas econômicas da Idade Média", ele concluiu.

À medida que os descendentes dos ricos ocupavam todos os níveis da sociedade, considerou Clark, os comportamentos associados à riqueza eram disseminados com eles. Ele tem documentado que vários aspectos do que atualmente poderia ser chamado de valores de classe média mudaram significativamente desde os tempos das sociedades caçador-coletoras até 1800. O número de horas de trabalho aumentou, cresceu a capacidade de ler e escrever e o conhecimento de matemática, o nível de violência interpessoal caiu.

Outra mudança significativa no comportamento, argumenta Clark, foi um aumento da preferência das pessoas por economizar em vez do consumo instantâneo, que ele vê refletido no constante declínio das taxas de juros de 1200 a 1800.

"Frugalidade, prudência, negociação e trabalho árduo se tornavam valores para as comunidades que anteriormente eram perdulárias, impulsivas, violentas e amantes da ociosidade", escreve Clark.

Por volta de 1790, uma constante tendência para cima na eficiência da produção surgiu pela primeira vez na economia inglesa. Foi esta aceleração significativa na taxa do crescimento da produtividade que finalmente possibilitou a fuga da Inglaterra da armadilha malthusiana e o surgimento da Revolução Industrial.

No restante da Europa e no Leste Asiático, as populações há muito também eram moldadas pela armadilha malthusiana de suas economias agrárias estáveis. Suas forças de trabalho facilmente absorveram as novas tecnologias de produção que apareceram inicialmente na Inglaterra.

É enigmático que a Revolução Industrial não tenha ocorrido primeiro nas populações muito maiores da China ou Japão. Mas Clark encontrou dados mostrando que suas classes mais ricas, os samurais no Japão e a dinastia Qing na China, eram surpreendentemente inférteis e assim fracassaram em gerar a mobilidade social para baixo que disseminou os valores voltados para a produção na Inglaterra.

Após a Revolução Industrial, a desigualdade nos padrões de vida entre os países mais ricos e os mais pobres começou a acelerar, de uma disparidade de riqueza de cerca de 4 para 1, em 1800, para mais de 50 para 1 atualmente. Assim como não há uma explicação de consenso para a Revolução Industrial, os economistas também não sabem explicar bem a divergência entre países ricos e pobres ou teriam melhores soluções a oferecer.

Muitos comentaristas apontam para um fracasso de instituições políticas e sociais como motivo para os países pobres permanecerem pobres. Mas o remédio proposto de reforma institucional "fracassou repetidamente em curar o paciente", escreve Clark. Ele comparou os "centros de culto" do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional a médicos pré-científicos que prescreviam sangria para os males que não compreendiam.

Se a Revolução Industrial foi causada por mudanças no comportamento das pessoas, então as populações que não tiveram tempo para se adaptar às restrições malthusianas das economias agrárias não seriam capazes de atingir as mesmas eficiências em produção, sua tese deixa implícita.

Clark diz que os valores de classe média necessários para a produtividade poderiam ser transmitidos de forma cultural ou genética. Mas em algumas passagens, ele parece se inclinar para a evolução como explicação. "Por meio da longa passagem agrária que levou à Revolução Industrial, o homem se tornou biologicamente mais adaptado ao mundo econômico moderno", ele escreve. E, "o triunfo do capitalismo no mundo moderno pode, portanto se apoiar tanto em nossos genes quanto na ideologia ou razão".

O que foi herdado, segundo seu entender, não era maior inteligência -ser um caçador em uma sociedade de caçador-coletores exige uma habilidade consideravelmente maior do que as ações repetitivas de um trabalhador rural. Em vez disso, era "um repertório de habilidades e disposições muito diferente daquele do mundo pré-agrário".

A reação de outros historiadores econômicos à tese de Clark parece altamente favorável, apesar de poucos concordarem com ela na totalidade e muitos serem céticos em relação à parte mais nova, sua sugestão de que mudança evolutiva é um fator que deve ser considerado na história.

Os historiadores costumavam aceitar mudanças de comportamento das pessoas como explicação para eventos econômicos, como a tese de Max Weber comparando a ascensão do capitalismo ao protestantismo. Mas a maioria agora pende para a visão dos economistas de que todas as pessoas são semelhantes e responderão da mesma forma aos mesmos incentivos. Daí buscarem explicar eventos como a Revolução Industrial em termos de mudanças nas instituições, não nas pessoas.

A visão de Clark é de que as instituições e incentivos foram praticamente os mesmos o tempo todo e explicam muito pouco, o motivo de haver tão pouco acordo sobre as causas da Revolução Industrial. Ao dizer que a resposta está no comportamento das pessoas, ele está pedindo aos seus colegas historiadores econômicos para reverterem a um tipo de explicação que praticamente tinham abandonado e, além disso, evocarem uma idéia que os historiadores raramente consideram uma variável explanatória, a da evolução.

A maioria dos historiadores presume que a mudança evolutiva é gradual demais para afetar as populações humanas no período histórico. Mas os geneticistas, com informação do genoma humano agora à sua disposição, começaram a detectar casos ainda mais recentes de mudança evolutiva humana como a disseminação da tolerância a lactose em populações criadoras de gado no norte da Europa há apenas 5 mil anos. Um estudo na atual edição da "American Journal of Human Genetics" aponta evidência de seleção natural em ação na população de Porto Rico desde 1513. Todavia, os historiadores provavelmente se entusiasmarão mais com os dados econômicos medievais e cronologia elaborada que Clark reconstruiu do que com sua sugestão de que as pessoas se adaptaram às restrições malthusianas de uma sociedade agrária.

"Ele merece aplausos por reunir todos estes dados", disse Hoffman, o historiador da Caltech, "mas não concordo com seu argumento".

A queda das taxas de juros inglesas, por exemplo, pode ter sido causada pela melhor segurança doméstica fornecida pelo Estado e por este assegurar o cumprimento dos direitos de propriedade, disse Hoffman, não por uma mudança na disposição das pessoas de poupar, como afirma Clark.

A parte de seleção natural do argumento de Clark "é significativamente mais fraca, e talvez desnecessária, se você puder traçar as mudanças às instituições", disse Kenneth L. Pomeranz, um historiador da Universidade da Califórnia, em Irvine. Em um livro recente, "The Great Divergence" (A Grande Divergência), Pomeranz argumenta que a exploração de novas fontes de energia como o carvão e uso de novas terras para cultivo, como as colônias na América do Norte, foram os avanços na produtividade que fizeram as antigas economias agrárias escaparem das restrições malthusianas.

Robert P. Brenner, um historiador da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, disse que apesar de não haver explicação satisfatória no presente para o motivo do crescimento econômico ter decolado na Europa por volta de 1800, ele acredita que explicações institucionais forneceriam a resposta e que a idéia de Clark de genes para o comportamento capitalista é "um salto especulativo e tanto".

Bowles, o economista de Santa Fé, disse não ser contrário à idéia da importância da transmissão genética de valores capitalistas, mas que ainda não há evidência para isto. "Apenas não temos qualquer idéia do que seja e tudo o que olhamos acaba sendo terrivelmente pequeno", ele disse. Os testes da maioria dos comportamentos sociais mostram quão pouco são herdáveis.

Ele também questiona a sugestão de Clark de que a indisposição em adiar o consumo, chamada de "time preference" (preferência temporal) pelos economistas, mudou nas pessoas ao longo dos séculos. "Se eu fosse tão pobre quanto as pessoas que pediam adiantamento do pagamento, eu também teria pressa em gastar", ele disse.

Clark disse que decidiu escrever seu livro há 12 anos, após descobrir que seus alunos não sabiam nada sobre a história da Europa. Seus colegas ficaram surpresos com suas conclusões mas também interessados nelas, ele disse.

"Os dados de fato por trás destas coisas são difíceis de contestar", disse Clark. "Quando as pessoas vêem a lógica, elas dizem 'Eu não necessariamente acredito, mas é difícil de rejeitar'". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,95
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h28

    -1,26
    74.443,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host