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09/08/2007

Com as mudanças no off-Broadway, alguns veneráveis teatros de Nova York desaparecem

The New York Times
Campbell Robertson
Em Nova York
O recente fechamento do Actor's Playhouse, um teatro de 62 anos da linha off-Broadway (pequenos teatros, que possuem de 100 a 500 assentos, e que apresentam produções menores que as da Broadway) em Greenwich Village, não chegou a surpreender as pessoa que acompanham as notícias de teatro. O anúncio de que mais um teatro off-Broadway está fechando as portas se tornou um fato quase rotineiro nos últimos anos.

O local onde situava-se o antigo Promenade Theater está se transformando em uma butique de perfumes e cosméticos. O Century Center for the Performing Arts virará um estúdio da rede de televisão cristã Trinity Broadcasting Network. O Lambs Theater será transformado em um hotel. E outros tornaram-se condomínios.

Gabriele Stabile/The New York Times 
Peter Breger, do Actors' Playhouse, em frente ao New York theater, que será desativado

Uma conclusão razoável seria a de que o fechamento de todos esses teatros - foram seis, apenas nos dois últimos anos - está causando o declínio dos off-Broadway comerciais.

Mas, na verdade, a situação é mais complicada.

Não se pode culpar a falta de teatros pelas problemas evidentes dos off-Broadway, já que na verdade existe um número um pouco maior de teatros off-Broadway comerciais do que uma década atrás, segundo dados compilados pelo Off Broadway Brainstormers, um grupo especializado no setor, criado no ano passado. O New World Stages, o complexo de US$ 23 milhões na 50th Street, que foi inaugurado em 2004, introduziu cinco novos teatros no circuito off-Broadway; o 37 Arts, um complexo na área oeste de Midtown que foi inaugurado em 2005, trouxe mais três teatros; o Snapple Theater Center, que abriu em 2005, trouxe dois. Com essas e outras recentes inaugurações, existem atualmente pelo menos 31 teatros off-Broadway que não são controlados por companhias sem fins lucrativos, segundo revelam os dados. Em 1997 havia cerca de 22 (o número é aproximado porque alguns teatros que são utilizados preponderantemente por companhias sem fins lucrativos podem tornar-se espaços comerciais para certas produções).

Isso acrescenta até 4.000 novas cadeiras no circuito off-Broadway comercial, em relação ao número de cadeiras disponíveis uma década atrás, o que representa um aumento de quase 80%.

Muitos dos novos teatros, que tendem a ser maiores que os antigos, foram construídos em meados da década de 1990, quando a Broadway vivia uma crise e os shows se deslocaram para os teatros off-Broadway. Mas alguns operadores de teatro dizem que a oferta de todos esses novos teatros pode ter superado a demanda. Demanda esta que diminuiu à medida que a Broadway se recuperou nos últimos anos.

Eles dizem que um excesso da oferta de teatros - além das pressões do mercado imobiliário, o caro e congestionado mercado de publicidade e o abalo econômico provocado pelo 11 de setembro - gerou a recente onda de fechamentos e as dificuldades enfrentadas pelos teatros que ainda estão funcionando.

"Não creio que a nossa platéia tenha de fato encolhido", afirma Beverley D. Mac Keen, diretora-executiva do New World Stages e fundadora do Off Broadway Brainstormers. "Todos os anos, fico achando que a platéia permaneceu estática, ou até que cresceu. Mas aí percebo que ela está diluída. Existem mais teatros comerciais. Portanto, não dá para esperar que se encha um teatro depois de construir um outro".

Mac Keen diz que o setor off-Broadway está passando por uma correção neste momento, e que, com as fortes parcerias entre produtores e operadores teatrais, ele acabará se reequilibrando.

Mas outras pessoas não estão tão certas quanto a isso. Ben Sprecher, que administra o Little Shubert Theater, um off-Broadway, e que já dirigiu o Promenade e o Variety Arts, ambos fechados nos últimos anos, diz que simplesmente não existe mais um número viável de produções off-Broadway, e que devido a várias razões econômicas e culturais ele não está otimista quanto a uma mudança desse quadro.

Sprecher declara que a sua decisão de fechar o Promenade, que já apresentou "Three Tall Women" e "Hurlyburly", não foi tomada devido às pressões do mercado imobiliário. Como co-proprietário do contrato de locação do espaço, ele aceitou uma oferta lucrativa para disponibilizar o local para uma estabelecimento comercial (uma butique da rede Sephora). Ele afirma que, tendo em vista a direção para a qual os off-Broadway rumavam, bem como os seus próprios planos como produtor, a decisão foi lógica.

"As trupes estavam ficando menores, com projetos mais estranhos", conta Sprecher. "Eu olhei à minha volta e disse: 'Isto não é mais o que costumava ser'".

David Brouillard, um gerente associado que também reserva shows no Zipper Factory, na 37th Street, diz que o velho modelo de produção off-Broadway simplesmente não estava funcionando mais. Até recentemente, o Zipper, que foi inaugurado em 2001, era mais uma casa off-Broadway exibindo espetáculos com cronogramas abertos. Mas, em abril deste ano, depois que a produção de uma peça de William Finn fracassou devido à falta de verbas, o Zipper voltou a se firmar como um lugar com agenda mais flexível, com períodos de apresentação muito curtos que poderiam ser prorrogados dependendo da demanda.

"Eles simplesmente não podem se dar ao luxo de manter as portas abertas", afirma Brouillard, referindo-se aos espetáculos de cronograma aberto que o Zipper costumava apresentar.

Em Nova York, nenhum problema jamais está muito desvinculado dos preços do mercado imobiliário. Embora exista uma grande quantidade de novos teatros comerciais off-Broadway, vários deles precisam pagar os seus próprios e salgados aluguéis. E, nas casas maiores, há uma pressão para que se apresentem shows mais elaborados, com orçamentos mais altos.

Como resultado, os obstáculos para o sucesso financeiro dos off-Broadway também aumentaram, afirma Eric Krebs, produtor e ex-gerente dos teatros John Houseman e Douglas Fairbanks, ambos fechados em 2005, e posteriormente demolidos.

"Os novos teatros são tão caros, tanto para operadores quanto para produtores, que é necessário um determinado nível de capitalização para que se faça qualquer coisa, bem como uma certa orientação direcionada para o entretenimento", diz ele.

O show de Krebs, "The All-American Sport of Bipartisan Bashing", no New World Stages, está dividindo espaço no seu teatro com "My First Time", um show a respeito das primeiras experiências sexuais, a fim de reduzir os custos.

Embora Krebs descreva "Bipartisan Bashing" como teatro que estimula o raciocínio, ele reconhece que as peças off-Broadway estão se tornando algo segregadas; os teatros sem fins lucrativos estão apresentando o trabalho sério, enquanto os operadores e produtores do teatro comercial, devido à necessidade, apresentam uma tendência a voltarem-se para os trabalhos de sucesso que atraem mais o público.

A lista de produções financeiramente bem-sucedidas na última década - "Stomp", "Jewtopia", "Blue Man Group" - é uma prova desta última estratégia. Devido ao fato de vários dos novos teatros terem sido construídos em Midtown na esperança de que se conquistasse parte do público da Broadway, as diferenças entre os shows da Broadway e os dos off-Broadway tornaram-se indistintas.

Outros dizem que os recentes fechamentos de teatros terão um efeito mais duradouro, e que não são um mero reflexo de mudança no mercado. Scott Morfee, que opera o Barrow Street Theater e consegue mantê-lo aberto enquanto lança produções que são sucessos junto à crítica, está otimista quanto ao universo teatral em si, e aponta para a profusão de autores talentosos e o número crescente de peças que tiveram os ingressos esgotados na Barrow Street.

Mas ele afirma que é a perda dos teatros, especialmente os menores, que eram os centros dos bairros antes de serem obrigados a sair de cena devido às pressões imobiliárias, que está ameaçando o cenário cultural.

"Isto que está acontecendo é algo de terrível para Nova York", adverte ele, comparando a perda desses teatros ao desaparecimento de instituições como a antiga Estação Pensilvânia. "Nova York está se auto-removendo deste mercado. Não contamos com um plano B. O meu plano B pode ser mudar-me para uma outra cidade. E, pode acreditar, já pensei nisto". UOL

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