UOL Notícias Internacional
 

09/08/2007

Financista saudita rebate acusações de ligação com terrorismo

The New York Times
Landon Thomas Jr.

Em Genebra
Antes dos ataques do 11 de Setembro, o príncipe Muhammad al Faisal al Saud se sentia bem-vindo nos Estados Unidos. Um membro da família real saudita e um pioneiro do mercado financeiro islâmico, ele era um pilar de um establishment saudita de negócios que há muito prezava seus laços com os Estados Unidos.

Desde então ele tem mantido distância. A empresa que fundou em 1981, o Dar al-Maal al-Islami Trust (DMI) - uma holding aberta nas Bahamas com um portfólio de bancos islâmicos em Bahrein, Níger, Egito e Paquistão, além da sede administrativa perto de Genebra - é réu em um processo consolidado de US$ 1 trilhão impetrado pelas famílias das vítimas do 11 de Setembro, e seus advogados o aconselharam a não pôr os pés nos Estados Unidos enquanto o caso tramita de forma vagarosa em um tribunal federal na Baixa Manhattan.

Fred Merz/The New York Times 
Janahi, fundador da holding Dar al-Maal al-Islami Trust, em seu escritório em Genebra

Apesar do príncipe ter sido originalmente citado no processo, as ações contra ele foram rejeitadas em 2005. O príncipe é menos conhecido que dois de seus irmãos, o príncipe Saud al Faisal, o ministro das Relações Exteriores saudita, e o príncipe Turki al Faisal, o ex-embaixador saudita nos Estados Unidos. Mas como presidente do DMI, ele é o rosto público do amplo conglomerado financeiro que é acusado de ajudar o terrorismo. Mais que isto, o príncipe e, por extensão, o DMI representam vividamente os pontos de vista discordantes que cercam o Islã e o dinheiro desde o 11 de Setembro.

Alguns o vêem como o fundador do mercado financeiro islâmico, um pedaço próspero da economia que se aproxima de US$ 800 bilhões em ativos; outros vêem o príncipe, um seguidor da seita puritana islâmica wahhabi, como a mão invisível por trás do fluxo de dinheiro à Al Qaeda.

Alimentado pelo crescente preço do petróleo e por um clima de investimento cada vez mais aberto, o capital está fluindo para o Oriente Médio, freqüentemente por intermédio de instituições como o DMI e suas subsidiárias, que, para atender a lei islâmica, trocam os juros e a especulação por investimentos nos quais o emprestador e o tomador de empréstimo dividem tanto o risco quanto a recompensa.

Mas, após os ataques do 11 de Setembro, a tendência de associar empresas de financistas muçulmanos estabelecidos e o extremismo islâmico continua. Tal situação ficou clara no ano passado, durante o debate sobre se a DP World, uma operadora de portos com sede em Dubai, deveria operar terminais nos Estados Unidos.

Tais suspeitas não exibem sinais de ceder. Muitas outras instituições muçulmanas foram citadas no processo, e no mês passado Mariane Pearl, a esposa do repórter assassinado do "Wall Street Journal", Daniel Pearl, processou o Habib Bank, o maior banco do Paquistão, o acusando de prestar serviços bancários às caridades que apóiam organizações terroristas.

Para o príncipe, suas dificuldades legais e um crescente ressentimento contra as políticas americanas no Oriente Médio trouxeram tensão a um relacionamento de negócios tradicionalmente robusto.

"Há uma nuvem nas relações", disse Richard A. Debs, um diretor consultivo do Morgan Stanley e vice-presidente do Conselho de Negócios Americanos-Sauditas. "Há descontentamento - as pessoas acham que o príncipe Muhammad está sendo injustamente perseguido e atacado. Eu não vejo a ligação entre o mercado financeiro islâmico e o extremismo islâmico".

No caso do DMI, outros não têm tanta certeza.

Neste ano, a divisão de contraterrorismo do Departamento de Justiça revelou que está investigando se clientes de uma subsidiária do DMI, por meio de um fundo de private equity que antes era de propriedade deste, deixaram de pagar sua cota de impostos.

Na sua queixa, os advogados dos parentes do 11 de Setembro argumentam que as alianças formadas pelo príncipe com figuras políticas e religiosas conservadoras no Sudão e no Egito, assim como os serviços bancários prestados pelo DMI a pessoas e organizações que foram declaradas terroristas depois do 11 de Setembro, são prova de que o príncipe e a holding "conspiraram com a Al Qaeda e outros réus na realização de ataques terroristas".

Um advogado que representa o DMI, James J. McGuire, nega tal intenção. "O fato do DMI ter não intencionalmente uma conta com alguém que posteriormente foi considerado terrorista não é evidência de que o banco está envolvido em terrorismo", disse McGuire.

Para apoiar seu caso, os investigadores dos querelantes reuniram documentos que mostram que Wael Jelaidan, um suspeito de ser fundador da Al Qaeda que foi declarado terrorista pelo governo americano em setembro de 2002, manteve uma conta no Faisal Finance, a unidade bancária do DMI na Suíça, de janeiro de 1997 a julho de 2003, que chegou a contar com US$ 405 mil. Jelaidan, por intermédio de seu advogado, Martin F. McMahon, negou ligações com organizações terroristas.

E um cliente ainda mais importante do Faisal Finance - atualmente chamado Faisal Private Bank - era Yassin Abdullah Kadi, um proeminente empresário saudita e antigo acionista do DMI que foi considerado terrorista em outubro de 2001, por suas ligações com caridades islâmicas acusadas de fornecer apoio financeiro a terroristas. Registros bancários da Faisal Finance mostram transações de Kadi em fevereiro de 2003, mais de um ano após ser designado terrorista. Kadi nega que tenha apoiado organizações terroristas e está contestando tal designação.

Outros documentos reunidos pelos querelantes mostram que dois grupos extremistas no Paquistão, que foram rotulados pelos Estados Unidos por seu apoio ao terrorismo, mantinham contas de depósito no Faysal Bank Ltd., a afiliada bancária do DMI lá.

Um é o Lashkar-e-tayyiba, um grupo armado que luta contra a Índia na região disputada da Caxemira, e outro, o Lajnat al-Dawa, é uma fundação com sede no Kuwait que tem laços com a Al Qaeda, segundo o site do Tesouro dos Estados Unidos.

Segundo McGuire, o advogado do DMI, as contas foram congeladas assim que os clientes foram designados terroristas ou banidos no Paquistão. As contas de Kadi e Jelaidan estão ativas apenas para crédito do retorno dos investimentos e pagamento das taxas à Faisal, ele disse.

A queixa também se concentra nos laços que o príncipe Muhammad mantinha com personalidades religiosas como Hassan al Turabi do Sudão, que foi diretor supervisor da holding de 1982 a 1992, e Yusuf al Qaradawi, que foi consultor religioso da holding até sair em 1994.

Turabi já foi uma figura política poderosa no Sudão, que deu as boas-vindas a Osama Bin Laden ao país em 1991. O Faisal Islamic Bank no Sudão, um antigo afiliado da holding, era um grande patrocinador financeiro de Turabi, argumenta a queixa. E Qaradawi, um proeminente erudito islâmico do Egito, foi associado à Irmandade Muçulmana, apesar de ter condenado os ataques do 11 de Setembro.

Finalmente, a queixa destaca a linguagem feroz usada pelo príncipe Muhammad em uma carta de 1984 aos acionistas, na qual disse: "Que Alá abençoe sua jihad e todos seus esforços".

Michael E. Elsner, um advogado que representa os parentes do 11 de Setembro, disse que é a soma destes pedaços de evidência que sustenta o caso. E mesmo se o DMI tiver cortado e congelado as contas, ele disse que contar com tais pessoas no conselho e fornecer serviços financeiros a empresários que viriam a ser designados como terroristas são sinais da simpatia do DMI pelo extremismo islâmico.

"Tudo isto cria um quadro de que o DMI forneceu apoio material à Al Qaeda", ele disse. "E se contas estão congeladas, por que é creditado o retorno dos investimentos?"

Mas Khalid Abdulla Janahi, o executivo-chefe do DMI desde 1998 e que supervisionou o crescimento substancial da empresa em meio ao boom do mercado financeiro islâmico, vê algo mais insidioso em ação: preconceito latente, somado à inclinação preconceituosa mais ampla que encontrou desde o 11 de Setembro.

"De repente, o ódio aos dias do petrodólar está de volta", ele disse. Como um homem corpulento e mal-humorado que foi sócio da Price Waterhouse antes de vir para o DMI, sua voz se levanta enquanto explica que jihad também significa luta não-violenta por uma meta pura, legítima. Ele acrescentou: "Eu raramente leio na imprensa ocidental algo sobre nossa comida, nossa cultura, nossa pintura ou nossa poesia. Eu só leio quão maus nós somos como muçulmanos".

Na sede administrativa do DMI em um prédio de vidro reluzente nos arredores de Genebra, a única evidência da origem saudita da empresa é uma pintura de um pensativo rei Faisal, pai do príncipe Muhammad, que está pendurada na principal sala de conferência. Janahi vestia um terno conservador e se esforçava para explicar que o mercado financeiro islâmico é um negócio global que atrai empresas como Goldman Sachs e HSBC para concorrer com o DMI.

Tecnicamente um fundo, o DMI funciona como uma holding, com participação acionária majoritária em bancos islâmicos no Paquistão, Egito e África, bancos de investimento em Bahrein e no banco privado Faisal em Genebra. Ele também administra US$ 1,5 bilhão para clientes em sua maioria muçulmanos, envolvidos exclusivamente em negócios e fundos que estão de acordo com a lei islâmica, como imóveis e private equity.

Depois de registrar um prejuízo em 2000, sua sorte mudou à medida que o capital passou a fluir para a região, e a holding registrou um lucro de US$ 52 milhões no ano passado.

Mas o fantasma do processo paira sobre a empresa e ela já gastou milhões de dólares em despesas legais. "Nós levaremos o caso à Suprema Corte se necessário", disse Janahi. A moção do DMI para encerramento, juntamente com 107 moções semelhantes de outros réus no caso, aguarda pela decisão do juiz George B. Daniels do Tribunal Distrital Federal em Manhattan.

Apesar de não discutir acusações específicas, a idéia de que um empreendedor estabelecido como o príncipe - antes da DMI, ele dirigia um empreendimento em Jidda que visava, sem sucesso, trazer icebergs para a Arábia Saudita - financiaria conscientemente o terrorismo ofende a sensibilidade pragmática de Janahi.

"Estas pessoas são todas parte do sistema", ele disse, se referindo a muitos empresários renomados do Oriente Médio citados no processo. "De forma alguma pagariam pessoas para se enforcarem".

Ibrahim A. Warde, um especialista em finanças islâmicas da Escola Fletcher da Universidade Tufts, escreveu um livro, que será lançado em breve, chamado "The Price of Fear" (O Preço do Medo). Nele, ele argumenta que diferente da percepção popular, não há uma base financeira monolítica sustentando a Al Qaeda - uma visão apoiada pela monografia sobre financiamento do terrorismo de autoria de Comissão para o 11 de Setembro. "Há esta idéia de que é dinheiro que torna o terror possível", ele disse. "Assim o DMI, sendo um banco islâmico, têm alguns pontos contra si". George El Khouri Andolfato

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