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10/08/2007

EUA promovem eleições livres, apenas para verem seus aliados perderem

The New York Times
Hassan M. Fattah*

Em Dubai, Emirados Árabes Unidos
Os mestres do "spin" político (distorcer fatos para parecerem melhores do que são) do Líbano tentaram nos últimos dias explicar os resultados da eleição suplementar chave do último domingo, que viu um candidato relativamente desconhecido da oposição derrotar por margem estreita um ex-presidente, Amin Gemayel.

Houve conversa sobre o voto cristão e o voto armênio, de história e traição, como cada lado buscou reivindicar a vitória. Mas há uma explicação que se tornou voz corrente na região: o fracasso de Gemayel parece ter sido selado pelo apoio que recebeu do governo Bush e da agenda implícita por trás de tal apoio.

"É o beijo da morte", disse Turki al Rasheed, um reformista saudita que acompanhou de perto as eleições do último domingo. "No minuto em que você depende ou é apoiado pelos americanos, pode dizer adeus, você não vencerá".

O paradoxo da política americana no Oriente Médio - promover a democracia com a suposição de que ela aproximará os países do Ocidente - é que em quase toda parte onde há eleições livres, o lado apoiado pelos Estados Unidos tende a perder.

Os eleitores libaneses do distrito de Metn, em outras palavras, parecem ter se juntado aos palestinos, que votaram pelo Hamas; aos iraquianos, que votaram por um governo simpático ao Irã; e aos egípcios, que têm votado em crescente número nas últimas eleições pela Irmandade Muçulmana militante.

"Nenhum político pode correr o risco de se identificar com o Ocidente, pois pesquisa após pesquisa mostra que as pessoas não acreditam na agenda americana", disse Mustafa Hamarneh, até recentemente o diretor do Centro para Estudos Estratégicos da Universidade da Jordânia. Hamarneh está concorrendo a uma cadeira no Parlamento jordaniano em novembro, mas disse que tem buscado manter o foco de sua campanha em assuntos locais, em questões cotidianas. "Se alguém acusar você de ser pró-americano, ele pode prejudicar sua candidatura", ele disse.

Em parte, disseram analistas regionais, os candidatos são manchados pela bagagem da política externa americana - de seu apoio a Israel à violência no Iraque. Mais importante, eles dizem, o apoio americano freqüentemente se aplica a uma facção ao invés das instituições, causando maior divisão em vez de trazer estabilidade.

"Os americanos acham que apoiar a democracia deve criar reações positivas", disse Nicola Nassif, um colunista do jornal libanês de inclinação esquerdista "Al Akhbar". "Ninguém pode ser contra a democracia, soberania, independência e liberdade. Mas não se perturbar o equilíbrio de poder interno, não se fortalecer um partido contra o outro, especialmente em um país onde um grupo pode levar a violência e mesmo a guerras civis".

Liberais árabes que abraçaram os Estados Unidos continuam vendo sua influência desaparecer na região, à medida que forças mais conservadoras e islamitas continuam a ascender, disse Rasheed. Os eleitores invariavelmente desaprovam força vinda do exterior, ele disse; as únicas fontes legítimas de força para as quais qualquer político árabe pode se voltar se baseiam em poder tribal ou laços religiosos.

"Nós vimos no último domingo que mesmo se você for um ex-presidente concorrendo a uma cadeira no Parlamento, em uma pequena área onde todos conhecem você, é impossível vencer com o apoio americano", disse Rasheed.

Por grande parte do ano passado, o Líbano se viu em meio a um grande confronto entre o movimento 14 de Março, apoiado pelos Estados Unidos e que ajudou a expulsar a força síria do país em 2005, conquistando a maioria parlamentar naquele ano, e o movimento de oposição, apoiado pela Síria e o Irã, liderado pelo Hezbollah e pelo Movimento Patriótico Livre, do general Michel Aoun.

A votação de domingo era amplamente vista como um sinalizador das inclinações políticas do país no confronto.

Os cristãos libaneses costumam nutrir mais simpatia pelos Estados Unidos do que os outros árabes. Mas a tensão entre a facção do primeiro-ministro Fouad Siniora, apoiada pelos americanos, contra a apoiada pelos iranianos, era palpável na eleição de domingo.

E apesar da expectativa de um voto de solidariedade - Gemayel estava concorrendo para ocupar a cadeira que ficou vaga devido ao assassinato de seu filho, Pierre - e o ex-presidente ser um nome conhecido, os cristãos libaneses da região montanhosa de Metn, juntamente com os poucos xiitas e outros que vivem lá, votaram em uma chapa mais improvável: um aliado do Hezbollah, aparentemente simpático ao Irã e Síria e, acima de tudo, em oposição aos Estados Unidos.

"Nosso problema com o 14 de Março não é o fato de estar alinhado com os americanos, mas suas políticas", disse Alain Aoun, sobrinho do general Aoun. Ele acrescentou que o apoio americano acirrou as tensões ao encorajar a maioria no governo a resistir a concessões. "Nós pedimos aos Estados Unidos que aprendam com esta experiência; eles não devem se envolver em qualquer conflito interno ou tomar partido. Eles devem apoiar todos os libaneses".

O problema não é necessariamente o apoio em si, disse Nassif, mas o fato de invariavelmente distorcer conflitos, agravando ao invés de aliviar as tensões sectárias e étnicas.

"Quando os Estados Unidos interferem a favor de um partido, sua interferência leva a uma explosão", disse. "Os Estados Unidos dizem abertamente que apóiam o governo Siniora, mas eles deveriam dizer que apóiam o governo libanês".

Mas ocorreu uma intervenção americana que funcionou no Líbano, notou Nassif.

"Em 1958, quando os Estados Unidos interferiram militarmente no Líbano, eles disseram que era para ajudar o Líbano a recuperar a estabilidade", disse, referindo-se à decisão do presidente Dwight D. Eisenhower de enviar 14 mil soldados para escorar o governo do presidente Camille Chamoun e abrir o caminho para seu sucessor, o general Fuad Chehab. A intervenção é conhecida por ter impedido que os governos da Síria e do Egito desestabilizassem o país.

"Chehab foi eleito logo depois e ninguém protestou contra a presença deles aqui; poucos meses depois eles se retiraram", disse Nassif sobre as forças americanas. "Em 1982, ocorreu uma nova interferência militar e acabou em desastre. Eles apoiaram Israel e Gemayel contra os palestinos, que eram apoiados pelos partidos libaneses".

Nassif acrescentou: "Desde então, toda vez que os americanos interferem, termina em guerra ou na expulsão deles".

*Nada Bakri, em Beirute, Líbano, contribuiu com reportagem George El Khouri Andolfato

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