UOL Notícias Internacional
 

10/08/2007

Iraquianos afluentes que fogem para a Jordânia encontram dor e pobreza

The New York Times
Sabrina Tavernise*

Em Amã, Jordânia
Após a morte de seu marido, Amira vendeu toda uma geração de pertences de sua família, fez as malas das crianças e deixou para trás a casa grande deles em Bagdá, na qual permaneceram apenas o jardineiro e a empregada.

Agora, um ano depois, ela trabalha fritando bolinhos de carne nesta capital cor de areia, incapaz de comprar óculos para seu filho e, nos momentos de quietude, sofrendo a amargura da perda.

Shawn Baldwin/The New York Times 
Zeinab Zuhair Majid e o marido na cozinha de sua casa de três cômodos em Amã, Jordânia

A guerra espalhou centenas de milhares de iraquianos por todo o Oriente Médio, mas aqueles que vieram para cá tendiam a ser os mais ricos. A maioria carece de status de residência e não é autorizada a trabalhar, mas, como antes eram gerentes de banco, diretores de clubes e empresários, eles achavam que seu dinheiro duraria.

Não durou. Os aluguéis são caros, as escolas não são gratuitas e os empregos clandestinos pagam pouco. Uma pesquisa envolvendo 100 famílias iraquianas revelou que 64% sobreviviam do dinheiro da venda de seus bens.

Agora, à medida que se aproxima o início do novo ano letivo, muitos iraquianos que estão aqui dizem que não conseguem mais arcar com algumas das necessidades básicas da vida - ensino para seus filhos e consultas médicas para suas famílias. Dentes são arrancados em vez de tratados. Xampu não faz mais parte da lista de compras.

"Minhas economias acabaram", disse Amira, que tem 50 anos. "Meus filhos não freqüentarão a escola neste ano". É uma nova realidade dolorosa para uma parte importante da população do Iraque, o centro secular letrado. Eles se recusaram a tomar partido à medida que a violência piorava. E o sofrimento deles prenuncia algo maior para o Iraque. Quanto mais pobres se tornarem e mais tempo permanecerem longe, mais debilitado o Iraque se tornará, dificultando as chances de recuperação do país.

"O grupo de ligação da população não existe mais", disse o ex-primeiro-ministro Ayad Allawi, que atualmente passa a maior parte do seu tempo na Jordânia. "A classe média deixou o Iraque".

Os iraquianos seguiram para a Jordânia e Síria em 2005 e 2006, com a classe profissional optando pela Jordânia. As placas no segundo andar do Al Essra, um hospital privado no centro de Amã, exibem apenas o nome de médicos iraquianos. Os jordanianos têm sido relativamente lenientes, registrando os médicos em seus sindicatos e permitindo que a maioria viva na Jordânia sem permissão de residência.

Mas no início deste ano, os iraquianos estavam pesando tanto neste pequeno país que as autoridades jordanianas reduziram acentuadamente a permissão de entrada de iraquianos. (Rejeições se tornaram tão comuns que a Iraqi Airways atualmente oferece 30% de desconto para o retorno dos passageiros que tiveram sua entrada negada.)

Muitos iraquianos pensaram que a Jordânia seria uma parada no caminho para a Austrália ou Suécia, ou pelo menos um breve período de descanso do inferno em Bagdá. Mas à medida que os meses passavam, ficou claro que a maioria dos países tinha fechado suas portas para os iraquianos, que a guerra estava se agravando e que as famílias expatriadas estavam atoladas e queimando suas economias.

As autoridades australianas rejeitaram duas vezes Hassan Jabr, um professor de espanhol que deixou sua casa elegante com jardim em Bagdá depois que seu filho de 12 anos foi seqüestrado e morto no ano passado. Agora, com o fim de suas economias, que já estavam seriamente desgastadas após o pagamento do resgate de US$ 10 mil para tentar ter seu filho de volta, ele está vivendo dos cartões de racionamento que sua mãe vende em Bagdá.

"Nós vimos a realidade em Amã e ficamos chocados", ele disse, sentado em seu frugal apartamento e um quarto no leste de Amã. "Nós tínhamos planos para dois meses".

Os iraquianos aqui nunca foram formalmente contados. Uma pesquisa de um grupo norueguês, o Fafo, que ainda não foi divulgada, deverá informar que há menos da metade dos 750 mil normalmente estimados como presentes na Jordânia.

Mas ainda assim representam 10% da população de 2 milhões de Amã, onde vive a maioria dos iraquianos, e as agências de ajuda aumentaram seus esforços. Neste mês o governo jordaniano, sob pressão dos Estados Unidos, concordou em permitir que as crianças iraquianas sem residência freqüentem as escolas públicas, um direito não estendido a outros estrangeiros.

Mas as escolas estão lotadas e o governo ainda não se preparou para a mudança, argumentando que deve receber ajuda para implementá-la. Agências da ONU estão pedindo dinheiro adicional para ampliações, primeiros acrescentando novos turnos nas escolas existentes.

O grupo humanitário Save the Children disse que encaminhou 4 mil iraquianos a escolas nos últimos meses, mas que isto não garante a matrícula.

Amira procurou a escola pública em seu bairro, mas foi informada que não havia vaga para seus filhos. A escola particular lhe custou US$ 5 mil no ano passado, um terço de suas economias.

À medida que a classe média se torna pobre, novos padrões se desenvolvem. Carne não faz mais parte da receita do ensopado de Zeinab Majid. Ela compra os legumes pouco antes do anoitecer, quando os preços são mais baixos. Uma estranha lhe ofereceu o uso da máquina de lavar, um gesto que quase a levou às lágrimas.

Ela veio para Amã em setembro passado, depois que seu marido, um pintor, recebeu duas ameaças e o estúdio que usava foi destruído por uma bomba. Eles venderam tudo. Agora seu marido, um homem quieto de óculos redondos pequenos, passa os dias pintando pequenas telas, enquanto seus meninos, de 7 e 4 anos, assistem desenhos em um antigo televisor. "Há dias em que fico completamente sem dinheiro", ela disse, enquanto servia um suco aos visitantes. Uma organização católica de ajuda, a Caritas, ajudou a pagar o curso da primeira série de seu filho no ano passado.

A dor da guerra fecha as pessoas, e os recém-chegados tendem a viver vidas isoladas, dividindo a comunidade em pequenos redutos tristes. Amira faz suas tarefas diárias de forma mecânica, como uma sobrevivente atônita de um naufrágio.

As lágrimas vêm fácil quando ela se recorda dos pertences que vendeu, do álbum de família que não trouxe. Seu marido, um sunita, morreu cinco dias depois que homens trajando uniformes da polícia o levaram de sua loja no ano passado. Seu rosto estava cheio de hematomas e seu corpo quebrado. Foi exatamente no 22º aniversário do dia em que se conheceram.

"Eles estavam atrás da felicidade", ela disse, seu rosto molhado de lágrimas. "Eles queriam matar a felicidade".

Os Estados Unidos prometeram aumentar o número de iraquianos que receberiam, e a ONU encaminhou 9.100 casos ao país neste ano, mas até o momento apenas 120 iraquianos chegaram, segundo o Departamento de Estado. Espera-se a chegada de mais centenas nas próximas semanas.

Ficar sem dinheiro é assustador, de forma que algumas famílias optaram por se mudarem para a Síria, onde o custo de vida é mais baixo, ou, em alguns casos, voltar para Bagdá - e para a guerra.

Aseel Qaradaghi, uma engenheira de software de 25 anos, estava grávida quando trouxe sua pequena filha para cá no ano passado, após receber ameaças de militantes islâmicos em seu celular. O marido dela, um tradutor para uma firma de segurança sul-africana, permaneceu em Bagdá para ganhar dinheiro para a família. Mas quando ele não telefonou no aniversário dela, ela tinha certeza que algo estava errado e apenas após pressionar os amigos deles por uma linha telefônica cheia de chiado é que ela soube que ele tinha sido seqüestrado.

Agora, oito meses depois, ela recebe um pequeno salário em uma creche, mas sem o salário do marido ele é insuficiente, de forma que pediu o status de refugiada. Se o pedido for rejeitado, ela terá que voltar para Bagdá. Ela desconhece o destino do marido, mas teme que será o mesmo do irmão dela, que foi morto porque trabalhava como tradutor para as forças armadas americanas.

"Eu não posso me permitir pensar nele", ela disse, balançando seu bebê no colo. "No momento em que me permitir sentimentos, minha vida vai parar. Eu tenho medo do momento em que entrarei em colapso."

Na semana passada, Amira tinha uma convidada. Nada, mãe de três e cujo marido trabalhava como vice-diretor de um clube social de prestígio em Bagdá, se preparava para mudar para a Síria. Os milhares de dólares da venda de vários carros e da casa quase acabaram.

"Minha filha era a segunda de sua classe", disse Amira. "Eu já viajei por todo o mundo. Eu quero contar aos americanos o que aconteceu conosco".

*Yusra al Hakeem, em Amã, contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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