UOL Notícias Internacional
 

10/08/2007

Revolta contra linha de trem de Xangai pode sinalizar mudança

The New York Times
Howard W. French

Em Xangai, China
"Eu tenho um sonho", gostava de dizer aos seus assessores Chen Liangyu, o secretário do Partido Comunista de Xangai que caiu em desgraça, repetindo conscientemente as palavras do reverendo Martin Luther King Jr. E como líder da cidade mais rica da China, Chen tinha o poder para tornar a maioria desses sonhos realidade.

O "hai" na palavra Xangai significa oceano, mas a cidade não tinha praia, ele lamentava. De forma que as autoridades municipais construíram uma praia de 10 km nos subúrbios de Xangai, usando 128 mil toneladas de areia transportada do sul da China.

Chen também gostava de tênis, então um complexo de tênis de classe mundial foi construído a um custo relatado de US$ 290 milhões, apesar de poucos em Xangai praticarem o esporte. Em uma cidade onde relativamente poucos podem ter um automóvel particular, o governo de Chen construiu um autódromo de US$ 300 milhões que os críticos dizem ser um dos mais exuberantes do circuito da Fórmula Um.

Chang W. Lee/The New York Times 
Zhu Xiujuan em sua casa em Xangai, localizada próxima a uma via elevada

Mas talvez tenha sido decisiva a proposta de uma expansão de US$ 4,5 bilhões de uma linha de trem de levitação magnética, maglev, até Hangzhou, uma cidade vizinha, um projeto amplamente criticado que provocou algo relativamente novo para a China: uma tempestade de protestos populares.

Ao longo do caminho, Chen desafiou abertamente os pedidos do governo central para conter o crescimento de Xangai e, seguindo a ênfase do presidente Hu Jintao de uma "sociedade harmoniosa", prestar mais atenção na crescente desigualdade entre ricos e pobres na China. A busca por riqueza, ele disse, era mais importante.

O governo central agiu contra Chen em setembro passado, o prendendo por suspeita de envolvimento em um imenso escândalo de fraude municipal. Ele foi expulso do Partido Comunista em julho e simultaneamente removido de seu cargo como delegado do Congresso do Povo, perdendo sua imunidade antes do que espera-se que seja um julgamento secreto e rápido.

Mas para muitos aqui, o fim simbólico ocorreu em maio, com a suspensão do projeto do maglev, seu maior e certamente mais caro sonho. Para muitos, a suspensão diante da grande oposição popular sinalizou o fim de uma era de mega-desenvolvimento de cima para baixo, com conseqüentes oportunidades para corrupção de alto escalão, e o início de uma nova era na qual a voz da crescente classe média da China não poderá mais ser ignorada.

"A população está preocupada com o eletromagnetismo do trem, e o governo está estudando isto, um dos motivos para o projeto ter sido suspenso", um representante do Congresso do Povo foi citado como tendo dito ao "The China Business Journal" em um dos muitos artigos que sugeriram que as queixas dos moradores tiveram um importante papel na suspensão.

Sob Chen, enquanto o governo de Xangai corria para concluir uma série de projetos gigantescos que redesenharam o centro da cidade antes da Feira Mundial, marcada para a cidade em 2010, o descontentamento da população crescia constantemente. Dezenas de milhares de moradores do centro foram despejados, relocados na maioria dos casos para subúrbios remotos, inacabados, e recebendo indenizações muito abaixo do valor de mercado por suas propriedades.

Nos últimos anos, enquanto os rumores de corrupção no alto escalão se espalhavam, a governo de Chen não conseguia se reunir sem um grande aparato de segurança, digno da visita de um chefe de Estado estrangeiro, devido ao persistente comparecimento de manifestantes.

Diferente da multidão de pobres e idosos que freqüentemente enfrentavam repetidas prisões para protestar contra os despejos, os oponentes do maglev eram principalmente membros da nova e crescente classe média de Xangai, que moram ao longo da rota proposta do trem, no distrito de Minhang.

Os moradores da área, já altamente cortada por trilhos de trem e estradas, fizeram uma petição junto ao governo contra o projeto, se queixando dos supostos riscos da radiação magnética, poluição sonora e o efeito de mais uma linha de transporte sobre o preço dos imóveis. Quando suas petições não tiveram efeito, eles aumentaram os protestos, bloqueando ruas, fazendo manifestações em frente à sede do governo distrital e pendurando faixas em seus apartamentos que eram visíveis a quilômetros de distância.

No final, alguns também começaram a questionar a forma como o dinheiro público estava sendo gasto, um assunto que raramente é discutido aqui. Neste caso, isto significava questionar o início de um oneroso projeto de trem de alta tecnologia para Hangzhou no mesmo ano em que outra linha de trem de alta velocidade, cara, ligando Xangai a Hangzhou, entrou em serviço.

Muitos deles apontaram que a rota do maglev existente é um fracasso comercial. Atingindo a velocidade máxima de 416 km/h, ele leva apenas sete minutos para cobrir os 30 km do aeroporto internacional da cidade até um ponto na margem oposta do Rio Huangpu, no centro de Xangai. Mas o preço das passagens é alto e os passageiros são poucos.

"Este maglev é desnecessário", disse Chen Qi, 36 anos, um executivo de contabilidade de uma empresa de comércio online que mora ao longo da linha e que se uniu aos vizinhos na oposição ao projeto. "Não está claro quem se beneficiaria com ele. Se é para a Feira Mundial, o que acontecerá depois da Feira, e quem iria diretamente do aeroporto para a Feira? Do aeroporto as pessoas vão para seus hotéis".

Outros condenaram o trem como o tipo de projeto de prestígio que a cidade precisa evitar. Por que alguém gastaria cerca de US$ 25 no maglev quando pode gastar apenas US$ 2,65 para chegar confortavelmente a Hangzhou em duas horas, perguntou Zhao Huiyu, um professor de lei ambiental que mora ao longo da linha. "Se isto não é algo para o povo, então o que é? É um monumento para um líder? Isto não nos trouxe nada além de problemas".

Apesar das intenções de longo prazo do governo para a rota do trem permanecerem obscuras, muitos aqui esperam que a suspensão do projeto do maglev represente uma mudança na forma como esta cidade opera.

"Se Chen Liangyu ainda estivesse no poder, ele pagaria o que fosse preciso para fazer o que deseja", disse um especialista da Academia Chinesa de Ciências Sociais sob a condição de anonimato, porque prestou consultoria à cidade em questões de planejamento. "A distância entre a rota proposta e os prédios próximos é estreita demais? Alargue. Decida quanto dinheiro é necessário, faça as grandes empresas arcarem com o custo e lhe dê outros vantagens em troca". George El Khouri Andolfato

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