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11/08/2007

Chefe do Fed enfrenta sua primeira crise

The New York Times
Louis Uchitelle
Será que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deve ajudar a fornecer liquidez a administradores de fundos hedge bilionários e corretores milionários - as mesmas pessoas que compraram as hipotecas de risco que levaram ao atual pânico no mercado?

Esta é, em essência, a pergunta que rondava Ben S. Bernanke enquanto confrontava a primeira crise em seus 18 meses como presidente do Fed.

Não há escassez de opiniões e algumas foram gritadas. Jim Cramer, conhecido por seu modo melodramático no canal de notícias financeiras "CNBC", pediu furiosamente para Bernanke reduzir as taxas de juros, algo que o Fed resiste em fazer.

Doug Mills/The New York Times - Arquivo 
Bernanke enfrenta a primeira crise como presidente do Fed, cargo que ocupa há 18 meses

Há uma semana, Cramer acusou o Fed de "sonolento" e que o presidente "não tem idéia de quão ruim a situação está lá fora", nos mercados. Um vídeo de seus comentários foi visto mais de 1 milhão de vezes no YouTube.

Taxas de juros mais baixas ajudariam os operadores de fundos hedge e outros administradores financeiros porque o mercado imobiliário supostamente se fortaleceria com a queda das taxas hipotecárias. Um mercado hipotecário fortalecido daria aos operadores de fundos hedge e outros detentores dos títulos de risco uma chance de vendê-los, o que eles têm dificuldade de fazer em meio ao atual pânico.

Mas outros vêem um risco maior para a economia em seguir os apelos de Cramer e de outros em Wall Street. Reduzir as taxas de juros para ajudar os fundos hedge tenderia a encorajar um ressurgimento das hipotecas de risco que causaram a turbulência.

A questão é freqüentemente tratada como "risco moral", o que significa que aqueles que assumem riscos e que provocaram este pânico se sentiram protegidos e provavelmente o fariam de novo - assim como um jovem adulto cujos pais pagaram uma grande dívida de cartão de crédito poderia se sentir livre para se endividar de novo.

"O argumento é, as pessoas fizeram coisas arriscadas", disse Jan Hatzius, economista-chefe doméstico da Goldman Sachs. "Elas estão sendo punidas agora, mas se você reduzir as taxas de juros, a punição será reduzida".

Bernanke vê a questão de forma mais pragmática. As ações e palavras do Fed sugerem que, longe de se preocupar com o risco moral, o presidente está tentando tranqüilizar acionistas e portadores de títulos.

Ao injetar um total de US$ 59 bilhões na quinta e sexta-feira no mercado, pequenos investidores podem continuar negociando ações, confiantes que os cheques que receberem de seus corretores não voltarão. Esta nova liquidez permite aos bancos fornecer crédito ao mercado sem provocar alta das taxas de juros.

As taxas de curto prazo, na verdade, subiram devido ao pânico, e a ação do Fed devolveu a taxa chave que controla de volta ao patamar de 5,25%, que o banco central considera certa para manter a economia crescendo ao mesmo tempo que minimiza o risco de inflação mais alta e, talvez, uma desaceleração da economia.

"A primeira linha de defesa para lidar com o problema da liquidez é assegurar que o sistema dispõe de reservas suficientes, para que possa haver um volume adequado de empréstimos", disse Brian Sack, um economista da Macro Economic Advisers.

A próxima linha de defesa, se o pânico do mercado persistir e ameaçar uma recessão, seria reduzir as taxas de juros. Cramer e alguns outros em Wall Street querem que Bernanke faça isto imediatamente.

Bernanke manteve a taxa dos fundos federais constante por mais de um ano, argumentando nesta semana que a economia está razoavelmente forte e que a redução das taxas de juros pode provocar inflação. "A preocupação predominante continua sendo o risco de que a inflação não ficará moderada como se espera", disse o Fed em uma declaração após sua última reunião de política, na terça-feira.

Ainda assim, se o pânico persistir e a economia começar a sofrer, Bernanke supostamente seria forçado a usar a única outra ferramenta que o Fed dispõe - uma redução dos juros. Seu treinamento, e os livros e trabalhos que escreveu, sugere que relutaria em fazê-lo.

Em alguns círculos, ele foi apelidado de "Ben Helicóptero" por causa de um discurso de 2002, no qual sugeriu que se as taxas de juros caíssem a zero em uma economia muito fraca, ele recorreria a jogar dinheiro de helicópteros no sistema financeiro para mantê-lo em atividade.

Alguns citaram o apelido ao lhe pedirem que reduzisse as taxas de juros, que é uma questão diferente daquela que ele estava discutindo em 2002.

Sua formação sugere uma forma diferente de pensar, uma na qual pânicos de mercado devem ser tratados não com reduções nas taxas de juros, mas sim com liquidez de curto prazo.

Como economista da Universidade de Princeton, por exemplo, ele escreveu extensivamente nos anos 80 sobre as causas da Grande Depressão, argumentando que o Fed poderia ter impedido as danosas fugas de capital dos bancos se tivesse fornecido a liquidez necessária, como ele está tentando fazer agora, acalmando assim os depositantes em vez de forçar os bancos a mandá-los embora de mãos vazias.

O Fed fracassou em fazê-lo nos anos 30, rompendo com a tradição. Por mais de 150 anos, Bernanke notou, os bancos centrais exerceram o papel de emprestador de último recurso, fornecendo liquidez suficiente para permitir que os bancos operem normalmente, independente das pressões sobre eles.

Alguns argumentam que se Bernanke não está disposto a reduzir a taxa dos fundos federais dos atuais 5,25% - a taxa que os bancos pagam para tomarem empréstimos no mercado - então o Fed deve ao menos reduzir sua taxa de desconto.

Esta é a taxa que o Fed cobra para emprestar dinheiro diretamente aos bancos e outras instituições de crédito, que atualmente está em 6,25%. Cramer, entre outros, pediu pela redução da taxa de desconto, mas Hatzius argumenta que tal redução poderia aumentar a crise.

A maioria dos corretores, ele notou, espera que até o final do ano o Fed reduzirá a taxa dos fundos federais em meio ponto percentual.

"Se o Fed reduzisse a taxa de desconto", disse Hatzius, "então multiplicaríamos as expectativas de uma redução muito maior na taxa dos fundos federais, e isto por si só poderia ser prejudicial para a economia".

Apesar de toda a turbulência nos mercados nesta semana, os mais imediatamente afetados são os fundos hedge, bancos e empresas de hipoteca que negociaram, investiram e venderam mais agressivamente hipotecas de risco. As pessoas envolvidas são na maioria as mais ricas do país. Os fundos hedge, por exemplo, exigem que os investidores tenham patrimônio superior a US$ 5 milhões.

"No momento é uma crise limitada", disse Albert Wojnilower, um economista de Wall Street. "E se tivesse que apostar minha vida, eu apostaria na permanência do jeito que está. Mas eu preferiria não apostar minha vida". George El Khouri Andolfato

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