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11/08/2007

Construção de estrada israelense na Cisjordânia prejudicará a locomoção dos palestinos

The New York Times
Steven Erlanger
Em Jerusalém
Israel está construindo uma estrada que corta a Cisjordânia, a leste de Jerusalém, pela qual tanto os israelenses quanto os palestinos poderão viajar - separadamente.

São dois pares de pistas, um para cada grupo, separados por um muro alto de concreto projetado para lembrar as pedras de Jerusalém, uma medida decorativa que indica a intenção de que a estrada tenha caráter permanente. O lado israelense da rodovia conta com diversos trevos. O lado palestino tem poucos.

A idéia por trás dessa estrada, segundo aqueles que a projetaram sob o governo do ex-primeiro-ministro Ariel Sharon, é permitir que Israel construa mais assentamentos em torno de Jerusalém Oriental, separando a cidade da Cisjordânia, mas permitindo que os palestinos se desloquem de forma desimpedida no eixo norte-sul que corta o território ocupado por Israel.

Rina Castelnuovo/The New York Times 
Homem caminha no lado israelense de estrada, que não permite o acesso aos palestinos

"Os norte-americanos exigiram de Sharon a contigüidade para um Estado palestino", afirma Shaul Arieli, um coronel do exército da reserva que, em 2000, participou das negociações de Camp David e que é especialista em mapas. "A estrada foi a resposta de Sharon - construir uma rodovia para os palestinos entre Ramallah e Belém, mas não para Jerusalém. Esta foi a forma de conectar a Cisjordânia, mas mantendo Jerusalém unida e não dando aos palestinos uma permissão automática para entrar em Jerusalém Oriental".

Sharon falou em "contigüidade de transporte" para os palestinos em um futuro Estado palestino - o que significa que caso os assentamentos israelenses vierem a se sobressair na área, os carros palestinos na estrada passarão desimpedidos pelo território controlado por Israel, e mesmo pelas áreas confinadas pelos israelenses com o muro de separação.

A maioria dos palestinos, ao contrário dos colonos israelenses, não terá acesso a saídas da estrada em áreas circundadas pelo muro, e também não poderá viajar para Jerusalém, nem mesmo para a zona leste da cidade, capturada e ocupada por Israel em 1967.

A estrada permite esse arranjo ao fazer com que o tráfego palestino siga por túneis subterrâneos ou por viadutos, enquanto que os motoristas israelenses contarão com pistas adjacentes que permitirão que peguem estradas de acesso. Os palestinos que contarem com cartões de identidade israelenses ou com permissões especiais para entrar em Jerusalém poderão usar o lado israelense da estrada.

O governo do primeiro-ministro Ehud Olmert apresentou recentemente gestos conciliatórios aos palestinos, e afirma desejar fazer tudo o que puder no sentido de facilitar a criação de um Estado palestino. Mas Olmert, assim como Sharon, afirmou que Israel pretende manter a ocupação da zona leste de Jerusalém.

Para Daniel Seidemann, um advogado que assessora um grupo israelense chamado Ir Amim, que trabalha pela cooperação israelo-palestina em Jerusalém, a estrada sinaliza um mapa sinistro para o futuro - um futuro no qual Israel permanecerá ocupando praticamente todo o território de Jerusalém Oriental e manterá um anel de assentamentos em torno desta área, que funcionará como um cordão de isolamento separando a predominantemente árabe Jerusalém Oriental do resto da Cisjordânia, que se tornará parte de um futuro Estado palestino. Em um acordo final, acredita-se que os israelenses oferecerão "permutas de terras" aos palestinos em outros locais para compensar a ocupação permanente desta área.

A estrada permitirá que os colonos israelenses que morarem no norte, perto de Ramallah, desloquem-se rapidamente para Jerusalém, protegidos dos palestinos que estarão à sua volta. Ela também ajudará a garantir que o grande assentamento de Maale Adumim - um subúrbio de 32 mil habitantes ao leste de Jerusalém, no qual trabalha a maioria dos moradores - permaneça sob controle israelense, juntamente com a área atualmente desabitada de 12 quilômetros quadrados conhecida como E1, entre Maale Adumim e Jerusalém. Israel também pretende manter essa área palestina sob ocupação permanente.

Para os palestinos, a estrada ligará as partes norte e sul da Cisjordânia. Em um futuro no qual poderão existir menos postos militares de revista, eles poderiam viajar diretamente de Ramallah, ao norte de Jerusalém, a Belém, ao sul - mas sem contarem com permissão para entrar nem em Jerusalém nem no bloco de assentamentos Maale Adumim.

"Para mim, esta estrada se constitui em uma medida para criar fronteiras, para modificar o status final", critica Seidemann. "Ela permitirá que os habitantes judeus de Maale Adumim e E1 entrem em Jerusalém, possibilitando que Israel alegue: 'Vejam, estamos tratando bem os palestinos - existe contigüidade geográfica'".

"Meça você mesmo", diz ele. "A estrada palestina tem 16 metros de largura. A teoria israelense de um Estado palestino contíguo tem 16 metros de largura".

Khalil Tufakji, o proeminente geógrafo palestino, critica: "Essa estrada é parte do plano de Sharon: dois Estados em um, de forma que os israelenses e os palestinos tenham as suas estradas distintas. Os palestinos não terão conexão com os israelenses, e terão que viajar através de túneis e sobre viadutos, enquanto que os israelenses viajarão pela terra palestina sem ver nenhum árabe. No fim das contas, não existe Estado palestino nenhum, ainda que os israelenses digam que exista. Em vez disso, haverá um estado colonizador e uma área palestina construída de acordo com um plano, dividida em três setores, cortada por faixas de assentamentos israelenses e com seus trechos conectados apenas por estradas estreitas".

Quando a reportagem pediu que David Baker, um porta-voz do governo israelense, fizesse um comentário sobre o problema, ele afirmou: "As medidas de segurança nestas estradas foram adotadas para proteger os cidadãos de Israel. E elas não estão vinculadas a qualquer outra questão".

Um porta-voz do Departamento de Administração Civil das forças armadas israelenses disse que os palestinos que contarem com permissões para entrar em Israel poderão usar o lado israelense da estrada, e que, para os palestinos comuns, a rodovia será uma rota mais rápida e melhor no sentido norte-sul do que qualquer estrada atual.

Existem numerosas estradas pelas quais somente os israelenses e as pessoas que contam com uma permissão israelense podem transitar, mas nenhuma delas é tão segregada quanto esta.

A área E1 tem sido um ponto de intensa discórdia na questão do controle sobre Jerusalém. Algumas pessoas, como Martin Indyk, um ex-embaixador dos Estados Unidos em Israel, que atualmente preside o Centro Saban na Brookings Institution (um instituto de pesquisas norte-americano de centro-esquerda), argumenta que Israel deveria devolver a E1 aos palestinos. "A E1 é uma peça crítica para a manutenção da integridade territorial e da contigüidade entre a Cisjordânia e Jerusalém Oriental - é o único local no qual é possível fazer tal coisa".

Israel prometeu aos Estados Unidos que não construirá no momento habitações na E1, tendo congelado um plano para a construção de 3.500 residências. Mas Israel está terminando de construir uma instalação policial de quatro andares em uma colina estratégica na E1. O prédio deverá ser o principal quartel de polícia para a Cisjordânia. Os israelenses estão construindo linhas elétricas e redes de abastecimento de água no local para futuros projetos de assentamento.

E eles estão também construindo essa estrada. O seu trecho quase concluído, no qual só falta a instalação de iluminação e o término das obras de construção de túneis e viadutos, tem uma extensão de cerca de quatro quilômetros.

Atualmente a estrada está aberta para a Cisjordânia, mas ela passa pelo trecho no qual deverá ser construído o muro israelense da separação, que ainda não foi erigido em torno da E1 ou de Maale Adumim.

Quando o muro estiver pronto, a estrada será uma espécie de cordão umbilical que passará pelo território murado e controlado por Israel, a fim de conectar as duas partes da Cisjordânia.

"Atualmente existe uma grande lacuna no muro entre Azzariya e Shuafat, de cerca de quatro ou cinco quilômetros, e Israel não começou a construir a barreira em torno de Maale Adumim", diz Arieli, o coronel da reserva. "Mas essa estrada será a resposta se e quando Israel construir o muro em torno de Maale Adumim. Dá para perceber que Israel está criando as condições para o futuro. O governo procura tirar vantagem da atual situação a fim de preparar a infra-estrutura para o momento certo de dar início às obras na E1".

Seidemann acredita que Olmert, enfrentando agora muitos problemas, não dará início a obras na E1, mas que o líder do Likud, Benjamin Netanyahu, poderá fazê-lo caso seja eleito primeiro-ministro. Netanyahu disse em 2005 que faria as obras na área E1, independentemente das preocupações norte-americanas.

Micaela Schweitzer-Bluhm, uma porta-voz do Consulado dos Estados Unidos em Jerusalém, repetiu que a política defendida pelos EUA é a de que os palestinos tenham permissão para se deslocar mais facilmente pela Cisjordânia, de forma consistente com a necessidade de manutenção da segurança.

Ao ser indagada se esta estrada predetermina um status final, ela respondeu: "O governo dos Estados Unidos tem encorajado as partes envolvidas a evitar quaisquer ações que possam predeterminar um status permanente". No entanto, a porta-voz disse que não tem autorização para fazer comentários mais específicos.

Tufakji diz que tornou-se cínico em relação à forma como Israel constrói para o futuro definido pelos israelenses, não importando o que estes prometam a Washington. Ele vê uma Cisjordânia dividida em três partes por blocos de assentamento israelenses, dos quais os mais importantes serão Maale Adumim e E1, em volta da capital que ambos os povos afirmam ser sua. "Israel está construindo essas obras para manter a ocupação da E1, para rodear Jerusalém", acusa Tufakji. "Eles estão trabalhando no sentido de criar uma área com o mínimo de palestinos e o máximo de israelenses". UOL

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