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12/08/2007

Combate ao aquecimento global exige vontade política e bolsos fundos

The New York Times
De Michael Fitzgerald*
O aquecimento global é, por natureza, um problema grande o suficiente para gerar o tipo de necessidade que pode ser mãe, pai e parteira de invenções. E há muitas grandes idéias por aí para enfrentá-lo. Algumas podem até levar a empreendimentos substanciais, assim como ocorreu com nossas necessidades militares. Mas as idéias que estão sendo apoiadas pelos EUA, como os biocombustíveis e o comércio de emissões de carbono, talvez não tenham muito potencial para realmente evitar a mudança climática.

O cientista britânico James E. Lovelock, cujo livro 'The Revenge of Gaia' (A vingança de Gaia, 2006) afirma que a maior parte da humanidade está condenada, não dá muito crédito à energia renovável. Em um debate sobre mudança climática na Universidade de Cambridge neste verão, perguntaram a Lovelock qual seria a medida mais eficaz que as pessoas poderiam tomar.

Como os seres humanos, seus animais de estimação e o gado produzem cerca de um quarto do dióxido de carbono liberado na atmosfera, ele disse: "Parem de respirar".

Essa é uma boa idéia.

Mas mesmo um pessimista como Lovelock acha que nem tudo está perdido. Ele apóia a substituição das usinas movidas a carvão por energia nuclear, mas também defende processos não testados, como disparar partículas na atmosfera para desviar os raios solares. Ele também endossa o processo de aspirar o dióxido de carbono do céu e enterrá-lo, conhecido como seqüestro de carbono.

São grandes idéias, e todas totalmente contrárias ao aquecimento global, mas caras demais para inventores ou mesmo para empresas.

Um novo tipo de aterro
Howard J. Herzog, do renomado MIT (Massachusetts Institute of Technology), é um defensor do seqüestro de carbono, que poderia se chamar criação de aterros de carbono. As tecnologias básicas já são usadas no ramo de energia.

Por exemplo, as companhias de petróleo bombeiam dióxido de carbono nos campos antigos para forçar a saída de mais petróleo.

Mas não sabemos se isso pode ser feito numa escala que nos permita continuar aumentando as usinas de energia movidas a carvão, por exemplo, ou se o dióxido de carbono ficará enterrado. Para descobrir, Herzog estima que seriam necessários US$ 1 bilhão por ano, nos próximos oito a dez anos, para se montar um grande projeto de teste.

O problema é que dos cerca de US$ 2 bilhões que o Departamento de Energia está gastando em pesquisas de coisas como carvão de combustão mais limpa, somente US$ 100 milhões são destinados à pesquisa de aterros de carbono.

"Acho um tanto surpreendente como o seqüestro recebeu poucas verbas", escreveu David M. Reiner, professor de política tecnológica na Escola de Economia Judge da Universidade de Cambridge, numa mensagem eletrônica.

Reiner notou que a tecnologia tem apoio dos dois partidos no Congresso e poderá suprir diversas necessidades. Poderia aliviar o rápido crescimento das emissões de dióxido de carbono resultantes da enorme expansão das usinas de energia a carvão na China e na Índia e poderia ajudar a indústria do carvão a sobreviver num mundo que quer ser livre de carbono.

Entre a ciência e a ficção científica
Se criar aterros de carbono é algo relativamente aprovado, mas subfinanciado, não admira que idéias mais exóticas recebam ainda menos dinheiro.

Por exemplo, que tal captar a energia solar no espaço e usar raios-laser baseados em satélites ou microondas para enviá-la à Terra? Martin I. Hoffert, um professor emérito de física na Universidade de Nova York, estima que seriam necessários US$ 5 bilhões para construir uma usina que gerasse energia suficiente para uma cidade pequena.

J. Roger P. Angel, um físico da Universidade do Arizona, propôs usar milhões de pequenas espaçonaves para criar um guarda-sol que desviaria cerca de 10% da luz solar para longe da Terra. Isso exigiria 25 anos e vários trilhões de dólares para construir.

Depois há a geo-engenharia, que envolve disparar partículas na atmosfera para refletir a luz do sol para o espaço, criando o que se chama de efeito guarda-sol. Essa tese tem seus defensores, em parte porque parece funcionar: toda vez que um grande vulcão entra em erupção, produzindo um efeito semelhante, as temperaturas diminuem em regiões extensas.

Mas John Latham, um pesquisador-associado sênior do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, disse que simplesmente não há dinheiro para a geo-engenharia, talvez porque haja algo de contra-intuitivo em disparar partículas na atmosfera.

Robert M. Metcalfe, o co-inventor da Ethernet e hoje sócio geral da Polaris Venture Partners, se surpreende que o efeito guarda-sol não esteja recebendo mais verbas, porque parece a maneira mais simples e fácil de enfrentar o aquecimento global. Primeiro porque não depende de uma redução das emissões de dióxido de carbono.

Mas ele o considera não financiável: mal passou da fase da idéia, e os capitalistas de risco somente investem em projetos que serão comercialmente viáveis dentro de três a cinco anos.

"Quem o apoiar será considerado louco", diz Metcalfe. Provavelmente custaria US$ 1 bilhão em pesquisa, e os capitalistas de risco não podem apostar tanto dinheiro em um único projeto. Nem as empresas comerciais ou empresas de serviços públicos podem investir tanto dinheiro em algo que é muito mais pesquisa que desenvolvimento. Resta o governo federal, que gastou US$ 137 bilhões em pesquisa e desenvolvimento no ano fiscal de 2007. As verbas federais foram uma das fontes básicas da pesquisa que levou à Internet. Mas até isso avançou aos tropeços durante mais de 20 anos, antes de se tornar interessante em larga escala para investidores comerciais. E o governo não costuma aplicar US$ 1 bilhão em um único projeto, muito menos 4 ou 5 bilhões. Portanto, não saiam correndo para criar a CarbonCapture Inc. ou a SunShade Spacecraft Ltd.

Mas Reiner, de Cambridge, acredita que a mudança climática eventualmente se tornará uma prioridade de pesquisa, como aconteceu com a Iniciativa de Defesa Estratégica, o programa espacial e o Projeto Manhattan. O problema não vai desaparecer. Nem as idéias...

*Michael Fitzgerald escreve sobre negócios, tecnologia e cultura e vive na região de Boston Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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