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13/08/2007

Dois foras-da-lei disparando uma rajada de balas contra a tela

The New York Times
De A.O. Scott
A história de 'Bonnie e Clyde' foi narrada tantas vezes que adquiriu o verniz da lenda. É o tipo de fábula histórica que circula para explicar como o mundo costumava ser e como se transformou naquilo que é hoje: uma história de moralidade na qual as energias intensas da juventude derrotam as certezas decrépitas da idade, e a liberdade triunfa sobre a repressão.

Divulgação
Warren Beatty como Clyde Barrow e Faye Dunaway encarnando Bonnie Parker
EM 1967, UM CONFLITO DE GERAÇÕES
Não estou falando sobre as aventuras dos verdadeiros Clyde Barrow e Bonnie Parker, que roubaram e mataram no Texas, em Oklahoma e em Estados adjacentes, durante os maus e velhos dias da Grande Depressão. As proezas da dupla foram narradas em livros, canções e pelo cinema, mas nunca de maneira mais famosa do que no filme que tem o nome dos dois criminosos, e cuja estréia em Nova York faz 40 anos neste mês. A notoriedade de 'Uma Rajada de Balas' ('Bonnie and Clyde', EUA, 1967), dirigido por Arthur Penn a partir de um roteiro que demorou a ser escrito por David Newman e Robert Benton, e produzido por Warren Beatty, que também fez o papel de Clyde, acabou eclipsando a fama dos seus modelos da vida real.

Os altos e baixos do desempenho inicial do filme transformaram-se em um critério e em uma parábola -um episódio crucial nas histórias interligadas de Hollywood, da crítica americana de cinema e da cultura popular pós-moderna. 'Uma Rajada de Balas' foi um escândalo e uma sensação em grande parte porque pareceu introduzir um novo tipo de violência nos filmes. A sua brutalidade era crua e imediata, mas ao mesmo tempo as suas cenas de carnificina foram coreografadas com segurança formal quase alegre.

O horror do filme foi atenuado pela elegância, pelo humor ruidoso e pelo som frenético do banjo na trilha sonora. A cena final, na qual os corpos de Beatty e Faye Dunaway são sacudidos e contorcem-se sob uma tempestade de tiros (pouco depois de os personagens terem feito sexo com sucesso pela primeira vez), foi ao mesmo tempo terrível e empolgante, uma orgia de sangue e balas. Os cineastas pareciam menos interessados no peso moral da violência do que no impacto estético do filme. As mortes eram ao mesmo tempo atraentes e repulsivas. O fato de o filme ter sido tão divertido pode ter sido a coisa mais perturbadora em relação a ele.

Enquanto suportamos uma nova fase da incessante discussão sobre a violência no cinema -renovada pela recente popularidade dos filmes de horror extremamente brutais como as séries 'Jogos Mortais' ('Saw', EUA, 2004) e 'O Albergue' ('Hostel', EUA, 2005); momentaneamente intensificada pelo massacre na Virginia Tech na primavera passada; e sempre pairando sobre as conversas de jantar e campanhas políticas -vale a pena reexaminar essa lenda para verificar se ela tem algo a nos ensinar.

'Uma Rajada de Balas' estreou na América do Norte em 4 de agosto de 1967, no Festival de Cinema de Montreal. Quando o filme foi lançado em Nova York pouco depois, a recepção inicial da crítica variou do desprezo à execração ostensiva. Na liderança da ofensiva estava Bosley Crowther, o principal crítico de cinema do "New York Times", que atacou a adaptação, afirmando que tratava-se de "uma comédia barata e de violência descarada". A crítica curta e impiedosa de Crowther -"a mistura de farsa e assassinatos brutais não tem sentido e denota falta de gosto"- foi acompanhada por uma coluna da edição de domingo que atacava o filme de forma mais longa e detalhada.

O texto mais famoso que se seguiu em defesa do filme foi ainda mais longo. Em mais de 9.000 palavras, na edição de 21 de outubro do "New York Times", Pauline Kael, uma colaboradora freelance, enalteceu o roteiro como sendo "o mais empolgante filme norte-americano desde 'Sob o Domínio do Mal' ('The Manchurian Candidate', EUA, 1962)", que estreara no cinema cinco anos antes. Longe de ser uma defesa incondicional ("provavelmente parte do desconforto sentido pelas pessoas em relação a 'Uma Rajada de Balas' deve-se às suas concessões e fracassos", observou ela), o artigo de Kael defendeu de forma coerente o filme como sendo um evento cultural.

Na história de dois degenerados, uma lição
Pois a fita traz para um mundo do cinema -quase que assustadoramente público- coisas sobre as quais as pessoas vêm sentindo, conversando e escrevendo. E, assim que algo é dito ou feito nas telas do mundo, jamais poderá voltar a pertencer a uma minoria, nunca mais será a propriedade privada de um grupo educado e 'conhecedor'. Mas até mesmo para tal grupo há uma empolgação quando os seus integrantes ouvem os seus pensamentos privados expressos em voz alta e vêem parte da sua própria sensibilidade tornar-se parte da nossa cultura comum".

E, assim, 'Uma Rajada de Balas' foi o veículo algo improvável -um filme de época feito, com certa relutância, por um grande estúdio cinematográfico (Warner Brothers) por insistência de um ambicioso astro de cinema- por meio do qual um novo modo de expressão e um novo sistema de valores ingressaram na cultura popular. O filme foi rapidamente classificado como um campo de batalha em uma guerra de gerações: entre "as crianças" e os velhos chatos e respeitáveis, entre o moderno e o careta.

Segundo os relatos que eram padrão na época, e que são atualmente ensinados nas salas de aula e ensaiados nos acampamentos da Elderhostel, o moderno triunfou. Por volta do início de 1968, o careta havia sido erradicado. A revista "Time", que publicara uma crítica negativa, colocou Bonnie e Clyde, retratados por Robert Rauschenberg, na sua capa de 8 de dezembro, com o acompanhamento de um ensaio escrito por Stefan Kanfer chamado 'The New Cinema: Violence...Sex...Art' ('O Novo Cinema: Violência...Sexo...Arte').

Após passar 27 anos no "New York Times", Crowther aposentou-se. O seu lugar foi ocupado por Renata Adler, que escrevia para a revista "The New Yorker", e que não tinha ainda nem 30 anos de idade. Kael, que já era uma figura controversa e influente no mundo da crítica de cinema, entrou para a equipe da "New Yorker", na qual reinaria durante os próximos 25 anos como a mais imitada e polêmica crítica de cinema do universo de língua inglesa.

'Uma Rajada de Balas' foi indicado para dez Oscars.

O fato de ter ganhado apenas dois -o de melhor atriz coadjuvante, que foi concedido a Estelle Parsons, e o de melhor cinematografia, levado por Burnett Guffey- pode ter ajudado a assegurar a sua fama persistente. Uma vitória demasiadamente completa teria conduzido a uma falta de credibilidade. Afinal, o "hip", ou moderno, é, por definição, uma postura de oposição que fica necessariamente comprometida ao ser abraçada pelo sistema. UOL

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