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14/08/2007

Turma do nerdcore agita suas calculadoras

The New York Times
Alex Williams
Em Austin, Texas
Enquanto as ondas do batidão ricocheteiam nas paredes de aço enrugado do Emo's, clube de rock ao ar livre, um rapper peso-pena conhecido como MC Chris evolui no palco vestindo um bermudão preto bem largo, metralhando a platéia com rajadas de versos no estilo rat-a-tat. A cada disparo de versos, a platéia de mais de 400 pessoas urra em uníssono. Com as camisetas ensopadas numa noite escaldante, alguns fãs agitam os punhos no ar uivando sua aprovação. Outros, em reverência, sussurram os versos, como se recitassem uma novena.

Aquilo poderia ser apenas mais um show de hip-hop, mas alguns detalhes pareciam fora da ordem, como as canções que sampleavam o rock épico-bagaceira da banda REO Speedwagon, ou referências a ícones da cultura pop dos anos oitenta, de nomes até difíceis de recordar, como Boba Fett, "Os Goonies" e "Dungeons & Dragons". Ou então aquele fã lá no fundo usando um macacão com enchimento de espuma igualzinho ao do comando cibernético do videogame Halo.

E quando o MC Chris convidou o público a lhe acompanhar num coro cafoninha do sucesso de Sean Kingston "Beautiful Girls", a impetuosa platéia de repente ficou hesitante, mandando de volta um estranho muxoxo, como se fossem centenas de estudantes que estão sentados num baile e que de repente têm que dançar coladinho.

Erich Schlegel/The New York Times 
O rapper nerdcore MC Chris interage com o público durante show no Emo's, em Austin, Texas

"Nós somos mesmo uns nerds", MC Chris reclamou debochando. "Não temos ritmo. Não sabemos fazer nada certo". Mas talvez eles possam ir adiante. Antigamente os desajustados CDFs com espinhas no rosto só podiam lidar com suas frustrações na solidão, em quartos cheios de imagens de heróis, detonando passo-a-passo as etapas de videogames mortais como o Wolfenstein em 3D.

Então um belo dia surgiu o movimento nerd, o nerdcore. Subgênero do hip-hop predominantemente branco que celebra os prazeres solitários da ficção científica, dos computadores e de péssimos filmes para adolescentes, o nerdcore agora emerge das sombras da Internet, onde passou os últimos cinco anos como uma espécie de piada de cunho local. E esse tipo de rap faça-você-mesmo, em parte forma de auto-expressão e em parte auto-sátira, já inspirou dois filmes documentários, e até seu próprio festival, o Nerdapalooza, na Califórnia.

MC Chris, também conhecido como Christopher Ward, tem 31 anos e é filho de um executivo financeiro e morador do afluente subúrbio de Libertyville, Ilinois, na grande Chicago. Esse mês ele irá tentar uma fusão sem precedentes do nerdcore com bandas mais chegadas ao mosh-pit (um estilo de rock onde todos dançam se empurrando), se juntando a bandas como New Found Glory e Sum 41 na chamada "Warped Tour".

"Eu sinto que todo o público do rap está comigo", diz Ward, largadão num sofá esfarrapado num camarim do Emo's antes do show, usando um boné de beisebol com marca do filme Guerra nas Estrelas. "Garotos brancos jogando videogames, morando nos subúrbios. Então que tal se alguém falasse em nome deles?"

Quando ele se expressa no palco, como um tenor arfante aos 12 anos esperando pela mudança de voz, Ward sugere uma postura marrenta semelhante à do rap predominante. É como diz a letra de "Geek", em algo como: "Pare de curtir com a minha cara/ Só porque sou um geek/ Você não me conhece/ Nem eu lhe conheço/ Só que num dia desses eu vou detonar/ Seus miolos na parede/ E o meu rosto na TV".

Na entrevista, Ward foi logo dizendo que a expressão "nerdcore" - cunhada pelo colega rapper MC Frontalot no ano de 2000 - pode ser um tanto limitada, já que os chamados "nerds" provavelmente não foram os únicos filhos dos anos oitenta criados a base de desenhos dos Transformers, filmes de Indiana Jones e música do Public Enemy.
"É até meio estranho falar dessas aí como se fossem especificamente minhas influências, porque não são", diz Ward, formado num curso técnico de roteiro de cinema na New York University e que já trabalhou como produtor, animador e dublador de desenhos animados adultos que passam de madrugada, como "Aqua Teen Hunger Force" antes de se dedicar totalmente à música, em 2005. "Essas foram influências para muita gente".

O número crescente de artistas e fãs do nerdcore (também conhecido como nerd rap ou geek rap) parece confirmar o que Ward diz, segundo Dan Lamoureux, 30 anos, cineasta de Chicago cujo documentário "Nerdcore for Life!" está em fase de montagem. Quando começou o projeto, em 2005, ele só conseguiu encontrar uns poucos rappers que se encaixavam no critério de nerdcore. Agora, segundo ele, há centenas, talvez milhares.

"Eu praticamente fico sabendo de um novo rapper a cada dia na minha página do MySpace", diz Lamoureux, acrescentando: "O geeky rap já vinha acontecendo direto. Mas é que as pessoas não se davam conta de que era preciso batizar o movimento".

Alguns hinos do nerdcore - como "You Got Asperger's" (com referência ao autismo), do MC Frontalot, "Fett's Vette" do MC Chris, e "View Source", de Ytcracker (dizendo algo como "Desesperadamente espero pelos meus macro avanços/ correndo com minha versão beta porque preciso aproveitar o momento") - funcionam como comédia e também como tentativas de um hip-hop sincero.

Desde o começo, o hip-hop tem sido uma forma de arte nascida tanto da opressão quanto da marginalidade, onde os artistas buscam transformar suas limitações em forças e onde as condições mais duras de vida proporcionam o melhor material artístico. Embora seja impossível se comparar a vida num laboratório de informática numa escola do ensino médio com as ruas do South Bronx - e comparar as gozações contra nerds com o peso do racismo - a verdade é que os CDFs do subúrbio também têm suas broncas com a sociedade.

E o hip-hop sempre foi bem maleável, a ponto de poder ser modificado por artistas de qualquer nicho. Se o gênero é capaz de comportar o "hick hop" caipira de Kid Rock, as pensatas jazzísticas do Us3 e a neo-psicodelia do De La Soul, é capaz de também ter lugar para alguns nerds - desde que esses fiquem no seu cantinho do refeitório.

Segundo Jonah Weiner, editor senior da revista Blender, o nerdcore "não está na grande tenda do hip-hop, não ocupa nem mesmo a tendinha secundária dos malucos". "São só uns garotos tentando armar sua barraca na estrada, perto do carro da mamãe", fulmina o editor.

Mas certamente os fãs que apareceram no show do MC Chris no Emo's estavam felizes por poderem desfraldar sua bandeira geek.
Elizabeth McLean, 19 anos, estudante de culinária na Texas Culinary Academy em Austin, chegou para o show com óculos de aro de tartaruga, uma camiseta preta de um concerto do MC Chris e portando uma guitarrinha de plástico periférica do videogame Guitar Hero, objeto que ela queria porque queria que o rapper autografasse, junto com o autógrafo no inalador pessoal (tanto a fã como o artista sofrem de asma).

Peter Kong, 23 anos, tradutor profissional, usava costeletas compridas, corte de cabelo repicado e óculos pretos de aro pesado que lhe davam um ar de vilão coadjuvante de filme de James Bond de meados dos anos sessenta. Segundo Kong, a ética nerd anda tão difundida ultimamente que até os nerds andam querendo distância dessa expressão.

"Ficou tão óbvio que nem usamos mais a palavra 'nerd'".

Ser um nerd hoje em dia já não chama tanta atenção, numa era em que Napoleon Dynamite e Betty, a Feia se tornaram heróis adolescentes, o fundador da Apple Steve Jobs é praticamente uma estrela pop e o YouTube ajuda a fazer de cada geek uma estrela.

Quase tudo que é produzido pelo movimento nerdcore é publicado por conta própria, sendo que a maior parte desse material circula de graça entre os fãs em chat rooms e através de mensagens por e-mail. O momento seminal marcante tipo "estréia de Elvis" aconteceu de forma solitária, num quarto, diante de um teclado de computador. Em 2000, um web designer de 26 anos de Berkeley, na Califórnia, chamado Damian Hess estava animadamente compondo um rap "tendo como testemunha meu monitor e umas duas fantasias de Guerra nas Estrelas", e dali saiu uma canção chamada "Nerdcore Hiphop" ("Eu sofro de hipocondria/ acho que minha batida é meio doente".)

O que começou como uma piada se transformou numa carreira, segundo o cabeça-raspada Hess, 33 anos, cuja indumentária característica (enquanto MC Frontalot) é um par de gigantescos óculos de aro negro e quadrado, como os famosos fabricados pelo agente de Hollywood Swifty Lazar. Hess já está escalado como uma das principais estrelas do festival Nerdapalooza, que vai apresentar cerca de 40 bandas, em Eureka, na Califórnia, dias 22 e 23 de setembro.

Mas, segundo o MC Frontalot, ser aceito pelo grande público nunca foi uma prioridade. "Por definição, o nerdcore precisa ser marginal", diz Hess, que agora vive no distrito de Brooklyn, em Nova York.
Só que as margens andam bem concorridas ultimamente. "Através da Internet", diz o MC, "qualquer nicho cultural pode encontrar uns dois milhões de pessoas admiradoras".

O que não quer dizer que o nerdcore tenha atingido o grande público negro do hip-hop. Segundo Hess, há apenas um artista nerdcore afro-americano, um web designer que se descreve como "semi-negro" e chamado Ken Leavitt-Lawrence, que faz uma sátira do gangsta rap simulando a voz do físico Stephen Hawking, com o pseudônimo de MC Hawking. (Na composição "All My Shootin's Be Drive-Bys", ele dispara ironicamente em rap, "Tá na hora de dar uma demonstração newtoniana / do que é uma bala/ de sua massa/ e de sua aceleração".)

O que importa, segundo Leavitt-Lawrence, 37 anos, que mora em Gloucester, no Estado de Massachussets, não é tornar trivial as maiores tradições do rap, mas esvaziar aquele cansativo machismo com pistola, de tipos como 50 Cent: "Essa pose de querer ser durão o tempo todo é um saco".

Nos últimos dois anos, a indústria musical começou a prestar atenção ao nerdcore. O quarto disco de Ward lançado pelo próprio, "Dungeon Master of Ceremonies", estreou num respeitável 13º lugar na parada hip-hop do serviço iTunes, segundo o artista, e a revista Spin o relacionou como um dos indicados para Banda Underground do Ano.

Mesmo assim, dificilmente algum dos ídolos do gênero irá, pelo menos nos próximos tempos, encomendar penduricalhos ao famoso joalheiro das estrelas do rap Jacob the Jeweler. Hess vendeu 6.000 CDs, e uns 5.000 downloads de canções no iTunes. Junto com suas constantes turnês, "por enquanto está dando para viver", diz o rapper nerd.

Ward, que fez 300 apresentações em dois anos, mantém os custos reduzidos viajando pelos Estados Unidos numa minivan branca com apenas um técnico roadie e sem banda nenhuma (um computador MacBook branco fica no palco atrás dele, fornecendo as batidas rítmicas). Ele diz ter faturado cerca de US$ 100.000 no ano passado, com os shows e mais a venda de música e de produtos variados.

De acordo com Ward, a carreira no rap é apenas um passo na afirmação de sua marca pessoal. Como objetivo final, ele planeja fazer de sua música trilha de um desenho em longa metragem no estilo anime, que ele pretende vender para a televisão a cabo, com possíveis desdobramentos em videogames, brinquedos e camisetas.

Até lá, o nerdcore poderá já ter cumprido seu rumo. Se for assim, Ward não irá lamentar a morte do movimento - ou a morte da expressão "nerd".

Após refletir, ele diz: "Não acho que isso tenha a ver com nerds. Na verdade, o movimento é de homens adultos que entraram numa nova fase de vida, nos vinte e poucos ou nos vinte e tantos anos, depois da faculdade. Aí ficam pensando sobre sua infância. Porque é mais fácil pensar assim, e porque aquela era uma época mais simples". Marcelo Godoy

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