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15/08/2007
Política é a nova estrela das salas de aula da Índia

Somini Sengupta
Em Nova Déli


Silenciosamente, uma grande revolução está acontecendo dentro das escolas indianas.

Pela primeira vez, a briga confusa que é a política indiana moderna, inclusive alguns de seus episódios mais feios e controversos, está sendo ensinada em aulas de ciências políticas. Faz parte de uma revisão mais ampla do currículo escolar, com potenciais implicações duradouras em como as crianças apreendem o funcionamento de sua nação e sua posição no mundo.

Usando cartuns, recortes de jornais e perguntas que convidam ao debate de questões contemporâneas espinhosas, o novo currículo chega depois que a democracia estabeleceu-se firmemente no solo indiano e é de fato uma de seus principais pontos de propaganda enquanto o país tenta se afirmar no mundo. A Índia comemora o 60º aniversário de sua independência do Reino Unido na quarta-feira (15/8).

"Sessenta anos após a independência, é uma declaração de maturidade da democracia indiana", disse Yogendra Yadav, um dos principais assessores do comitê do livro-texto de ciências políticas. "Não poderia ter sido escrito 30 anos após a independência; provavelmente não teria sido escrito há 15 anos".

Jacob Silberberg/The New York Times 
A professora Abha Malik (esq.) conversa com aluno durante aula de ciência política

Shikha Chhabra, 16, ofereceu um exemplo de seu novo livro-texto de política mundial contemporânea do terceiro ano do ensino médio. Ela disse que sempre aprendeu que o movimento de não-alinhamento era "uma coisa maravilhosa". A Índia teve um papel importante no não-alinhamento durante os anos de Guerra Fria, quando países desenvolveram uma retórica de independência tanto da União Soviética quanto dos EUA. O novo livro-texto, entretanto, trata o assunto de forma diferente, diz ela. "Agora levantaram a questão - o movimento de não-alinhamento de fato se aplica ao mundo hoje? Não seria apenas uma posição em cima do muro?"

Ela concluiu que não mais se aplica, unindo-se a um alarme contemporâneo entre políticos e observadores neste país sobre os méritos da nova amizade da Índia com os EUA. A aula teve um rico debate sobre os prós e contras de se alinhar aos EUA durante o capítulo chamado "hegemonia americana na política mundial". "Você realmente questiona qual deveria ser a estratégia da Índia", disse Chhabra.

Sua professora, Abha Malik, diretora do departamento de ciências políticas na Escola Sanskriti mergulhou no livro-texto, que o Conselho Nacional de Pesquisa e Treinamento Educacional apresentou quatro meses antes para as escolas públicas e privadas. "Você não pode dar uma aula normal com isso", disse ela, sorrindo. "Esse livro não deixa você ficar sentado, parado".

Em um país onde a repetição e a decoreba prevaleceu mesmo nas escolas da elite, a nova ênfase em pensamento crítico assinala uma grande mudança na pedagogia. Mais impressionante é a substância do novo currículo. Antes, a ênfase na ciência política era em teoria política. "Essa é realpolitik", disse Malik.

O livro de política indiana, por exemplo, menciona vários eventos políticos controversos do passado recente, do estado de sítio sob a ex-primeira-ministra Indira Gandhi, em meados dos anos 70, aos ataques a muçulmanos em Gujarat, há apenas cinco anos.

O capítulo quatro pede aos alunos para "identificarem dois aspectos da política externa da Índia que gostariam de manter e dois que gostariam de mudar", com as respectivas razões.

O último capítulo pede à turma para descrever o surgimento do Bharatiya Janata Party, ou BJP, que é o principal partido da oposição hoje, desde o estado de emergência.

"Basicamente a ciência política ensinava tudo, menos política; era considerado arriscado demais", disse Yadav. "Eu achava que minha tarefa era fazer os alunos pensarem criticamente, começarem a questionar tudo, desenvolver um respeito saudável pela democracia, não a adorando, mas olhando-a de frente".

Na Índia contemporânea, revisar currículos escolares é um ritual político no qual ideologias de esquerda e direita competem. A analogia mais próxima pode ser a do debate sobre o criacionismo na educação americana. Cada governo, seja de esquerda ou de direita, procurou mudá-los para se adequarem a suas crenças. O BJP, que liderou o governo de coalizão até 2004, tentou revisar os textos de história da Índia para remover o que chamava de parcialidade de esquerda. Atraiu gritos de protestos dos críticos. Nada surpreendentemente, seu sucessor, liderado pelo Partido do Congresso, iniciou suas próprias mudanças.

Seus novos livros-texto geraram notavelmente pouco protesto desde que foram introduzidos nas salas de aula, provavelmente porque os agentes políticos mais influentes de Déli não os leram. Entretanto, até mesmo a noção de ensinar política contemporânea os deixa inconfortáveis. Eventos recentes são simplesmente "carregados demais" para serem ensinados de forma imparcial, disse Swapan Dasgupta, colunista conservador e pai de um aluno do segundo ano do ensino médio. Isso é especialmente verdade, argumentou, considerando que a história pós-1947 raramente era citada em sala de aula até recentemente.

"A partir do nada, você ensina não só algo que aconteceu há 50 anos, mas algo que aconteceu há cinco anos", disse Dasgupta, acrescentando que certamente "será politizado".

Os arquitetos dos novos livros-texto insistem que não é um currículo politizado. Pela primeira vez em um livro-texto de política, salientam, há menção ao estado de sítio, obra de Indira Gandhi, então primeira-ministra e líder do Partido do Congresso. Seu partido está hoje no poder; sua nora é presidente do partido.

Kanti Bajpai, consultor do texto de política mundial, disse que o novo currículo "força" os alunos a "olharem ao que está acontecendo e porque". Bajpai, diretor de um internato exclusivo em Dehradun disse: "Se você considera a cidadania ativa com seriedade, tem que fazer isso".

Na sala de aula de Malik, na terça-feira, o tópico era a estratégia de segurança da Índia. Um aluno apresentou uma breve história das guerras entre Índia e Paquistão. Houve discussão sobre a Caxemira, território disputado que quase levou a duas guerras entre os dois países.

Ela perguntou à turma qual a capacidade militar que a Índia precisava com vizinhos hostis. "Capacidade nuclear", respondeu a turma.

O assunto da política de não-alinhamento ressurgiu. Harkeerat Singh Randhawa, 17, que prefere ser chamado de Harry e aspira ser diplomata, argumentou que era mais vital do que antes, com os EUA de um lado e a China do outro. "Você tem um novo mundo bipolar", disse ao professor.

Malik disse que era possível observar o que ela chamava de "novo movimento" na educação. "Esse livro anuncia a chegada da Índia", disse ela. "Sinto-me bem usando-o para ensinar".

Tradução: Deborah Weinberg

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