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17/08/2007

Desta vez, são os Estados Unidos afundando e a Ásia lançando o salva-vidas

The New York Times
Keith Bradsher e Jeremy W. Peters

Em Hong Kong
Justin Lane/EFE 

No passado, quando o crescimento econômico empacava no resto do mundo, eram os Estados Unidos que estavam lá para dar uma mão aos que ficaram para trás. Agora tal dinâmica inverteu.

Com os mercados de ações despencando em todo mundo devido a preocupações financeiras claramente com a estampa "made in USA" e com a crescente preocupação com uma possível desaceleração econômica americana, uma economia global que passa por um boom poderia ajudar a conter o dano e até mesmo auxiliar os Estados Unidos a absorverem o choque do estouro da bolha imobiliária e o aperto do crédito.

"Nós não estamos mais em um mundo onde os Estados Unidos espirram e o restante do mundo pega um resfriado", disse Nariman Behravesh, economista chefe da Global Insight, uma firma de pesquisa econômica de Waltham, Massachusetts. "Houve um forte crescimento econômico no exterior, de forma que isto serve como um salva-vidas lançado pelo restante do mundo aos Estados Unidos".

Mas na Ásia, onde o crescimento foi mais forte nos últimos anos, muitos países ainda estão preocupados com a possibilidade dos problemas americanos também os arrastarem. Especialistas disseram que estes países estão menos interessados em ajudar os Estados Unidos e mais em descobrir se reduziram sua dependência do consumidor americano.

Os países asiáticos, particularmente a China, começaram a se incomodar com sua dependência da interesse dos americanos por bens importados, do poder do dólar americano no mundo e das instituições financeiras americanas.

É verdade, disseram economistas e executivos asiáticos, que mudanças econômicas fundamentais reduziram a dependência da Ásia dos consumidores e mercados financeiros americanos. Mas ainda não se sabe quanto efeito a atual crise financeira terá fora dos Estados Unidos.

"Definitivamente, a dependência da economia americana, particularmente por parte das economias asiáticas, diminuiu um pouco nos últimos cinco a sete anos", disse Sanjay Mehta, executivo-chefe da Essar Shipping da Índia. "Haverá um impacto - eu não vejo como poderia não haver um impacto - mas um impacto menor do que vimos em 2001 e 2002, quando estourou a bolha de Internet".

Apesar da União Européia como um todo estar próxima da escala da economia americana, os Estados Unidos ainda possuem a maior e mais poderosa economia do mundo. Com um produto interno bruto de mais de US$ 13 trilhões, ele é três vezes maior que a segunda maior economia, o Japão, que permanece à frente da China. Mas os avanços no exterior deram aos Estados Unidos um papel menor no moldar dos altos e baixos da atividade econômica global.

"Há uma dissociação da economia americana da economia mundial", disse Simon Johnson, economista chefe do Fundo Monetário Internacional, em Washington. "É quase como se todos no mundo estivessem em alta e os Estados Unidos estivessem em baixa".

Na Feira de Cantão em abril, executivos de toda a China se entusiasmaram com as perspectivas de vendas à Europa, já que as exportações chinesas para a Europa superaram as exportações para os Estados Unidos em fevereiro.

Em Baharbari, uma pequena aldeia de choupanas de sapé no final de uma estrada de barro no nordeste da Índia, a maioria dos jovens partiu para empregos no setor de construção civil no noroeste da Índia, parte de um boom maior na demanda doméstica em grande parte da Ásia.

E em Bancoc, executivos do cimento como Prachai Leophairatana exibem confiança quando falam sobre as exportações para o Vietnã, parte de um aumento do comércio entre os países do Leste Asiático, que torna a região um dos centros de comércio de maior crescimento no mundo.

Quando os Estados Unidos passaram por sua última desaceleração, há seis anos, as exportações asiáticas passaram de um crescimento de 25% em 2000 para uma queda de 15% em 2002. Mas parte da queda refletia a debilidade das economias européia e japonesa na época, e estas economias parecem mais fortes agora.

Mas à medida que empresas como o Mizuho Financial Group, no Japão, e o RAMS Home Loan Group, na Austrália, encontram problemas com títulos hipotecários de risco americanos, também cresce a suspeita de um elo financeiro transpacífico que pode ser mais profundo do que muitos imaginavam: os Estados Unidos podem estar pagando muito por suas importações nos últimos anos com títulos hipotecários de valor duvidoso.

"É possível que as instituições financeiras americanas tenham sido espertas o bastante para repassar o risco para a Europa e outros lugares", disse Kui Wai Li, diretor do centro de pesquisa de negócios asiáticos na Universidade da Cidade de Hong Kong.

Durante a crise financeira asiática em 1997 e 1998, os "tigres" econômicos do Sudeste Asiático provaram ser tigres de papel, debilitados por má governança corporativa e empréstimos descontrolados. Agora, do ponto de vista asiático, os Estados Unidos são vistos como um lugar onde a regulação financeira é fraca e onde consumidores e empresas tomam empréstimos com pouca restrição.

"Os asiáticos não confiam mais na economia americana", disse Frank-Juergen Richter, um especialista alemão em economias asiáticas que é presidente da Horasis, um grupo de pesquisa em Genebra. "A América não é mais o motor da globalização. Eles estão procurando por um novo motor, que pode ser a China, pode ser a Europa - mas não são os Estados Unidos".

Apesar das economias asiáticas poderem não precisar tanto dos Estados Unidos quanto antes, os laços financeiros e comerciais permanecem fortes e podem ser um freio para a região. Além disso, disse Lewis S. Alexander, economista chefe do Citigroup, "se a economia americana entrar em recessão, haverá um maior impacto no exterior. O fato do mundo ter se saído relativamente bem enquanto os Estados Unidos passavam por uma desaceleração não significa que se os Estados Unidos enfrentarem uma recessão, o restante do mundo poderá passar relativamente ileso".

De fato, como percentual de sua produção econômica total, a China ainda é mais de 25 vezes dependente das exportações aos Estados Unidos do que os Estados Unidos das exportações chinesas.

Grande parte das exportações chinesas para os Estados Unidos são produtos cujos componentes são, na sua maioria, importados de outros lugares na Ásia e montados por fileiras de operários chineses em longas bancadas sob luzes fluorescentes. Uma séria desaceleração de tais negócios, para os quais a China fornece pouco mais que mão-de-obra barata, ainda assim poderia resultar em demissões em grande escala.

Mas as conseqüências poderiam ser limitadas em um país onde o investimento em estradas, pontes, complexos habitacionais e outros ativos fixos cresceu mais de 25% nos primeiros sete meses deste ano, em comparação ao mesmo período há um ano.

Enquanto isso, apesar da valorização do dólar frente ao euro e à libra britânica enquanto os corretores buscam refúgio contra os apuros financeiros globais, ele se desvalorizou nesta semana frente ao iene e poderá cair ainda mais se a crise imobiliária provar ter desferido um duro golpe em toda a economia americana.

Para a indústria americana, a desvalorização do dólar somada ao forte crescimento no exterior serviu para estimular as exportações, tornando os bens americanos mais competitivos no exterior.

Por exemplo, a Powers Curbers de Salisbury, Carolina do Norte, que produz equipamento para pavimentação de estradas, meio-fio e calçadas, está contando com os negócios no exterior para continuar crescendo neste ano. As encomendas internacionais, que atualmente vêm de mais de 80 países, aumentaram cerca de 25%, ajudando a empresa a crescer apesar da queda de 10% dos negócios domésticos neste ano.

"Eles estão crescendo feito loucos", disse Dyke Messinger, o executivo-chefe da empresa. "Digamos que mais problemas venham do setor imobiliário. Então os negócios internacionais serão fundamentais".

Mas um dólar mais fraco seria um problema não apenas para os exportadores asiáticos, que teriam mais dificuldade para competir no mercado americano, mas também para os bancos centrais asiáticos, que foram os maiores compradores de dólares nos últimos anos. O banco central chinês, o Banco do Povo da China, mantém dois terços de suas reservas de moeda estrangeira no valor de US$ 1,3 trilhão em dólares.

Isto inclui o que especialistas descrevem como US$ 100 bilhões em títulos hipotecários americanos, apesar de que seu valor pode ter diminuído recentemente.

Se o dólar cair ainda mais, a Ásia poderia se ver com problemas. Assim, o homem de maior interesse para a elite empresarial e autores de políticas governamentais asiáticos é Ben S. Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que está sob pressão para reduzir as taxas de juros para tranqüilizar Wall Street e estabilizar os mercados instáveis.

"Se ocorrer uma redução das taxas de juros, o dólar cairá", disse Mehta, da empresa de transporte indiana. "Esta é uma grande preocupação para a maioria das pessoas na Ásia no momento". George El Khouri Andolfato

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