UOL Notícias Internacional
 

18/08/2007

Chineses seguem em grande número para uma nova fronteira: a África

The New York Times
Howard W. French e Lydia Polgreen

Em Lilongwe, Maláui
Quando Yang Jie saiu de casa aos 18 anos, ele estava fazendo o que as pessoas da província pobre de Fujian fazem há gerações: emigrar em busca de uma vida melhor no exterior.

Mas seu destino foi diferente dos demais. Em vez de terras adotivas tradicionais como Estados Unidos e Europa, onde os habitantes de Fujian se estabeleceram às centenas de milhares, ele optou pelo sul da África, chegando a este pequeno país sem acesso ao mar.

"Antes de deixar a China", disse Yang, atualmente com 25 anos, "eu pensava que toda a África era um grande deserto", um local banhado eternamente em um calor terrível. Então ele imaginou que sorvete seria naturalmente um produto de alta demanda, e com dinheiro levantado junto a parentes e amigos ele criou sua própria fábrica nos limites de Lilongwe, a capital de Maláui. O clima de Maláui, na verdade, é subtropical, mas isto não impediu que a empresa de sorvete se tornasse a maior do país.

Benedicte Kurzen/The New York Times 
Comerciante chinês em uma loja situada em Lilongwe, Maláui

Histórias como esta se tornaram frequentes por toda a África nos últimos cinco anos, à medida que centenas de milhares de chineses descobriram o continente, partindo para fazer negócios em uma parte do mundo que até então era uma incógnita para seus conterrâneos. A agência de notícias "Xinhua" estimou recentemente que pelo menos 750 mil chineses estão trabalhando ou vivendo por períodos prolongados no continente, um reflexo dos crescentes laços econômicos entre a China e a África, que atingiram US$ 55 bilhões em comércio em 2006, comparado a menos de US$ 10 milhões uma geração atrás.

Quando Yang chegou aqui em 2001, ele disse, ele ficava semanas sem encontrar outro viajante de sua terra natal. Mas assim como seu investimento no país prosperou, ele disse, uma crescente comunidade de imigrantes chineses se estabeleceu e atualmente dirige de tudo, de pequenas fábricas e clínicas de saúde até empresas de comércio.

Durante a onda anterior de interesse chinês na África, nos anos 60 e 70, uma era de socialismo radical e proclamada solidariedade com o Terceiro Mundo, empresas européias e americanas dominavam as economias de grande parte do continente. Mas aqui e acolá os chineses fizeram sua presença ser sentida, freqüentemente como uma visão curiosa: brigadas de operários estatais, vestidos de forma enfadonha, que construíam estádios, ferrovias e rodovias, freqüentemente quebrando rochas e realizando outros trabalhos pesados com as mãos.

Hoje, em muitos dos países em que os novos imigrantes chineses se estabeleceram, como o Chade, são encontrados farmácias, salões de massagem e restaurantes de comida chinesa de propriedade de chineses. A presença ocidental, antes dominante, tem decrescido e basicamente consiste atualmente de especialistas em ajuda humanitária, que trabalham para agências internacionais, ou trabalhadores do setor de petróleo, que vivem atrás de muros altos em enclaves altamente protegidos.

A princípio, este novo afluxo chinês foi impulsionado principalmente pelo boca-a-boca, à medida que pioneiros como Yang contatavam seus parentes em casa e informavam sobre as oportunidades abundantes em uma parte do mundo onde muitas economias se encontram subdesenvolvidas ou em ruínas, e onde, mesmo nos países mais ricos, muitas coisas consideradas comuns nos países desenvolvidos aguardavam construtores e investidores.

Condições como estas freqüentemente afastam investidores ocidentais, mas para muitos empreendedores chineses, a ascensão das economias na África são convidativas precisamente por parecerem pequenas e acessíveis. A concorrência é freqüentemente fraca ou inexistente, e para os clientes africanos, o preço baixo de muitos bens e serviços chineses os tornam mais acessíveis do que os semelhantes ocidentais.

You Xianwen vendeu sua empresa de instalação de canos em Chengdu neste ano para se mudar para a capital da Etiópia, Adis Abeba, para ingressar em uma nova empresa com um sócio chinês que conheceu online. "De onde vim, nós somos pessoas bastante independentes", disse You, 55 anos. "Meus irmãos e irmãs apoiaram minha decisão de vir para cá. Na verdade, eles dizem que se as coisas realmente derem certo para mim, eles provavelmente também se mudarão para a África".

You disse que considerou outros países africanos, incluindo a Zâmbia, antes de se estabelecer na Etiópia. "Felizmente eu não decidi ir para lá", ele disse, explicando que ficou assustado com os recentes protestos anti-chineses naquele país.

Sua nova empresa, a ABC Bioenergy, fabrica dispositivos que geram gás combustível a partir de lixo comum, fornecendo o que You disse ser uma fonte alternativa e barata de energia em um país onde a fornecimento de eletricidade é instável e os preços são caros.

O sócio de You, Mei Haijun, foi para a Etiópia há uma década para trabalhar em uma fábrica têxtil construída pelos chineses e de lá para cá se casou com uma etíope, com quem tem um filho. "Quando cheguei aqui, eu ficava até dois meses sem ver outro chinês", ele disse. "Mas agora é diferente. Há até um vôo diário para a China".

Houve um aumento do tráfego aéreo entre a China e países como a Etiópia, com as empresas chinesas agora se esforçando para adicionar novas rotas, à medida que o governo chinês e grandes companhias chinesas aumentam seus interesses na África.

Grande parte de tal atividade reflete um intenso apetite pelo petróleo e recursos minerais africanos necessários para alimentar o setor manufatureiro chinês, mas as grandes empresas chinesas rapidamente se tornaram concorrentes formidáveis também em outros setores, particularmente em grandes contratos de obras públicas. A China está construindo novas ferrovias na Nigéria e Angola, grandes represas no Sudão, aeroportos em vários países e novas estradas, ao que parece, em toda parte.

Uma das maiores construtoras de estradas, a China Road & Bridge Construction, retomou de onde pararam as brigadas de solidariedade de uma geração anterior. A empresa, que é de propriedade do governo chinês, tem 29 projetos na África, muitos deles financiados pelo Banco Mundial ou outros emprestadores, tendo escritórios em 22 países africanos.

Um recente vôo da Ethiopian Airlines saído de Adis Abeba rumo a Pequim estava lotado de chineses, empresários e funcionários da Road and Bridge e outras empresas que trocavam notas sobre os países nos quais trabalhavam e debatiam as dificuldades de aprender português e francês em locais como Moçambique e Costa do Marfim.

Os africanos vêem o afluxo de chineses com uma mistura de expectativa e temor. Líderes empresariais no Chade, um país na região central da África com profundas relações de petróleo com a China, se preparam para o que suspeitam que será um exército de trabalhadores e investidores chineses.

"Nós esperamos um grande afluxo de pelo menos 40 mil chineses nos próximos anos", disse Renaud Dinguemnaial, diretor da câmara de comércio do Chade. "Esta chegada em massa poderá representar um impulso à economia, mas também estamos preocupados. Quando chegarem, eles trarão seus próprios trabalhadores, ficarão em suas próprias casas, enviarão todo seu dinheiro para casa?"

Na Zâmbia, onde o sentimento anti-chinês cresce há vários anos, comerciantes no mercado central em Lusaka, a capital, disseram que se os chineses quiserem vir para a África, eles devem vir como investidores, para construírem fábricas, não como comerciantes pequenos que disputam os fregueses já escassos em produtos baratos como sandálias de tiras e camisetas.

"Os chineses alegam vir como investidores, mas estão fazendo comércio como nós", disse Dorothy Mainga, que vende imitações de tênis Puma e camisetas Harley Davidson no Mercado Kamwala, em Lusaka. "Eles estão vendendo as mesmas coisas que vendemos a preço barato. Nós pagamos taxas e impostos, mas eles usam seus contatos para evitar os impostos".

Apesar de trabalhadores chineses do setor de petróleo terem sido seqüestrados na Nigéria e na Etiópia, onde nove foram mortos por um movimento separatista armado em maio, a crescente presença chinesa no continente produziu poucos incidentes sérios.

Mas mal-entendidos são comuns e ressentimentos são inevitáveis. Os africanos em muitos países se queixam que os trabalhadores chineses ocupam empregos para os quais os moradores locais são qualificados ou poderiam ser facilmente treinados. "Nós estamos felizes por termos os chineses aqui", disse Dennis Phiri, um estudante universitário malauiano de 21 anos que está estudando engenharia. "O problema com as empresas chinesas é que reservam todos os bons empregos para seus conterrâneos. Os africanos são contratados apenas para papéis servis".

Outra crítica freqüente é que os chineses não se misturam, andando juntos dia e noite.

Em Adis Abeba, no que é um arranjo típico para muitas grandes empresas, os 200 trabalhadores chineses da Road & Bridge Corp. vivem todos em um complexo comunal, comendo pratos preparados por cozinheiros trazidos da China e até mesmo atendidos por um médico chinês.

"Após um dia de folga, você se pergunta o que está fazendo aqui, então preferimos continuar trabalhando", disse Cheng Qian, gerente local da companhia de construção de estradas na Etiópia. Ele acrescentou que sua família nunca o visitou nos vários anos em que trabalhou aqui. "Eles não se interessam pela África", ele disse. "Se fosse a Europa, aí as coisas seriam diferentes".

Às vezes a abordagem chinesa cria atritos sérios com os trabalhadores africanos. Em um importante hotel aqui em Lilongwe, os hóspedes olhavam durante o café da manhã para um agitado caixeiro viajante chinês, suando profusamente, que gritava com seus funcionários antes do início de sua apresentação promocional de suplementos nutricionais.

"Vocês dizem que não é culpa de vocês, mas a forma como estão fazendo as coisas é simplesmente estúpida, estúpida", o homem proferiu diante de um punhado de assistentes africanos de aspecto humilhado. "Vocês são inacreditáveis".

A cena lembrava as ondas de colonizadores europeus de mão pesada, de executivos americanos agressivos e membros das diásporas indianas e libanesas que se estabeleceram na África em busca de fortuna, freqüentemente para sofrerem com a revolta dos trabalhadores ou com o fracasso dos negócios. Quando o vendedor finalmente deixou a sala, os funcionários do restaurante se reuniram perto da porta para expressar sua revolta. "Nós não precisamos que pessoas assim venham para cá nos colonizarem de novo", disse um deles.

Após quase sete anos em Maláui, Yang Jie, o fabricante de sorvete, parece ter aprendido algo. Ao receber seus funcionários na fábrica de sorvete, ele começa o dia perguntando: "Dormiu bem esta noite?"

Um deles respondeu rapidamente: "Muito bem", soando um tanto formal.

"Não minta", respondeu Yang com um sorriso amistoso. "Você pode me contar seus problemas". George El Khouri Andolfato

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