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19/08/2007

Amor moderno: como sobreviventes, mais unidos que como namorados

The New York Times
De Curtis Pesmen
Menos de um minuto depois de eu chegar sozinho de Manhattan, no trem Amtrak, percebi que não seria fácil. Minha ex-namorada, que fora tão gentil quanto possível, depois de sofrer de câncer há alguns anos e de quatro combinações de quimioterapia (parcialmente bem-sucedidas), estava acendendo uma vela.

Ou tentando acender. Ficou claro no mesmo instante: seus dedos não funcionavam. Os fósforos se dobravam ou amassavam antes de queimar. Um efeito colateral de seu novo regime de químio: neutropenia, neuropatia ou alguma coisa que soava igualmente cruel - e que amortece os nervos das pontas dos dedos dos pacientes.

David Chelsea/The New York Times 


A vela seria um toque simpático, sua maneira calorosa de me receber em sua casa, um 'loft' num bairro de artistas em Filadélfia onde ela fora morar e criar uma nova vida para si após o casamento, depois do diagnóstico, muito depois de nosso rápido relacionamento.

Mas lá estávamos nós dois novamente juntos, décadas depois de nossa primeira ligação, porque (nós dois sabíamos, mas não dissemos) havia uma pequena chance de que fosse nosso último encontro pessoal, nossos últimos abraços e despedidas. Especialmente se sua próxima série de tratamentos para câncer de seio não produzisse o que seu 'oncologista classe A' e todos nós esperávamos.

A sobrevivência ao câncer era outro motivo pelo qual estávamos juntos de novo. Ela teve o diagnóstico aos 43 anos - a mesma idade em que tive o câncer de cólon diagnosticado. Ela havia sido voluntária na Coalizão de Jovens Sobreviventes e um ano depois viu na "Esquire" meu artigo sobre as dificuldades que enfrentei.

Depois de algumas pesquisas na Web, ela me encontrou. Agora nos escrevíamos, falávamos, compartilhávamos pedaços de nossas vidas de novo, felizes por podermos conversar sobre nossas vidas que, nós sabíamos, poderiam estar chegando à parte final.

Nova realidade, fim do sonho
Éramos "ex" em convalescença, lembrando, contando histórias sobre perda de células brancas do sangue, perda de cabelos, perda de peso e aventuras com vômito. Muito diferentes do que havíamos sido: jovens, sedentos, ousados em nossos personagens criativos de 20 e poucos anos em Nova York, lutando por um lugar na cidade em que havia colegas de apartamento demais e concorrência demais entre os que buscavam sonhos semelhantes demais.

O sonho acabou, e de repente ela teve uma recaída há dois anos. E foi informar aos recursos humanos no seu emprego criativo. E entrou em licença. A dor tomou conta, juntamente com lesões que surgiram em seu fígado. Logo entendemos que ela teria um longo e duro percurso até, nós esperávamos, a 'convalescença 2.0'.

Mais uma vez era hora de embarcar no lento trem da químio, mas agora com o novo medo de probabilidades menos benignas - misturadas como um coquetel de medicamentos, com resolução, raiva, esperança. E sem muito amor visível, pois mesmo os mais próximos às vezes se afastam. Emocionalmente, fisicamente.

É incômodo nesta altura dizer que ao longo do último ano achei algumas de suas mensagens insinuantes, em nossas conversas por e-mail do tipo sala de bate-papo, sem a sala. Éramos só nós dois. Mas, especialmente por ser um cara que tem um casamento bom e sólido, não tenho motivos para mentir: quando você dorme com alguém, é difícil estar junto de novo, não importa quanto tempo depois, sem pensar na intimidade física que existiu, ou quase, ou poderia ter existido.

Tem de haver o 'amor' quando se fala em "fazer amor", mesmo depois de tanto tempo, ou meus pensamentos daquelas noites distantes que passamos juntos, tão fora de lugar aqui e agora, não me perturbariam hoje, em meio a tanta doença e tristeza. Quero dizer, será que a metástase do tumor nos permitiu sentir plenamente essas coisas e admiti-las?

Na dor, nosso reencontro
De volta à casa dela, nos consolamos com o fato de termos feito nossa espécie de minigrupo de apoio, baseado em mensagens de e-mail tarde da noite e em um ou dois telefonemas que conscientemente evitaram tocar em nosso antigo namoro. Havia uma leveza bem-vinda em nossa nova amizade, era um espaço seguro.

Quando ela pega o álbum de fotos, eu pergunto: "Nós éramos assim tão jovens?" ("Éramos assim tão felizes?", eu penso, mas não falo.)

Depois de algum tempo ela se abre e me conta um pouco sobre seu ex-namorado, que a deixou depois do diagnóstico, pouco depois de dizer que não se considerava do "tipo enfermeiro", mas ela afirma que a doença não foi a causa da separação.

Meu rosto se contrai, incrédulo, em protesto. "Bem, pelo menos assim descobri logo que ele não era 'o cara'", ela diz, num tom de perdão que eu jamais conseguiria ter.

Mais tarde ela acrescenta: "Foi triste que o câncer tenha sido o catalisador". Mas agora ela diz que foi ele que nos reuniu.

Talvez. Mas também sabemos que sem nosso câncer talvez nunca tivéssemos nos encontrado de novo. E certamente não desse jeito: entre os apetrechos que para outros poderiam parecer uma reunião romântica, mas que é socialmente permissível, e até encorajada, diante das circunstâncias.

Hoje em dia, acho que amizades de sobreviventes como a nossa o fazem enfrentar, logo e com freqüência, o pesado e o leve, e nisso você descobre que alcança uma curiosa espécie de liberdade. Você dispensa os filtros da educação. Tem autorização para ir direto ao assunto. Porque agora o tempo juntos significa mais.

Afinal, nos tornamos instantaneamente mais próximos com 40 e tantos anos do que jamais fomos em nossos 20, quando ela era uma estudante promissora de belas artes e eu, um jornalista que mandava todo tipo de bilhetes idiotas para "Newsweek", "BusinessWeek", "Rolling Stone", enquanto tentava escrever para veículos fora da grande mídia.

Num belo dia de outono mais de 20 anos atrás, ela e eu pegamos um ônibus em Nova York para as Palisades, em Nova Jersey. Rodamos sobre a Ponte George Washington sem levar um sanduíche embrulhado ou sequer uma garrafa de água. Fomos caminhar por umas trilhas, tirar umas fotos (em artístico preto-e-branco), esmagar umas folhas sob nossas botinas. Fizemos um pouco de sexo, no estilo 'permitido para 14 anos', escondidos por um grupo de carvalhos teimosos que ainda não tinham perdido as folhas.

Hoje, em outro dia frio de outono, dois sérios diagnósticos mais tarde, tomando chá de ervas com ela em seu 'loft', falamos de revistas e fotógrafos que ela conhece; mais sobre os novos tempos do que os velhos; sobre partes de nossos corpos que não funcionavam (ou não funcionam) tão bem quando lutamos contra o câncer.

Não falamos absolutamente nada sobre por que nos separamos, ou sobre nossas vidas amorosas atuais, ou vidas em família. Sinto a 'culpa dos sobreviventes' pairando pesada na sala, pensando que não é justo eu estar livre do câncer, cinco anos depois de minha terrível 'fase 3', e ela estar sofrendo sua atual 'fase 4', depois de ter-se curado três anos atrás.

Não há garantia para nenhum de nós - sabemos disso, mas não dizemos. Vamos viver o hoje.

Da minha mochila tiro quatro revistas: "Interview", "Vogue", "Entertainment Weekly", "Vanity Fair". Esperava que fossem interessar à ex-estudante de arte que tinha morado no Village perto da NYU com duas colegas de apartamento pós-punk, quando o Clash era o Coldplay da época. Ela me agradece por trazer esses pedaços do mundo exterior. Mas agora me pergunto: se seus dedos não funcionaram muito bem com os fósforos macios, será que vão conseguir folhear mil páginas finas de publicidade e matérias? Seus olhos conseguirão lidar com a letra miúda?

Ela usa óculos agora, na ponta do nariz. Também vejo que está usando uma peruca, mas ela não toca no assunto. E também, através de toda essa injustiça, está me parecendo um tanto sexy, de novo. E esse pensamento intrometido me faz sentir estranho, confuso, triste. Mas por que não? Os sobreviventes da 'fase 4' não deveriam se importar com sua aparência? Só sei que a abracei delicadamente quando passei pela porta e seu corpo pareceu frágil, vacilante, como um passarinho.

Na luz do fim de tarde, conversamos um pouco sobre as viagens dela, sua paixão pela Itália, Elsa Schiaparelli e outras coisas artísticas. Incluindo algumas séries de fotos que ela havia produzido nos últimos anos, em sua fase boa pós-câncer. Depois de pedirmos comida italiana ("Não estou dirigindo agora", ela diz), vamos para seu quarto carregando os sacos de papel pardo e frágeis taças de vinho.

Só então eu me lembro: quando você tem câncer e seu corpo está arrasado pela químio (e fortes opiáceos para a dor), é duro receber visitas. Mesmo quando é um antigo namorado que se considera de 'baixa manutenção', que também já passou por isso, deveria saber que não se fica mais de duas ou três horas nesse tipo de visita. Simplesmente não fica. Porque é difícil para os pacientes de qualquer fase - perturba suas (nossas) rotinas no meio desses longos dias obscuros.

Ao nos aproximarmos e subirmos em sua cama, ela puxa, girando com uma das mãos, uma mesa-bandeja para dividirmos. Tomo nota: esta é uma mulher que tem levado muitas refeições nessa mesma bandeja escandinava.

"Bem-vindo à minha cama Capri", ela diz, afofando o acolchoado. O que ela quer dizer é: usou o dinheiro que estava economizando para viajar a Capri e comprou essa cama com controle remoto.

Eu me instalo o melhor possível, no frio escuro ao lado dela. Então imediatamente dou um salto para buscar guardanapos, tentando ser útil. Comemos 'pizzetta' com as mãos; com os olhos assistimos fixamente à CNN. Então conversamos um pouco sobre - Deus nos ajude - a política de Joe Biden. E um silêncio confortável nos envolve, apesar da falação contínua na TV. É uma reconexão, uma fagulha, embora tênue.

Giro a taça e provo o perfumado vinho francês que minha ex-namorada acaba de me servir. Não notei: era de um bom ano? Não há motivo para perguntar. Hoje em dia quase todo ano parece ser um bom ano. Minhas costas doem um pouco enquanto ficamos ali meio dobrados, lado a lado, manejando nossos garfos. Lá fora, as folhas sopradas pelo vento dançam no escuro. Então dou mais um gole de, não sei, Bordeaux. Não sinto o sabor. Não sinto o sabor de nada... Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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